ENTREVISTA | Ademir Assunção
29/10/2021 - 12:05

Da rebeldia à sabedoria

Ademir Assunção comemora 60 anos de idade com três lançamentos simultâneos

 

por Luiz Felipe Leprevost

 

Mantendo acesa a chama da poesia desde os 16 anos — quando foi arrebatado por um poema de Robert Frost —, o escritor e jornalista paulista Ademir Assunção chega aos 60 mais ativo do que nunca, com três novos livros em circulação. Em Nome Escrito ao Vento (Grafatório Edições), com tiragem de limitada de 360 exemplares, Assunção ironiza em versos o conceito de autobiografia. Já Risca Faca (selo Demônio Negro) é marcado por reflexões sobre a existência, as desigualdades sociais e o próprio fazer poético. Completa a trinca Deus Salve a Rainha e Evite Engarrafamentos (Editora UnB), reunião de sua produção na imprensa cultural.

Em entrevista concedida por e-mail ao Cândido, o autor de 17 livros e vencedor do Jabuti por A Voz do Ventríloquo (2012) discute a “invisibilidade” da poesia, comenta seu trabalho como letrista, relembra os anos em que morou na cidade de Londrina (PR) e reflete sobre o equilíbrio entre as facetas punk e zen de sua personalidade. Leia a seguir.

 

Ademit

 

Você está lançando três livros no mesmo ano, com uma diferença de um mês ou um pouco mais entre eles. Como isso é possível? Você é uma máquina de produzir literatura?

Assim como um monge zen pratica diariamente a arte de manter-se concentradamente distraído e distraidamente concentrado, há pelo menos quatro décadas eu pratico diariamente a arte da linguagem verbal. Todos os dias da minha vida estou envolvido com a leitura e com a escrita, seja anotando frases, percepções e ideias, seja iniciando ou finalizando um poema, seja entrevistando outros poetas, seja estudando como aqueles que vieram antes de mim fizeram seus poemas. Este é o centro da minha vida. Então, é natural que com o tempo vá se acumulando um certo volume de criações que considero importantes se tornarem públicas. Deus Salve a Rainha e Evite Engarrafamentos reúne reportagens, resenhas, artigos que escrevi ao longo de mais de 20 anos. Estava pronto desde 2008. Ficou na gaveta por 13 anos. Os primeiros poemas de Risca Faca foram escritos há uns sete anos. Um Nome Escrito no Vento foi escrito de uma tacada só, há uns quatro anos. Acabaram saindo num curto espaço de tempo e justamente quando completei 60 anos de idade. Creio que é uma boa comemoração. Mas não sou um workaholic. Tenho outras coisas para fazer da vida, como brincar com meus gatos, passear de bicicleta, namorar e dedicar uma parte do tempo a ganhar o necessário sustento que, aliás, não está nada fácil.

 

Para pegar a história do início, como a poesia entrou na sua vida? Como, quando e por que você começou a fazer poesia?

Foi exatamente assim: a poesia entrou na minha vida. Não escolhi, fui escolhido. Até os 16 anos não tinha ligação alguma com a poesia. A faísca veio por acaso, quando um amigo me mostrou um famoso poema de Robert Frost, "The Road Not Taken", A Estrada que Não Trilhei,não lembro de quem era a tradução. Esse poema me pegou de jeito. Logo em seguida descobri Torquato Neto, Paulo Leminski e Ezra Pound. Aí, a poesia se instalou na minha vida para sempre. Foi um arrebatamento que me mostrou claramente que a vida poderia ser algo mais do que nascer, crescer, arrumar um emprego, casar, ter filhos e morrer. Tomei gosto por percorrer a estrada não trilhada pela maioria. Não sei explicar de outro modo: provavelmente alguns nascem com um erro de programação. Deve ter sido o meu caso.

 

Você é nascido em Araraquara (SP), mas grande parte da sua formação e atuação está marcada pela experiência dos anos em que viveu em Londrina (PR). Quando e por que foi para lá?

Até os 16 anos não sabia muito bem o que queria da vida. Estava sendo encaminhado para me tornar engenheiro elétrico. Gostava da ideia de projetar usinas, produzir energia elétrica. Quando a poesia se mostrou em minha vida, passei a considerar a ideia de produzir outro tipo de energia: a energia criativa. Mudei tudo, de uma hora para a outra, e decidi cursar Jornalismo, para permanecer mais perto das palavras. Soube que havia curso de Jornalismo em Londrina e, ao mesmo tempo, descobri uma antologia chamada Tempos, na qual havia dois poetas, vivos, da cidade: Nilson Monteiro e Domingos Pellegrini Jr. Decidi no ato: é para lá que eu vou. Foi uma das decisões mais acertadas. Vivi alguns dos melhores anos da minha vida em Londrina, que parecia a “nossa San Francisco” dos anos 1980: uma cidade pulsante, com amplo espaço para a loucura e a criatividade.

