Memória | Sidónio Muralha
25/05/2020 - 14:04

A palavra permanece

Os cem anos de um autor português que viveu duas décadas no Brasil, fugido do regime salazarista, e deixou uma obra influenciada pela esperança nas crianças   

 

João Lucas Dusi

 

Em julho de 2020 é comemorado o centenário do escritor e poeta português Sidónio Muralha (1920-1982), que viveu por duas décadas no Brasil e publicou mais de 35 livros, entre adultos e infantis. Uma exposição de fotos, originais e cartas, organizada pela fundação que leva o nome do autor, estava marcada para acontecer na Biblioteca Pública do Paraná no mês de seu nascimento, mas a agenda foi suspensa devido à pandemia do novo coronavírus. As atividades que aconteceriam em Portugal, em junho, também foram canceladas. A previsão é de que a mostra itinerante comece a circular em 2021.  

Para escapar da ditadura salazarista, na década de 1940, Sidónio fugiu para o Congo Belga, na África, e chegou ao Brasil em 1962 — onde passou um tempo em São Paulo e viveu em Curitiba ao lado da esposa, a médica Helen Anne Butler Muralha, responsável pela criação da Fundação Sidónio Muralha. “A instituição foi criada, em 1988, para manter e difundir sua obra, mas principalmente para estimular o prazer da leitura nas crianças”, conta Helen.

Para atingir esse objetivo, são ofertadas pela FSM atividades como oficinas para contadores de histórias, concursos de poesia e desenho e cursos de filosofia. Nos versos de “Os Olhos das Crianças”, publicado em livro homônimo de 1963, é possível observar a preocupação e o compromisso que ele tinha com os pequenos:

 

Atrás dos muros altos com garrafas partidas

bem para trás das grades do silêncio imposto

as crianças de olhos de espanto e de medo transidas

as crianças vendidas alugadas perseguidas

olham os poetas com lágrimas no rosto.

 

Olham os poetas as crianças das vielas

mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas

o que elas pedem é que gritemos por elas

as crianças sem livros sem ternura sem janelas

as crianças dos versos que são como pedradas.

 

sidonio muralha
O escritor português Sidónio Muralha (1920-1982) viveu por duas décadas no Brasil e publicou mais de 35 livros. Foto: João Urban

 

Postura combativa
A vivência de Muralha em meio à opressão do Estado Novo português e sua passagem pelo continente africano, registrada no livro Esse Congo que Foi Belga (1969), parecem ter dado o tom de seu trabalho literário, relacionado inicialmente com o movimento neorrealista — surgido no final da década de 1930, em Portugal, com a participação de vozes ativas contra o totalitarismo. Para a historiadora Roseli Boschilia, dedicada aos estudos migratórios e de autobiografias, “a produção literária de Sidónio, no seu conjunto, evidencia sua indignação diante das injustiças e sua luta constante por uma sociedade mais justa”.

Essa postura combativa e resiliente, não restrita somente à literatura, parece vir de berço. Segundo o próprio Sidónio, em entrevista de 1972 ao Diário Popular de Lisboa, “o sentido de adaptação do português, a sua resistência à dor e uma perseverança que toca as raias da teimosia, são as suas características essenciais quando emigra”. Complementando esse raciocínio, em ensaio publicado no livro A Missão Portuguesa — Rotas Entrecruzadas (2003), organizado por Fernando Lemos e Rui Moreira Leite, a especialista em literatura portuguesa Maria Helena Nery Garcez anota: “Sidónio Muralha, português de espírito universalista, foi um rude e implacável lutador”. 

Para dar corpo à ideia de semear uma sociedade mais justa, para além de um presente marcado por desigualdades e regimes ditatoriais, o autor foi um dos fundadores, ao lado do pintor Fernando Lemos e outros artistas, da editora paulistana Giroflé — primeira brasileira voltada para a publicação exclusiva de literatura infantil, cujo nome se origina de uma cantiga de roda e foi responsável por lançar o livro Ou Isto ou Aquilo (1964), de Cecilia Meireles.

Já em Curitiba, o trabalho infantil de Muralha se destacou ao inovar o formato das obras. O visual mais moderno e diferenciado das publicações foi ideia do arquiteto e idealizador da Gibiteca de Curitiba, Key Imaguire Júnior, que também correu atrás de toda a papelada para que a casa onde funciona a Fundação Sidónio Muralha, no bairro Rebouças, fosse reconhecida como patrimônio histórico da cidade em 2002.

Além do contato direto com Cecília, Muralha se relacionou com outros que viriam a ser nomes importantes da literatura brasileira, como o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Ele também costumava passar finais de semana em uma casa no bairro Bom Retiro, na capital paranaense, em companhia de Helena Kolody e Imaguire — com o qual, aliás, frequentava regularmente o extinto bar e restaurante Enseada, nas proximidades da Praça Rui Barbosa, onde compartilhava com o amigo suas andanças por diferentes países e continentes.    

 

Legado
Autor de mais de 20 livros para o público adulto, entre prosa e poesia, Sidónio Muralha ficou mais conhecido por sua premiada produção infantil, com títulos como A Televisão da Bicharada (1962), Valéria e a Vida (1976) e Helena e a Cotovia (1976), entre outros. “Ele considerava que escrever conseguia transfigurar sentimentos negativos, que sem criatividade a vida ficaria estática e errante. Em relação às crianças, sabia que elas representam o futuro e por isso nada estava perdido”, diz Helen Butler.

Hoje, próximo do centenário de seu nascimento e quase 40 anos após sua morte, o autor português dá nome a uma escola municipal, a uma biblioteca e a uma rua de Curitiba. Além, é claro, da instituição que funciona na casa onde sua esposa cresceu. Essas celebrações materiais servem para complementar uma vida dedicada às letras, com uma posição política bem definida — mesmo que jamais tenha se filiado a nenhum partido, já que, como escritor, considerava esse distanciamento do poder o melhor dos caminhos. “Quando a gente casa com um escritor, com um poeta, ele não morre. A palavra dele sempre permanece”, reflete Helen.

 

Participe do projeto em homenagem ao centenário de Sidónio Muralha, realizado em parceria com a Biblioteca Pública do Paraná. Confira aqui o edital.