ENTREVISTA | Adriana Negreiros
29/11/2021 - 16:16

Manifesto contra o silêncio

Em A Vida Nunca Mais Será a Mesma, a jornalista e escritora Adriana Negreiros apresenta um relato doloroso e elucidativo sobre a violência sexual no Brasil

 

Por Jonatan Silva

 

Em maio de 2003, a jornalista Adriana Negreiros foi sequestrada no estacionamento de um shopping em São Paulo e estuprada, depois de rodar em seu próprio carro com o algoz. Após quase duas décadas, a escritora quebra o silêncio com A Vida Nunca Mais Será a Mesma, uma investigação corajosa sobre a natureza da violência sexual e da cultura do estupro no Brasil. Partindo de sua experiência pessoal, Adriana cria uma radiografia da barbárie e compartilha histórias de outras mulheres também vítimas de abuso, analisando em profundidade as raízes desse mal.

Em entrevista ao Cândido, Negreiros fala a respeito do processo de criação de A Vida Nunca Mais Será a Mesma e de Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço — em que remonta não apenas a biografia da companheira de Lampião, mas também retrata a trajetória feminina entre os cangaceiros. Também comenta as marcas deixadas pelo medo e a necessidade, cada vez mais urgente, de acabar com a estigmatização das vítimas de violência sexual, dando a elas voz e respeito.

 

Divulgação / Gislene Barreto
Divulgação / Gislene Barreto

 

A Vida Nunca Mais será a Mesma é um relato corajoso em primeira pessoa, intercalado com outras histórias sobre a violência contra a mulher. Em vez do silêncio, que muitas vezes acaba sendo a única opção para as vítimas de violência sexual, você escolheu falar abertamente sobre a sua própria experiência. Essa partilha, ainda que dolorosa e duas décadas depois do episódio, ajuda a fechar a ferida e a romper a solidão desse tipo de violência?

Tomo emprestadas as palavras da escritora norte-americana Audre Lorde: “Passei a acreditar, com uma convicção cada vez maior, que o que me é mais importante deve ser dito, valorizado e compartilhado. A fala me recompensa para além de quaisquer outras consequências”. A violência sexual a que fui submetida há quase 20 anos provocou mudanças profundas em mim. Tornei-me uma mulher cheia de medos. Pensei, durante muito tempo, que o silêncio iria me proteger da vergonha e da tensão; ou, dito de outro modo, seria mais poderoso do que a dor, a ponto de vencê-la, mas essa estratégia claramente não deu certo. E, uma vez que não foi possível superar a vergonha e a dor, decidi transformá-la em algo que me desse satisfação. Essa transformação tem sido gratificante. Agora, por incrível que pareça, sinto menos vergonha de ter sido estuprada do que até meses atrás, quando poucos sabiam do ocorrido. Foi bom livrar-me do segredo.

 

Ao retratar a história de outras mulheres, você dimensiona a violência de uma maneira mais ampla e estarrecedora. Como foi o seu processo de pesquisa e coleta desses casos? Quais as similaridades entre todas essas histórias?

Tive a grande preocupação de relatar outros casos para não dar a impressão de que, ao contar o estupro do qual fui vítima, estivesse a narrar uma história exótica, original. A violência sexual é um drama coletivo. Embora soubesse do grande número de mulheres estupradas no Brasil todos os dias, sabia que a tarefa de encontrar vítimas dispostas a contar suas histórias seria difícil — como minha própria experiência ensinou-me, o convencional é que não queiramos falar sobre o ocorrido, rememorar a dor, dar publicidade a algo que nos causa vergonha. Para encontrar as personagens, contei com a ajuda dos clubes de leituras de mulheres, espaços onde leitoras — na quase totalidade, comprometidas com o feminismo — compartilham também experiências de vida. Relatei para elas, de antemão, que eu também havia sido estuprada e, portanto, conhecia aquela dor. Isso acabou por fortalecer os laços de confiança necessários para o sucesso da relação entre entrevistadora e entrevistadas. Durante as entrevistas, abandonei o papel da repórter isenta e distante para colocar-me em uma certa posição de cumplicidade. Algumas vezes, emocionei-me. Certa tarde, durante uma entrevista num café, a personagem interrompeu a própria fala para me consolar, tão perturbada eu estava com o relato de uma garotinha sendo abusada pelo avô. Ela me contou que até hoje sente um desconforto quando alguém toca na pele dela com suavidade, porque remete ao toque do avô antes do abuso. Aquilo mexeu comigo de um jeito absurdo. O que há de comum em todas as histórias, para além da dor e da vergonha, é a solidão e o espanto. Não conseguimos entender por que alguém submete outro ser humano a tamanha violência. No fundo, meu livro é uma reação a este espanto.

