Brito versus Carpeaux: uma guerra infinita?
15/02/2019 - 11:50

Luiz Bras


Vocês sabem, existem infinitos Brasis, afinal existem infinitas linhas do tempo, também chamadas de universos alternativos, em que outros eus e vocês estão vivendo outras alegrias e tristezas. 

Numa edição alternativa do jornal Cândido de um Brasil alternativo, outros artigos estão ocupando o espaço deste artigo, neste exato momento. Em muitas linhas do tempo, os brasileiros são apaixonados por ficção científica — estrangeira e brasileira — e as obras futuristas são um sucesso estrondoso de público e crítica. Nessas linhas do tempo este artigo não faria sentido.

Mas em nossa linha do tempo, infelizmente, essa paixão se restringe a uma pequena comunidade de leitores e escritores guerrilheiros. Em nossa linha do tempo, o preconceito contra a FC em geral e a FCB em particular parece um mal crônico e invencível.

Sessenta anos atrás em nossa linha do tempo, uma importante antologia de contos estrangeiros de FC foi lançada pela editora Cultrix. Seu título: Maravilhas da ficção científica (1958). A obra foi organizada por Fernando Correia da Silva e Wilma Pupo Nogueira Brito.

Na introdução à antologia, o crí- tico literário Mário da Silva Brito compartilhou com os leitores uma verdadeira declaração de amor pelo gênero.

Três trechos:

“Será inquestionavelmente mais científico encarar essa literatura como vinculada à própria condição do homem contemporâneo frente ao conhecimento, às formas de vida e de comportamento do seu tempo, às incertezas do mundo que limita, dia a dia, suas esperanças nos descaminhos políticos, às inquietações forjadas pela própria aventura ou experiência científica, à crise que, afinal, define esta etapa histórica. Na verdade, a ficção científica só é literariamente válida enquanto pertença ao universo da linguagem e da poesia e signifique uma medida da criatura humana.

(…) 

A ficção científica, de fato, é mais literatura do que ciência.

(...)

Há mesmo críticos literários que definem a ficção científica como a literatura da hipótese. O que importa assinalar é que os escritores de ficção científica creem, convictamente, nas histórias que inventam e dão força de verdade à supra-realidade que descrevem. Por isso mesmo, os psicanalistas se detêm na análise mais profunda dessas narrativas, sentindo-as como um sonho rico de símbolos. Mas neste, como em qualquer outro gênero literário, o artesão não é dispensado, as regras estéticas não são abandonadas e nem a arte de compor, consoante as exigências estilísticas, é de plano secundário. Exatamente porque, antes de mais nada, é preciso respeitar a sua condição de literatura.”

     Reprodução
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Os críticos Mário da Silva Brito (1916) e Otto Maria Carpeaux (1900-1978) divergiram sobre a importância da ficção científica como gênero literário no final dos anos 1950. O debate segue, mas o status da FC como um gênero menor ainda persiste. 

Mas no ano seguinte o crítico literário Otto Maria Carpeaux contra-escreveu, no artigo intitulado Science-fiction, publicado no jornal O Estado de S. Paulo (16 de maio de 1959):

“Os habitantes de planetas na science-fiction, dotados de forças físicas e mentais superiores às nossas, são reedições dos gênios astrais da época pré-copernicana. Mais exatamente: são anjos. Science-fiction é, inconscientemente, literatura pseudo-religiosa, literatura de edificação do homem que já não suporta sua solidão no Universo. (…) O sonho do desejo de conquistar o espaço produz seu efeito psicológico contrário. É o medo de uma catástrofe cósmica e da destruição do mundo. (…) A psicose é caracterizada pela perda total do contato com a realidade. Literariamente, a consequência é a baixa realidade: literatura de cordel.

(...)

Essa science-fiction moderna nunca será degradada a literatura infantil (assim como aconteceu ao grande e terrível livro de Swift, As viagens de Gulliver), porque já é infantil. O puerilismo do nosso tempo, que já foi diagnosticado por Johan Huizinga, encontra na science-fiction uma manifestação quase tão característica como as histórias em quadrinhos. Essa literatura de cordel fornece ao leitor comum todas as trivialidades, horrores, sentimentalismos etc. que a literatura moderna exclui cuidadosamente dos seus enredos (ou da sua falta de enredo). A science-fiction faz questão de não tocar nunca em problemas psicológicos ou questões sociais. Ao embarcar para o espaço, perdeu o contato não só com a Terra, mas também com a realidade. Evasão? Mas essa evasão tem objetivo bem definido: cancelar um processo histórico.”

De lá pra cá — repito, já se passaram seis décadas —, essa polarização não mudou. Também não mudou o estatuto da FC de modo geral e da FCB de modo particular no cenário da literatura brasileira.

É verdade que os argumentos se tornaram mais elaborados nos dois lados, a própria FC produzida no Brasil tornou-se mais ampla e sofisticada, porém sua legitimação cultural ainda não aconteceu. Seu baixo prestígio continua praticamente inalterado.

Parece até um déjà-vu, ou então estamos presos numa fatia recursiva do tempo, igual ao personagem do Bill Murray no Dia da Marmota.

O erro de Carpeaux e de todos que se alinham com ele (Wilson Martins, Muniz Sodré, Nelson Ascher etc.): desconhecer as obras-primas da ficção científica e avaliar o gênero a partir apenas de suas obras medianas ou medíocres. Ora, quando a crítica séria avalia um gênero artístico ou literário, ela precisa descartar as obras medianas e medíocres e analisar principalmente as grandes realizações nesse gênero. Mordidos pelo preconceito, Carpeaux e seus seguidores se esquecem dessa regra básica, melhor resumida — Roberto de Sousa Causo me lembra, durante um café — no famoso Postulado de Dickson: “Uma arte deve ser julgada pelo seu melhor, não pelo seu pior”.
Do romantismo ao concretismo, passando pelo realismo, simbolismo, surrealismo, nouveau roman etc… Se essas escolas literárias fossem avaliadas esteticamente como fez Carpeaux — e outros — com a ficção científica, ou seja, a partir de suas obras menos interessantes, não pedra sobre pedra.


LUIZ BRAS é coordenador do Ateliê Escrevendo o Futuro e autor das novelas Anacrônicos e Não chore, da rapsódia Distrito federal, do romance Sozinho no deserto extremo e das coletâneas de contos MáquinaMacunaíma e Paraíso líquido. Todas obras de ficção científica.

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