 

O que há em Londrina que deu ao Brasil nomes tão fundamentais da música (Neuza Pinheiro, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé), da literatura (Domingos Pellegrini, Maurício Arruda Mendonça, Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak) e do teatro (Mario Bortolotto), com toda essa rapaziada fazendo um trânsito múltiplo e pulsante entre as linguagens?

Eu acrescentaria nesta lista Paulo de Moraes, Patrícia Selonk, Haruo Ohara, Paulo Barnabé, Bernardo Pellegrini, Simone Mazzer e Janete El Haouli, artistas essenciais no teatro, fotografia e música — correndo o risco de esquecer outras figuras fundamentais. Creio que há três fatores marcantes na Londrina dos anos 1970 e 1980: era uma cidade nova, havia uma mescla considerável de povos diferentes e rolava muito dinheiro por conta do café. Por ser uma cidade nova, não havia nenhuma tradição a quem prestar contas — portanto, o espaço para a inovação estava escancarado. Por ter se tornado uma confluência de ingleses, japoneses, italianos, africanos, além dos migrantes internos, paulistas, gaúchos, mato-grossenses, havia um clima cosmopolita e multicultural. E por ter muito dinheiro circulando, havia uma infraestrutura razoável, que propiciava ter um bom jornal, como a Folha de Londrina, bons teatros, como o Cine Teatro Ouro Verde, com uma ótima programação cinematográfica, festivais internacionais de música e de teatro e uma agitação político-estudantil muito forte. Some-se a esses três, a presença fundamental da universidade, que era muito forte. Não era incomum vermos o maestro Hans-Joachim Koellreutter dando um curso de música de concerto contemporânea, o escritor João Antônio trabalhando no jornal Panorama, ou o Antunes Filho apresentando Macunaíma na cidade. Talvez isso explique uma parte das condições criadas para surgirem tantos talentos inovadores. A outra parte, talvez, seja meio inexplicável. Quem sabe alguém tenha lançado doses generosas de LSD nos reservatórios de água da cidade.

 

Ao lado de Rodrigo Garcia Lopes e Marcos Losnak, você foi um dos editores da revista Coyote, que está fora de circulação há bastante tempo. Existem planos para novas edições ou é um projeto que já cumpriu a sua missão?

A Coyote foi publicada durante 12 anos ininterruptos e parou em 2014. Mas a circulação de revistas desta natureza obedece outra lógica. Assim como a Klaxon e a Revista de Antropofagia, dos modernistas, são referências até hoje, a Coyote continua repercutindo. Volta e meia algum editor diz que se inspirou nela para publicar sua própria revista, seja impressa ou virtual. Com frequência também, poetas e escritores que se destacaram nos anos seguintes me dizem que publicaram suas criações pela primeira vez na Coyote. Talvez ela já tenha cumprido a sua missão, talvez a gente volte a publicá-la, quando surgirem as condições necessárias, talvez a gente resolva fazer outra publicação. Quem sabe a gente consiga fazer uma edição fac-similar com todos os 26 números? Mas, para isso, precisaríamos do apoio de alguma instituição como o Itaú Cultural, o Instituto Moreira Sales ou a Biblioteca Pública do Paraná.

 

Recentemente, entrevistei o Joca Terron para o Cândido. E ele, criticando a invisibilidade da poesia, que, na maioria dos casos, circula apenas entre nós poetas, saiu com a seguinte sentença: “É uma atividade meio inútil, tão útil quanto escrever ficção imaginativa numa época em que todos estão adoecidos pela realidade das miragens. Publicar poesia, afinal, dá quase no mesmo que não publicar”. Qual a sua visão sobre essas questões?