 

Apesar da história dolorosa narrada, você construiu um texto envolvente, que leva o leitor pelas mãos e desperta até certo tom de culpa pelo prazer da leitura. Como foi o processo de escrita, de lapidação, até você chegar na forma final do texto? Como equalizar a dor e uma narrativa tão fluida?

Adoro ouvir elogios ao meu texto. Portanto, fico extremamente feliz ao saber que alguém sentiu prazer durante a leitura do meu livro. Ou seja, não há razão para culpa. Ao longo do processo de escrita, minha maior preocupação foi a de evitar o drama, a pieguice, não produzir um texto tão doloroso que chegasse a ser insuportável. Esses dias, ouvi de um antigo professor do curso de jornalismo da Universidade Federal do Ceará, onde me formei, que riu muito durante o livro. Ele — o Luís-Sergio Santos — referia-se a algumas passagens que escrevi com o objetivo de desanuviar o clima. Fiquei extremamente feliz ao ouvi-lo comentar sobre o riso, porque essa era a minha intenção. Embora eu tenha escrito um livro sobre um tema pesado e haja por aí muitas fotos minhas com cara de triste, eu sou uma pessoa bem-humorada e até metida a engraçadinha. Tentei, na medida do possível, fazer com que esse traço da minha personalidade ficasse evidente no texto.

 

A naturalização da violência sexual e a cultura do estupro são elementos enraizados no modus operandi brasileiro. Existe até uma fetichização da barbárie, muitas vezes até confundida com erotismo. Mesmo que testemunhemos inúmeras tentativas de desconstrução dessas atitudes, algumas figuras da nossa história recente reafirmam e potencializam essa postura violenta. Como a estrutura da grande mídia, principalmente a de apelo popular, contribui para que estupradores e assassinos tenham voz e holofotes?

O estupro diz respeito à violência, ao desejo de controle e poder, à pulsão de morte; o erotismo, ao prazer, à alegria, à criatividade e à vida. Quem confunde violência com erotismo, no fundo, tem déficit de humanidade. A cultura do estupro, a meu ver, relaciona-se com a desumanização a que parcelas da população são submetidas. No caso do Brasil, essa desumanização remonta aos tempos coloniais, com europeus estuprando mulheres negras e indígenas, e chega à atualidade, com homens em posição de poder tratando vítimas de violência sexual como culpadas pela própria barbárie a que foram submetidas. Temos um presidente da República que disse e repetiu para uma deputada a atroz frase “Não te estupro porque você não merece”, como se o estupro fosse uma espécie de presente que um criminoso dá à vítima. Outra vez, um humorista disse que mulheres feias vítimas de estupro deveriam agradecer aos criminosos por terem sido violentadas. Ao reproduzir-se essas atrocidades de forma acrítica ou com a desculpa de que se trata de “liberdade de expressão”, naturaliza-se a violência e autoriza-se estupradores a continuarem agindo como tais.

 

Há pouco tempo, o jornalista Chico Felitti remontou em uma biografia a vida de João de Deus, homem religioso considerado um padrão de conduta, mas que, na verdade, escondia uma personalidade nefasta e que incluía uma série inconcebível de estupros. Na Inglaterra, em 2012, foi revelado que o apresentador Jimmy Savile — um ícone no país — era um notório pedófilo. Como desconstruir as relações de poder que validam a violência e repressão contra a mulher?

Em primeiro lugar, quebrando o silêncio. Repare que, quando um caso de violência sexual envolvendo uma figura poderosa vem à tona, muitas outras vítimas sentem-se encorajadas a denunciá-lo. E note que a propulsão se dá pela fala. Quebrar o silêncio é impositivo. Por outro lado, temos que tomar muito cuidado com os endeusamentos. Nós, jornalistas, temos alguma tendência a construir espécies de heróis, e a história recente tem nos ensinado que isso sempre acaba mal. Tivemos casos no judiciário, na medicina, no curandeirismo, no cinema, no esporte e em muitos outros espaços. São figuras que, cheias de si, vaidosas e amparadas por estruturas de poder (como a imprensa), sentem-se protegidas para cometer abusos de autoridade — estuprar, perseguir inimigos políticos, enriquecer e assim por diante.

