ENTREVISTA | Carlos de Assumpção
29/09/2021 - 14:18

Um grito de esperança

Aos 94 anos, Carlos de Assumpção produz uma poesia de forte tradição oral, que promove a ligação da ancestralidade africana com as formas contemporâneas

 

Por Luiz Felipe Leprevost


Cada vez mais reconhecido com títulos e homenagens, o escritor Carlos de Assumpção tem uma história marcada pelo amor à poesia e o combate ao racismo. Formado em Letras e Direito, Assumpção passou boa parte da vida viajando Brasil afora e declamando em reuniões, assembleias e saraus. Hoje, aos 94 anos, o poeta paulista ainda é capaz de incendiar plateias com a força de seus versos sobre injustiça e violência, que denunciam a opressão sofrida pelas populações negras e ao mesmo tempo partilham a esperança e o desejo de fraternidade.

Nos últimos anos, sua obra passou a ter uma veiculação mais ampla. Contribuíram para isso o lançamento do documentário de longa-metragem Carlos de Assumpção: Protesto (2019), com roteiro e direção de Alberto Pucheu, e a publicação de sua poesia completa (também organizada por Pucheu): Não Pararei de Gritar (Companhia das Letras, 2020).

Antes disso, Assumpção publicou Protesto: Poemas (edição do autor, 1982), Quilombo (edição do autor/Unesp, 2000) e a coletânea Tambores da Noite (Coletivo Cultural Poesia na Brasa, 2009), Protesto e outros Poemas (Ribeirão Gráfica e Editora, 2015) e Poemas Escolhidos (Artefato Edições, 2017). E ainda colaborou com a importante série Cadernos Negros, que desde o final dos anos 1970 publica textos de autores afro-brasileiros. Sua poesia, incluindo o premiado poema “Protesto”, considerado um verdadeiro hino do gênero, também está registrada no CD Quilombo de Palavras, de 1998, produzido em parceria com o poeta Cuti.

Em entrevista realizada por vídeo, este griô contemporâneo compartilha com o Cândido seus saberes, sua história literária e de vida — uma trajetória baseada na disseminação do valor da educação, da poesia e da necessidade de seguir lutando contra o racismo e as desigualdades sociais.

 

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Divulgação/Companhia das Letras

 

Onde o senhor nasceu?

Nasci no interior do estado de São Paulo. Numa cidadezinha do Médio Tietê, chamada Tietê. Tem o nome do rio que atravessa a cidade. Eu nasci do lado de cá, viu? Porque tem gente que nasceu do lado de lá. Sabe quem nasceu do lado de lá e que todo mundo conhece aqui no Brasil? Doutor Elias Temer, este que foi presidente da república.

 

Um presidente controverso, não?

Bastante, bastante controverso. É de Tietê também, assim como eu, só que ele nasceu do outro lado do rio, entende? E diz que mais recentemente ele andou ensinando um rapaz aí a escrever carta, sabe?

 

E o Temer parece que é metido a poeta também, o senhor sabia?

É mesmo? Não sabia. Rapaz, desse aí eu tô fora.

 

E hoje o senhor mora em Franca?

Há mais de 50 anos. Antes de vir para cá eu morei aqui perto, em Rifaina, uma cidadezinha na beira do Rio Grande. Logo na sequência, vim para Franca e cá estou. E vou ficar por aqui. Gosto demais, é uma cidade muito boa, abençoada. Aqui tenho conseguido muita coisa. E vou conseguir muito mais. Graças a Deus. Sabe quem encontrei em Franca? Rossini Camargo Guarnieri. Grande poeta. É tieteense também. Eu não o conhecia, mas já tinha ouvido falar dele, que tem aquele poema “O Preto Serafim Caiu do Andaime”, um poema bonito e forte. Fiquei conhecendo aqui por intermédio de um amigo francano de coração. Foi ele quem me convidou para conversar e me apresentou o Rossini. Como o Rossini era de esquerda, lá em Tietê o pessoal evitava se referir a ele, mas o homem tinha um valor enorme, era um grande coração, um grande poeta. Ninguém cobre o sol com uma peneira, não.

 

O senhor falou que está em Franca há 50 anos, mas nasceu em Tietê. Nesse período o senhor andou por onde?