Bem, não penso que a poesia seja algo inútil, penso que ela é um inutensílio, como disseram Paulo Leminski e Manoel de Barros. É diferente: ela não tem uma utilidade como um carro, um celular ou um liquidificador. Porém, somos seres de linguagem e sem a poesia — e também parte da prosa mais inventiva — a língua endurece, perde a elasticidade comunicativa, se torna uma fala de fantasma — como dizem os Yanomami. Por mais que a poesia pareça invisível, seria possível imaginar a língua italiana sem Dante Alighieri ou a língua portuguesa do Brasil sem Carlos Drummond de Andrade? Se formos pensar mais contemporaneamente, o surgimento de um Mano Brown, por exemplo, faz com que a língua incorpore vocábulos, expressões e percepções que estavam escondidas, muitas vezes, massacradas. Isso não é pouco. O problema é que as grandes editoras, que fazem as criações circularem com maior rapidez, são caolhas para a poesia e, especialmente, para as criações mais inventivas. E os meios de comunicação, que poderiam fazê-la repercutir mais, se tornaram medíocres neste aspecto, dando mais atenção ao novo penteado de celebridades do que àquilo que os poetas têm a dizer. É por isso, em parte, que o nível da discussão pública caiu tanto e o Brasil se enveredou para esse buraco em que nos metemos.

 

O capítulo “Zona de Confronto”, de Risca Faca, apresenta poemas de muito impacto, como no caso de “Economia de Mercado”, em que depois de listar uma série de bens de consumo você diz: “tudo vale alguma coisa / qual o preço de um poema?”. Qual é o preço de um poema?

O mesmo que o preço de um gol de placa que levanta uma torcida inteira, de um beijo que nos eletriza o corpo todo, de uma gargalhada diante de um diálogo bem tramado em um filme ou uma peça teatral. O poema “Economia de Mercado” é uma crítica a essa sociedade em que tudo tem que ter um preço, em que tudo tem que gerar lucro para poucos e miséria, inclusive mental, para a maioria. Ao mesmo tempo, é um alerta para que as pessoas percebam que pagam algum preço por um grama de cocaína, um tubo de creme vaginal ou uma pizza de calabresa, mas jamais compram um livro, seja de poesia ou de prosa. São as contradições de uma sociedade que está obcecada cegamente por bens materiais e negligencia os bens que nos tornam mais inteligentes, quiçá, mais sábios.

 

Em qual momento a poesia deixa de estar nessa exigente “zona de confronto”?

Quando ela é feita com negligência, quando ela é frouxa, quando ela se torna mero exibicionismo. Nesses casos, nem pode ser chamada de poesia. Viver é perigoso — escreveu Guimarães Rosa. Viver é confronto, conosco mesmos, para nos conhecermos melhor, e com tudo aquilo que está errado à nossa volta, eu diria. Tenho repetido insistentemente: nascer ignorante, sem saber nada, exceto mamar, defecar e dar aqueles sorrisos encantadores dos bebês, é uma contingência da vida. Agora, morrer ignorante, desperdiçando a chance de viver a grande aventura neste planeta, isso é uma tragédia.

 

No poema “Caso o Acaso”, de Risca Faca, aparece um verso que inverte e atualiza uma noção essencial do lugar da poesia e dos poetas no mundo. Quantas vezes ouvimos e compramos a trágica sentença de que poeta bom é poeta morto. Agora você escreve: “poeta bom é poeta vivo”. O que significa para um poeta brasileiro da sua geração chegar aos 60 anos? Que renúncias e conquistas compõem essa trajetória?

Bem, os cabelos embranqueceram, mas, felizmente, percebo que continuo com a mesma curiosidade que tinha quando era mais jovem — agora, com mais experiência. Mas cada poema é uma aventura nova, como se fosse o primeiro. Talvez esta seja uma grande conquista. Há um livro do mestre Shunryu Suzuki cujo título é Mente Zen, Mente de Principiante. Gosto dessa ideia de frescor, de manter a mente em movimento, sempre aberta para receber novas experiências. Há uma diferença entre o novo e o novidadeiro. O novidadeiro não me interessa. Estou interessado em ampliar cada vez mais minhas percepções, elevar meu pensamento cada vez mais alto, perto da faísca do sol, como no poema de Yukio Mishima, traduzido por Leminski: “Nada nesta vida vai me ver satisfeito; / Novidades do mundo, logo monótonas; / Algo me chama lá em cima, para cima, / Cada vez mais perto da faísca do sol.”


Você vem há bastante tempo trabalhando com poesia falada e cantada. E lançou dois discos, Rebelião da Zona Fantasma e Viralatas de Córdoba. Também tem uma obra como letrista, com parcerias com Itamar Assumpção, Edvaldo Santana, Zeca Baleiro, Titane, Patrícia Amaral e Madan, entre outros. Como funciona o seu trabalho nessa intersecção entre poesia e música?