 

A impressão que fica do livro é que, não importa as surpresas e alegrias que a vida reserve, os instantes da violência sexual serão sempre uma sombra para a vítima. Em paralelo, você comentou em entrevistas que só conseguiu falar sobre a questão após a morte do seu pai, porque não queria levá-lo a sofrer. Ao longo desses 20 anos, como você lidou com essa memória? Podemos falar em superação completa?

A marca do medo é indelével. O medo faz-me, por exemplo, não me sentir preparada para ver minhas filhas crescerem em São Paulo, onde fui sequestrada e estuprada. O pavor de voltar a ser confrontada com essa violência — e o risco de não escapar dela com vida — tornou-me paranoica, obcecada, cheia de tiques e manias, neurótica, por vezes desagradável e reservada em excesso. Lido com essa memória como posso, tentando afastar-me dos perigos, mas é bem cansativo viver assim, em constante estado de tensão, com os músculos retesados. A memória manifesta-se por meio de uma exaustão constante. Não creio em superação completa, nem minha nem das outras mulheres que entrevistei — daí também o título do livro, A Vida Nunca Mais Será a Mesma. Posso até esquecer-me se quebrei ou não um braço, se tomei ou não banho de açude, mas jamais esquecerei que fui estuprada.

 

Nós temos visto uma ascensão dos conteúdos de true crimes, histórias que remontam casos reais de crimes, em geral, de homicídios ou outros crimes hediondos e chocantes. E falo isso pensando nos casos von Richthofen, Elise Matsunaga, por exemplo. Esse interesse tão grande por tragédias ajuda a preservar uma “memória positiva” desses criminosos ou mesmo revela uma certa glamorização da barbárie?

Penso que é importante contar as histórias, por piores que elas sejam, e compreender as circunstâncias em que as violências ocorreram. Das obras citadas, assisti apenas à série sobre a Elise na Netflix. Os episódios fizeram-me refletir sobre a natureza das relações de dominação e do absurdo que é possuir armas de fogo. Quantas tragédias não seriam evitadas sem a existência de uma pistola? Uma das críticas mais comuns a obras como essa é que elas humanizam os criminosos. Acho essa crítica esquisita. O que se esperava, que eles fossem desumanizados? Isso, naturalmente, não é uma defesa de bandido, como um certo senso comum (e perverso) estabelece. É uma defesa do entendimento, do humanismo e, mais uma vez, da palavra — silenciar, fingir que algo não aconteceu, abafar, nada disso vai nos proteger da barbárie.

 

Antes de A Vida Nunca Mais Será a Mesma você biografou uma das mais célebres mulheres da história brasileira: Maria Bonita, a rainha do cangaço. O livro explora a mulher por trás do mito e nos deparamos com, um cenário de apagamento da importância da figura feminina naquele ambiente árido e masculinizado. Qual era o verdadeiro papel de Maria Bonita, e das outras mulheres do bando de Lampião, na história do cangaço?

O papel das cangaceiras era desempenhado na esfera da intimidade. Dedicavam-se à costura e ao preparo dos alimentos, dentre outras tarefas usualmente atribuídas às mulheres. Não participavam das atividades públicas, como os combates com os comandos de caça aos cangaceiros, tampouco das negociações com políticos e grandes proprietários rurais. Havia, no grupo, uma divisão sexual do trabalho bastante definida. Maria Bonita, por ser mulher do chefe do bando, gozava de privilégios — tinha mais acesso, por exemplo, ao espaço público do que suas colegas ligadas a homens de menor patente.

 

Em Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço você compara a sua personagem a outra heroína que teve a sua história revisitada e reavaliada: Joana d’Arc. Podemos pensar em Maria Bonita como um exemplo não apenas de protagonismo feminino, mas também de emancipação e ruptura com os padrões morais de cada época?