Morei em São Paulo periodicamente. São Paulo é uma cidade de fabricar doido. Cidade maluca, mas linda. Eu amo São Paulo. Mas não deu certo. O santo de São paulo não bateu com o meu. Nunca deu certo emprego. Uma dificuldade enorme morar lá longe, não dava. Aí eu vim para o interior. Uma ocasião eu saí de São Paulo e vim para Alta Paulista, hoje não tem mais esse nome e as estradas de ferro acabaram. Eu andei por Tupã, quando as casas eram de madeira, agora são de alvenaria. Fui a Marília, sempre em zona rural, em núcleo japonês. Amo os japoneses, um povo reto, em quem se pode confiar, valorizam a educação. Eu lecionava nos bairros rurais, era professor.

 

Isso que eu queria saber, qual era a sua profissão?

Eu me formei em Tietê como professor primário, com muita dificuldade. Naquele tempo quase não havia professor negro. Era difícil porque a escravidão tinha acabado há pouco tempo. Exigia muito sacrifício.

 

Imagino que as pessoas se alfabetizavam com muito esforço, porque precisavam driblar muitos obstáculos.

Não sei como surgiu um Machado de Assis, um Lima Barreto, um Cruz e Sousa, como surgiram essas figuras maravilhosas da literatura. Com certeza foi com muito sacrifício e força de vontade. Veja, a minha mãe, por exemplo, a minha mãe tinha o primário, mas parecia que tinha faculdade, porque lia muito, e a leitura é uma escada para subir. Eu vou falar muito da minha mãe porque ela é uma influência vital na minha vida. Meu pai também, analfabeto, contator de história. Meu avô, Cirilo, carroceiro, era analfabeto também. Naquela época quase ninguém sabia ler, branco, preto, quase ninguém. Era aquilo que querem pregar hoje, faculdade para poucos, já ouviu esse absurdo? Eu quero faculdade para todo mundo, isso sim. Mas meu avô era interessante. Ele era analfabeto e assinava o Estadão já naquele tempo. A minha mãe era quem lia para ele, ela lia e colocava uma cruzinha na matéria para ele saber que aquela já tinha sido lida. Então meu avô chegava na roda dos amigos para discutir politica, porque ele era analfabeto, mas não era burro. Não podemos confundir analfabetismo e burrice, não tem nada a ver, muita gente não sabe isso. Meu avô não sabia ler porque não teve acesso, mas ele tinha cabeça para pensar, cabeça não é só para separar as orelhas.

 

Seu Carlos, o senhor descende de qual nação africana?

Desconfio que de Angola, pelo lado do meu pai. O lado do meu pai eu não conheci, porque a expectativa de vida dos negros era baixa, ainda hoje é baixa. Na época da escravidão era 35 anos, muitos batiam com as dez muito antes. Eu não conheci direito os meus parentes pelo lado do meu pai, só ouvia falar. Mas meu pai contava muitas histórias, ele gostava de contar e a gente gostava de ouvir. Ele ia contando e parecia que a gente estava vendo uma tela de cinema ou televisão, que naquela época nem existia.

 

Aí já aparece o grande valor do griô, da tradição oral, da transmissão de saberes.

Sem dúvida. E as histórias sempre terminavam falando de Angola, então acho que devo ter vindo de lá, daquele lado de lá. Nzinga, tinha esta rainha brava por lá. Oh, mulher negra, guerreira. Quero aproveitar para saudar a mulher negra. A mulher negra é a que mais sofre, que está lá atrás do último da fila, mas tem um valor enorme. Graças a mulher negra é que nos não soçobramos. Quando teve a abolição fajuta, nós ficamos sem emprego, sem dinheiro, comida, roupa, família, sem nada. A mulher negra então saiu à luta, ia cozinhar e trazia comida. E nós sobrevivemos. Uma coisa que parecia impossível naquele momento. Nós poderíamos ter acabado, mas não, graças à mulher negra.

 

O senhor fez parte da Frente Negra Brasileira?

Sabe, a Frente Negra era muito bem organizada, tinha núcleos no Brasil inteiro, inclusive em Tietê. Depois do Getúlio, com o negócio do Estado Novo, que pôs fim em muitos partidos e agremiações, os formatos desses núcleos de resistência foram mudando. Isso atrapalhou muito a vida dos negros no país. Interessante, meu avô gostava do Getúlio. Ele me corrigia, mas eu nunca gostei de ditadura. E eu frequentei, sim, esses núcleos, muitos convertidos na época em sociedades recreativas, eu ia desde muito jovem. Nós partilhávamos nossas histórias. E tinha baile. Quando chegava meia-noite, parava o baile. Para, vamos conversar. Aí, fazia-se discurso. Falava-se sobre racismo, quilombo, sobre a luta do negro. E todo mundo ouvia com respeito. Vai você parar o baile hoje em dia para conscientizar as pessoas, arruma briga.

