ENTREVISTA | Andréa del Fuego
29/10/2021 - 13:34

Vilã de novela

Andréa del Fuego fala sobre seu novo romance — A Pediatra — e o lugar da obra em sua carreira marcada por exercícios de escrita e o uso da linguagem

 

por Hiago Rizzi

 

Depois de anos trabalhando em torno de um romance, Andréa del Fuego engavetou o projeto e se rendeu a uma nova aventura. Levou mais algum tempo para encontrar o tom da narrativa e surgiu A Pediatra, escrito de “talagada” pela autora no fim de 2019 e lançado pela Companhia das Letras em outubro. Distante da prosa poética de Os Malaquias (2011), que levou o Prêmio Literário José Saramago, A Pediatra é mais um dos exercícios de escrita de del Fuego — que, segundo ela própria, poderia ter um pseudônimo diferente a cada um de seus nove livros.

A escrita frenética sugere uma leitura com o mesmo ritmo, com ares de livro de aeroporto. As peripécias da pediatra avessa a crianças, no entanto, impõem solavancos ao texto como pedras na água corrente. “A ideia é que seja insuportável no tema, mas que a linguagem seja sedutora”, entrega a escritora mineira. As especificidades do novo livro, o trabalho em torno da linguagem e as ligações entre Raduan Nassar (tema de sua dissertação de mestrado) e a filosofia são assuntos desta entrevista ao Cândido.

 

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Você encontrou o tom para a história e em seguida a escrita de A Pediatra levou um mês. Como foi a pesquisa para o livro?

O trabalho vai além do mês de escrita. É um pouco como um ginasta que imagina um percurso, mentalizando o movimento antes de dar um salto. No meu processo eu fico imaginando o percurso da escrita, a trama da voz literária. A pesquisa aconteceu antes, o universo da medicina sempre foi bastante curioso e interessante, só não sabia que sairia um livro dessa experiência. Agora me aproximei muito de um grupo da USP, chamado Genam, que pesquisa narrativas médicas. Eu gosto muito de grupos do Facebook, então eu já participava de um grupo sobre parto natural, por exemplo, porque era o que eu estava pesquisando. Depois participei de um grupo sobre pericardite, que é a especialização do pai da Cecília [a protagonista]. Também procurei nas redes perfis de médicos. Me interessava saber qual a fala de um médico fora do consultório, porque o livro se passa na mente da Cecília — ela diz muito pouco do que pensa. As redes foram a embocadura para não deixar a voz da personagem seca, como eu conheço a do médico no consultório, como paciente.

 

A sua experiência com a maternidade também está no livro?

Eu fui uma “mãe-prana” [adepta ao parto humanizado], tive minha doula, estive do outro lado de onde a Cecília está. Eu acho tudo muito duro, mas eu escrevi a história de um ponto de vista que não é o meu da vida. A Pediatra tem muito da minha experiência materna, parto e maternidade. Falei com dois médicos enquanto eu pensava o trabalho, antes da escrita. Ao pediatra do meu filho eu fiz uma única pergunta, sobre o conforto médico, porque acho esse ambiente hospitalar interessante e que combina com a ficção — é a área médica, mas lá não estão na função. Em 2019 eu fiz uma residência literária em Portugal, dando aulas e palestras em aldeias, e em uma delas tinha uma senhora que havia sido pediatra. Perguntei para ela se uma pediatra poderia ser a pediatra do próprio filho doente, ao que ela respondeu: “De jeito nenhum, a gente esquece tudo o que estudou”. Isso foi fundamental para escrever uma cena do final do livro.

 

A Pediatra tem um quê de roteiro, uma linguagem audiovisual.

Eu tenho minhas referências como leitora, estudante de filosofia, etc., mas o que me formou de verdade na infância e começo da adolescência foi telenovela. Eu fui criada na frente da televisão, com vilãs de telenovela. Lembrei muito de Carminha, de Avenida Brasil, tem essa pegada. Ao mesmo tempo, foi uma escrita mais invigilante — sem muito polícia e ladrão, eu deixei só o ladrão sem a polícia vigiando. Acho que isso tem muito da Janete Clair. A criança vendo televisão, a mulher má, misturada com as vivências, as leituras e a hipocondria adulta — tudo isso deu no A Pediatra.

 

A relação de Cecília com Deise, empregada da pediatra, traz à tona também a questão das domésticas, em voga há anos.

Para mim é onde a Cecília é pior. Ela é péssima no casamento, com os pais, com as crianças, mas com a Deise existe uma perversidade. Como o leitor só conhece a partir da cabeça dela, ele pode achar que a Deise toma alguma liberdade, mas ela não toma liberdade nenhuma — essa mulher é assediada o tempo todo. Cecília tem o poder, o controle, os botões. Ela não deixa claro a relação que elas têm, criando uma amizade de cozinha que não existe.

 

Os Malaquias levou sete anos para ficar pronto. Todo esse tempo foi dedicado à escrita?