Uma das propriedades da linguagem poética que presto bastante atenção é a melopeia, o ritmo dos versos, a musicalidade das palavras. Gosto, por exemplo, de ouvir nigerianos conversando na praça da República, em São Paulo. Não entendo nada do significado do que eles dizem, mas fico encantado com a cadência das palavras que eles pronunciam. Falam uma linguagem extremamente percussiva, parece que estão tocando tambores. Por essa atenção à melopeia, meus poemas acabam sendo muito musicais e alguns compositores o transformam em canções. Porém, a vida toda busquei uma maneira de entoar, eu mesmo, meus próprios poemas — algo que funcionasse com a estrutura de uma banda e que resultasse em shows e gravações. Esse trabalho de décadas resultou nos dois CDs, Rebelião na Zona Fantasma e Viralatas de Córdoba. Nunca quis ler meus poemas, linearmente, no palco, com uma banda fazendo fundo musical. Sempre quis algo mais orgânico, com os versos colocados dentro de compassos e estruturas musicais, mas permanecendo no território da fala, da fala ritmada. Nunca pretendi ser cantor.

 

Como letrista, você coloca as letras nas melodias dos parceiros ou são eles que musicam seus poemas?

Nunca coloquei letra em uma melodia. Já aconteceu, com Edvaldo Santana, de fazermos algo juntos, a partir de uma melodia que ele havia criado. Ele ia tocando e eu ia encaixando os versos na melodia, criados ali na hora. Mas é raro. A maioria das parcerias é de poemas prontos que foram musicados, sem nenhuma alteração. Tive a felicidade de encontrar ao longo da vida parceiros como o Madan, que tinha uma impressionante habilidade de musicar poemas, o Itamar, o Edvaldo, o Zeca. São compositores com extremo faro para a poesia. Tanto que escrevem seus próprios poemas musicais e se dedicam a musicar poemas de outros poetas. Somos seres rítmicos, basta estarmos atentos aos batimentos cardíacos ou à respiração para ouvirmos o ritmo das palavras que saem das nossas gargantas. Quando se presta atenção a isso, a poesia se torna muito próxima da música e até da dança, como nos primórdios.

 

Há um equilíbrio bastante sofisticado nos poemas tanto de Risca Faca quanto de Um Nome Escrito no Vento. Como você consegue equilibrar os dois extremos que aparecem constantemente em sua poesia, a veia punk e o zen? Como se dá essa liga?

Ao longo do tempo foi se formando um lema em mim: da rebeldia à sabedoria. A rebeldia contra tudo aquilo que nos quer estanques, congelados, paralisados, é essencial para se viver uma vida plena. É um tipo de energia que, no meu caso, me mantém atento e ativo. Mas a rebeldia pode se tornar uma caricatura, uma mazela de menino mimado. Não é isso que me interessa. O que me interessa é o verdadeiro conhecimento. Não quero que me escondam o que é essencial. Por isso a rebeldia: para se chegar à sabedoria, ou algo próximo disso. Então, as audições de rock’n’roll, de punk rock, a leitura dos poetas rebeldes e a prática do zen penetraram na minha vida. Muitos apontam na minha linguagem esses dois lados: a veia punk e o zen. Então, parece que estão lá, mesmo. Mas são dois aspectos da mesma personalidade. Não são dois lados, talvez sejam uma unidade.

 

Você ainda mantém uma prática zen-budista? Você medita?

No zen, o que chamamos de meditação é chamado de zazen: sentar-se diante de uma parece branca, com a postura correta, a respiração correta e a mente correta. Não é algo que você pratica uma vez por dia, durante quarenta minutos. É uma postura que você procura manter ao longo do dia todo. Algo nada fácil, mas que mantém a sua atenção extremamente concentrada. Sou um pouco preguiçoso. Não pratico o zazen com a frequência que deveria. Mas não me atazano por isso. Tenho uma outra prática: a poesia. Ela é meu , meu caminho, meu zazen diário, meu contato com os grandes mistérios da existência. Há muito tempo estou convencido de que aquilo que nos vendem como “realidade” é maya, como dizem os hindus, pura ilusão. Para citar a famosa frase de Shakespeare, em Hamlet, “há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Quer algo mais miserável do que dedicar a vida inteira unicamente a ganhar tubos de dinheiro, acumular bens materiais e falar palavras vazias?

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