 

Imagino que a adesão na época era muito grande.

Muito. A abertura ali dentro também era muito grande. E nós vivíamos mais encurralados que hoje. Hoje também não está nada fácil. Só diz que hoje no Brasil não há apartheid aquele que não pensa. É só olhar. Se você vai no centro da cidade, não vê gente negra. Procura, os donos das lojas, mesmo no meio de quem está comparando, você não vê. Agora, vai na periferia, olha a turma lá. Vai no Rio, cadê o pessoal? Olha lá em cima do morro, está todo mundo lá. Outro dia, fiquei triste, você viu que a polícia chegou na comunidade do Jacarezinho e matou muita gente lá? Uns brasileiros choraram e outros não, porque nós não damos muito valor a nós mesmo, não é? Os brasileiros de modo geral. E o vice-presidente da república, vou falar baixo para ele não ouvir, o vice-presidente disse que o povo lá do Jacarezinho era tudo bandido. Você vê que absurdo.

 

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Divulgação/Globonews

 

Como a poesia surgiu na sua vida?

Interessante como é esse mundo. Eu nem sabia que isso existia, a poesia. A minha mãe era presidente da Sociedade 13 de Maio, de Tietê. Antes, o meu avô tinha sido e a minha mãe o sucedeu. Ela gostava muito de poesia. Pegava os filhos e filhas dos associados e levava lá para casa para fazer ensaio de declamação, para depois botar na roda, nas festas. Havia muitas comemorações cívicas, por exemplo, a Lei dos Sexagenários, o 13 de Maio. Havia muita sensibilidade no ar e a meninada fazia a roda de poemas. Circulava por ali a poesia de Castro Alves, Casimiro de Abreu, desses poetas românticos, Fagundes Varella, Francisco Otaviano, a turma quase toda negra. E tinha lá também um Bilac no meio, parnasiano. Minha mãe adorava a poesia dele. Eu ficava assistindo com muito interesse, até que um dia ela me botou na roda. Quando chegou a minha vez, fiquei emocionado demais, não saía nada, na hora me deu um branco na cabeça.

 

E o senhor então passou a vida respondendo, com a sua poesia, essa emoção desconcertante inicial?

Nossa, nem diga. Teve um período em que fui para São Paulo, por lá eu declamava em toda parte, na Associação Cultural do Negro, foi um período de experiências muito forte.

 

Em que época foi isso?

Nos anos 70, por aí.

 

O senhor se considerava um rapaz rebelde?

Minha mãe que diga. Ela falava assim: quem fala demais dá bom dia para cavalo. Era um sábio conselho, mas não eu não podia calar minha boca, não. Ainda hoje falo aos quatro ventos. Nasci para falar mesmo. Faço o que acho que é direito, o que é certo. E venho me fazendo, me construindo durante a vida. Antigamente eu era rebelde, agora não sou mais tanto. Hoje sou um rebelde moderado.

 

A sabedoria chegou.

A dor é uma escola, ensina muita coisa para a gente. Aprendi no decorrer da vida a ser mais paciente. Aquilo que não posso mudar hoje, deixo para amanhã, mas ainda querendo mudar, porque eu não desisto fácil. Não desistir é comigo mesmo. Até fizeram uma sala aqui na Casa da Cultura chamada Sala da Resistência Carlos de Assumpção. Não tem outro jeito, a gente tem que resistir sempre.

 

A sua poesia é bastante oral, carregada ritmos, com muita musicalidade incorporada. E o senhor é um grande declamador. Há certamente influência da música afro-brasileira, dos batuques e das rodas no seu trabalho, tanto escrito quanto falado.

Quando eu era criança, meu avô levava a mim e meus irmãos para ver os batuques de umbigada. A gente ouvia com muito interesse aquele ritmo, absorvia a capacidade inventiva do negro. As modas eram feitas na hora, versavam sobre o cotidiano, tinham muito da oralidade. Eu fui absorvendo aqueles ritmos todos. E na minha terra, muitas vezes, a gente também passava a noite ouvindo cururu. Cururu é um nome indígena, é uma cantoria de improviso e de desafio. Interessante, havia muitos desafios de cururu que utilizavam os conhecimentos da Bíblia. Ainda existe essa bela manifestação cultural na região de Tietê, Capivari, Porto Feliz, Piracicaba, Sorocaba.