Ele teve um tempo de abandono, nesses sete anos. Como era meu primeiro romance eu tive dúvidas sobre a capacidade dele. Durante a escrita ele teve muitos problemas; capítulos que diminuíram, mudanças estruturais no texto. Anos depois de começar a escrever descobri que a poética estava garantida na própria história, dentro da história. Havia alguns capítulos, em termos poéticos, que diluíam a tensão que dá a sensação de todo do livro. Fazer um livro curto também é sobre o desejo de controle, é onde consigo ter a ideia unitária de livro. Eu não consigo fazer isso num livro grande.

 

Antes de Os Malaquias, e das Companhia das Letras, você revelou em entrevista ao Antônio Abujamra sua vontade de ser publicada por uma grande editora. O que mudou?

Eu era muita ingênua em relação à publicação, recepção e processo literário. Mas o desejo de publicar por uma grande editora é legítimo, pela ideia de um livro que seja acessível e tenha alcance. Hoje, em 2021, há meios como a autopublicação, o financiamento coletivo, redes sociais (que são o novo balcão da livraria), pequenas e médias editoras — têm editoras incríveis com muita paixão e rigor editorial — que alcançam o leitor, a crítica e os resenhistas. A torre de marfim do autor caiu, mas também do leitor, que não precisa mais da chancela do grande crítico — ainda é uma chancela, mas agora os leitores fazem os livros circularem. Na pandemia, então, todo esse campo literário me parece mais acessível, nunca foi tão profícuo. As possibilidades de publicação são muito melhores do que as que eu enfrentei no começo dos anos 2000.

 

Como foi seu contato com Raduan Nassar, tema da sua dissertação de mestrado?

A primeira vez que li Lavoura Arcaica foi um acontecimento literário, físico e biológico. Eu pensei: “Isso aqui foi feito para mim”, aquela narrativa que é feita para comer. Depois, quando eu entrei para a filosofia e decidi fazer um mestrado, um dos autores que eu tive a mesma relação foi o Maurice Merleau-Ponty, que também é um lírico — não tenho outra palavra —, mas cria o lirismo com corpo e linguagem. Como o Raduan Nassar. Para mim foi uma coisa meio óbvia tentar aproximar os dois, Lavoura Arcaica e a prosa do Merleau-Ponty (A Prosa do Mundo, Fenomenologia da Percepção e Sens et Non-sens, especialmente). Lavoura Arcaica começa com um corpo se masturbando e termina com um corpo ceifado, há uma certa sinfonia sensorial a partir da descrição física, e Merleau-Ponty fala de um corpo que reflexiona antes do raciocínio.

 

O seu interesse está antes na linguagem do que na história?

Elas estão muito coladas, até na filosofia acho que é assim. Por exemplo, o que o Merleau-Ponty tem pra dizer, que é uma espécie de aporia, ao falar do enigma do corpo e do enigma da linguagem, tem uma linguagem poética. Aquela coisa da linguagem da linguagem, uma coisa a serviço da outra. Em Lavoura Arcaica a linguagem está presa aos acontecimentos, aquilo é um todo indivisível. Como leitora eu levo essas coisas em consideração. Eu gosto de ter uma primeira leitura muito solta, e o grande prazer é a releitura. Na escrita, meu trabalho é encontrar uma linguagem. Meus livros são muito diferentes uns dos outros, eu poderia ter um pseudônimo para cada livro. Poderia me chamar Verenice assinando Os Malaquias, Jorge assinando As Miniaturas, Cibele assinando A Pediatra. Eu não enxergo uma ligação entre os livros, mas também não sei se é verdade que os invento do zero, se é uma escolha. Não sei se conseguiria fazer uma repetição, A Pediatra na linguagem de Os Malaquias, por exemplo, uma prosa poética. A Pediatra chegou numa excursão que é própria dela, essa mulher só poderia ser nas suas próprias frases. Eu penso nisso o tempo todo também, o que está acontecendo nesse canteiro de obras. É a preocupação do meu trabalho, a linguagem.

 

Essa excursão foi tão rápida que você deixou outro livro na gaveta, com um personagem chamado Javier. Como ele está?

Vou voltar para ele, não deixo ninguém para trás. A mesma coisa aconteceu com o meu primeiro livro, ficou meses lá, quietinho. Enquanto eu não terminava Os Malaquias (2010), escrevi um infantojuvenil delicioso, Sociedade da Caveira de Cristal (2013). Nunca paro de escrever, o processo emperra e eu começo outro em paralelo. Isso independe de publicar ou não — a vida de escrita é completamente afastada da vida literária, são universos muito distintos. E agora vou voltar para ele, o pai dele morava no Chile e agora mora em Mongaguá (litoral de São Paulo). São coisas que estou levando do A Pediatra, uma escrita mais solta. Já tem umas quatro ou cinco versões prontas, o nome provisório era O Homem de Madeira, mas a razão pela qual se chamaria assim eu já descartei.

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