A comparação é no sentido de dizer que Maria Bonita não tem nada a ver com Joana d’Arc. Maria Bonita rompeu com padrões da época ao largar um casamento para fugir com um cangaceiro e, também, por ter uma conduta sexual que não correspondia ao padrão de feminilidade da época. Mas, para livrar-se do jugo de um homem com quem não era feliz (o primeiro marido), precisou submeter-se ao domínio de outro (Lampião). Ao contrário do que propõe uma leitura romanceada da história das cangaceiras, elas não eram feministas ou protagonistas de qualquer movimento de libertação das mulheres.

 

Em vida, Maria Bonita era conhecida como Maria de Déa. Como foi esse percurso até a criação mítica de Maria Bonita? Qual o legado que ela deixa para as mulheres de hoje?

Maria de Déa virou Maria Bonita após a morte, em 1938. Há duas versões para o apelido. Uma delas defende que o nome foi inventado por jornalistas do Rio de Janeiro, inspirados no romance homônimo de Afrânio Peixoto. Outra diz que “Maria Bonita” foi criada pelos soldados que atuaram na execução dos cangaceiros em Angico. Seja qual for a versão verdadeira, o fato é que o nome serviu bem ao projeto de fabricar um mito em torno da figura da cangaceira, reproduzido em filmes, séries de TV e na literatura. Maria Bonita foi uma mulher que, em determinado momento, colocou suas vontades pessoais e vocação para a aventura acima de convenções sociais que, para ela, não pareciam fazer sentido. Nesse aspecto, ela pode ser uma figura inspiradora para a atual geração.

 

E, ao mesmo tempo em que percebemos a força das mulheres no cangaço, enxergamos a figura feminina como um dos principais alvos de violência. Eram comuns os estupros coletivos, inclusive de crianças. Como explicar essa contradição tão chocante?

Não vejo contradição. A força das mulheres no cangaço residia no fato de enfrentarem uma rotina permeada por violências e dificuldades múltiplas — eram estupradas por cangaceiros e policiais, passavam fome e sede, fugiam de tiro, eram obrigadas a abandonar ou doar os filhos tão logo eles nascessem.

 

Ainda que Lampião e Maria Bonita sejam dois dos personagens mais populares e interessantes da história brasileira, não existe uma documentação farta sobre eles. Para compor o livro, você buscou outras mulheres cangaceiras, ou seja, testemunhas oculares daquela época. Como foi o seu processo de pesquisa e de entrevistas para o livro?

A investigação para meu livro sobre Maria Bonita foi feita a partir de três eixos. O primeiro foi a pesquisa bibliográfica. Li tudo o que havia sido publicado sobre o cangaço, pelo menos tudo a que consegui ter acesso. O segundo foi a pesquisa na imprensa — jornais e revistas não apenas da época, mas das décadas seguintes, quando ainda havia ex-cangaceiros vivos. Muitos deles deram entrevistas fundamentais para a compreensão do fenômeno do cangaço. Por fim, fiz viagens de campo para visitar as paisagens frequentadas por Maria Bonita. Nessas visitas, conheci pesquisadores e colecionadores que guardavam um importante acervo sobre os cangaceiros — objetos, fitas cassetes com depoimentos de integrantes do bando, fotografias, documentos pessoais e recortes de jornais que já não constavam dos arquivos oficiais. Para produzir o texto do livro, vali-me das informações obtidas a partir destes três eixos, num trabalho de montagem de quebra-cabeça: juntar as diversas peças com a intenção de chegar a um retrato coerente da participação das mulheres no banditismo rural do sertão nordestino do início do século XX.

 

Você está trabalhando na biografia de Dercy Gonçalves, uma das mulheres mais fascinantes da TV e do teatro brasileiro. Nós conhecemos apenas uma fração dessa mulher, sempre lembrada pela descontração e por falar tudo o que lhe vinha à cabeça. Quais outras facetas podemos esperar encontrar em seu livro?

Dercy era uma mulher engraçadíssima e que fazia o Brasil inteiro gargalhar, mas também teve uma vida marcada por dores e violências. É essa dubiedade que tenho procurado trabalhar no livro.


 

Jonatan Silva é jornalista, crítico e escritor. Trabalhou no jornal Tribuna do Paraná e colabora regularmente com diversas publicações — entre elas Rascunho e Escotilha. É autor dos livros O Estado das Coisas (2015) e Histórias Mínimas (2019).