 

O senhor lembra de cururueiros que tenham exercido influência no seu trabalho?

Em Sorocaba tivemos o João Davi, considerado o rei dos cururueiros. Rimava de um jeito surpreendente, era maravilhoso, acho que recebia do céu, do Orum, o céu dos orixás, acho que ele recebia mensagem lá de cima. Tivemos também um outro cururueiro famoso, Parafuso, era preto como eu, e era maravilhoso. Havia outros. Estou citando alguns de quem eu era e continuo sendo fã.

 

E quais poetas da sua época, negros ou não, mas especialmente negros, foram pares do senhor, estiveram ao seu lado? Quero dizer, o senhor tinha diálogo com poetas da sua geração ou teve que trilhar sozinho o seu caminho?

No começo, caminhei um longo tempo sozinho, pensando que não existissem outros. Porque eu vivia numa cidade pequena, ali eram conhecidos apenas alguns poucos poetas brancos, não tínhamos notícia de poetas negros. Eu tinha a referência, claro, de Cruz e Sousa, Machado de Assis, que muita gente acha até hoje que era branco. A gente sabe que não era. O branqueamento é um estratagema que foi muito usado quando se trata de um grande escritor, algum negro importante, eles pintam de branco, quando convém, porque quando não convém eles colocam no xilindró. E o Cruz e Sousa, a sociedade foi terrível contra esse grande poeta. Antes dele eu não conhecia nenhum. Dizem que o Francisco Otaviano era bem preto, viveu no período dos últimos 60 anos da escravidão, ainda não sei bem, quem tiver foto dele me mande. Mas o primeiro poeta negro mesmo que tive conhecimento foi o Valério Corrêa, um poeta popular, analfabeto. Surgiu em Tietê de repente, era amigo do meu avô, fazia poesia crítica, poesia social. De vez em quando ele se excedia e prendiam ele no xilindró. Foi um grande poeta. Andava na rua e as crianças em volta. Eu não cheguei a conhecer porque ele já tinha morrido quando eu nasci, mas a minha mãe o conheceu e falava muito dele. Um dia falei para ela que eu queria ser igual ao Valério Corrêa. Agora, de contemporâneo meu, muito contato tive com Solano Trindade. Foi numa época em que, vou falar a verdade, ele andava sempre desempregado, vivia só de poesia, e a gente andava nesse época sempre juntos. Esses dias até veio um amigo meu aqui de Ribeirão e ficamos declamando: “Trem sujo da Leopoldina / correndo correndo / parece dizer / tem gente com fome / tem gente com fome / tem gente com fome”.

 

Esse poema do Solano Trindade é um clássico, assim como o seu poema “Protesto”. Queria que o senhor falasse um pouco dele, por que se tornou um poema tão importante na literatura do país?

 Acho que porque retrata a situação do negro brasileiro e do Brasil. Nós negros somos a maioria da população brasileira, muita gente não sabe disso. Nós somos mais de 110 milhões assumidos, fora os não assumidos que existem. No Brasil, se for botar na balança, o peso maior é a população negra. E o “Protesto” fala da nossa situação, de uma realidade que não poderia ser ignorada como tem sido, não poderia ser como é, porque somos maltratados, alijados, em grande parte não temos acesso. O Brasil não vai para frente sem a população negra, esse povo que aí está ainda não entendeu isso. É um nego véio de 94 anos que está dizendo, esse Brasil não anda sem o negro. O negro esteve sempre presente em todas as decisões importantes dessa terra. Eu tenho muito orgulho de ser negro. Porque o Brasil nasceu no nosso colo, nasceu e cresceu no nosso colo.

 

O senhor é religioso?

Sou. Na minha poesia, falava muito de Jesus Cristo. Mas meu Jesus não é branco não, não é loiro, o meu é um Cristo negro. Eu amo Jesus Cristo, amaria mesmo se ele fosse branco, mas tenho para mim que ele é negro. Vou contar uma história: meu avô repetia a história várias vezes, ele era muito didático, foi com ele que nós, os de Assumpção, aprendemos a ser negros no Brasil, depois seguimos aprendendo com meus pais. Meu avô costumava dizer que, de tempo em tempo, os escravos eram obrigados a se confessar e tinham que trazer de volta para o senhor da terra um documento comprovando que tinham se confessado. Então, acabada a confissão, o padre escrevia o garrancho dele e era obrigatório o confessor trazer o comprovante. Veja, uma opressão completa. E o que o senhor da terra fazia? Ele ia separando, você fica de cá, você fica de lá, ele ia dividindo as partes, uma parte ele mandava embora para senzala e a outra entrava na chibata. Por quê? Porque às vezes o escravo contava que teve vontade de botar fogo na Casa Grande, outro contava queria matar o capataz.

 

Mas sua religião é a católica?

Eu fiz catecismo na Capela de São Benedito, em Tietê. Aprendi a rezar Salve Rainha, li a Bíblia umas cinco vezes. Gosto de ler a Bíblia porque é um livro que abre a cabeça da gente. Aconselhava meus alunos a lerem a Bíblia. Ao mesmo tempo, o que tem de gente por aí que fecha a cabeça dos seus fiéis usando a Bíblia, não é? Existe esse tipo de monstruosidade. Tem gente até que fundamenta o racismo na Bíblia, não é uma loucura? Muita manipulação e opressão, não só contra o homem, mas contra mulher também. Há muitas seitas que trazem a mulher debaixo da sola do sapato, isso não é o que o cristianismo ensina. Cristo abraçava todo mundo.

 

Fiquei imaginando se o senhor é também filho de santo, do candomblé ou da umbanda, porque está usando uma guia.

Eu tenho mais guias aqui. Esta eu ganhei, é da umbanda, uma guia de preto velho. Sabe o que uma mulher perguntou para mim: o senhor benze? Eu não sei nada, mas disse para ela: eu peço a benção de Deus para você, sim. Que é Deus quem abençoa, é Deus quem cuida. E na minha poesia eu falo bastante dos orixás. Para mim, os orixás são tão importantes quanto os santos. Acho que todas as religiões que eu conheço são boas. O que não presta, muitas vezes, são algumas pessoas que usam as religiões para fins escusos.

 

Queria perguntar sobre o pessoal que escreve hoje.

Ah, tem uma lista de pessoas boas, de poetas. A Miriam Alves, a Cristiane Sobral, uma moça que está lá em Brasília na luta e costuma falar que eu tive influência na escrita dela. Mas, que nada, todos nós nascemos nas mesmas dores. Tem o Cuti. Muitos poetas dos Cadernos Negros. Você sabe que os Cadernos Negros surgiram de modo artesanal? Hoje o projeto já está com quase 50 anos, lutando uma luta sem trégua contra o racismo que tem feito tão mal aos negros e aos brancos também. E, acima de tudo, ao Brasil

 

O senhor é primo do Itamar Assumpção?

O pai do Itamar era primo-irmão do meu pai. Ele tinha uma chácara encostada com Tietê, há uns 3 quilômetros do centro da cidade. Eu já chamei ele de primo. Todo mundo jogava capoeira, treinava no terreno na frente da casa principal. Lá era um quilombinho, um quilombinho particular.

 

Chegou a assistir a algum show do Itamar?

Infelizmente, não. Ele vivia para o lado de São Paulo, Paraná, eu vivia aqui no interior, infelizmente não tinha muito contato. Quando ficaram sabendo de mim eu já era adulto, não tive muito contato.

 

Faltou a gente conversar sobre o coral Afro-Francano. O senhor canta no coro?

Não. Eu só tive a ideia. Meus amigos cantam. Eu não sei cantar nada. Mas sou um dos fundadores principais, o pessoal sabe. É um coro de canções negras, falando sobre nossas culturas. Tínhamos uma mulher, que ainda esta aí, é uma regente maravilhosa. Fomos requisitados para apresentar em várias cidades aqui, em Minas, São Paulo.

 

E vocês vieram se apresentar em Curitiba. Qual foi a impressão?

Ah, você ficou sabendo? Foi na Rede Vida. Amei, sabe quem encontramos aí? O bispo de Curitiba. Ficamos alojados num colégio de madres e o bispo foi lá, não sei se para rezar a missa. Sei que estávamos ensaiando e o bispo pediu para tocar o violão, fazendo o acompanhamento. Eu falei: o senhor pode tudo aqui. Bonzinho ele, tem que ver. O bispo incorporou, entrou no nosso meio e cantou junto com o pessoal. Ficamos muito gratos de ser bem recebidos em Curitiba.

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