Para gostar de ler: Vampiros e Malditos

Jovens leitores descobrem na literatura beatnik e na fantasia o gosto pela leitura


Felipe Kryminice


Stephenie Meyer: sucesso com a saga “Crepúsculo”.

 

 

George R.R. Martin: 15 milhões de cópias vendidas.
 




J.K.Rowling: fama mundial com os livros da
série “Harry Potter”.
  
 

John Fante: autor do
clássico Pergunte ao pó.





Charles Bokowski: poesia e
prosa regadas a cerveja.





Jack Kerouac:
o pai dos beats.
  
 
Mais do que introspecção ou rebeldia, o hábito da leitura também pode ser tomado por outro viés: a busca da liberdade. Tanto para escritores quanto para leitores, a ficção — por mais que muitas vezes traga vestígios autobiográficos — é uma alternativa de fuga do cotidiano, estimulando o imaginário e permitindo a experiência prazerosa ao leitor.

Sob o signo da liberdade, alguns autores criaram obras cujo enredo que prontamente atingiu o público jovem e seus anseios. Autores como Charles Bukowski, John Fante e Jack Kerouac tiveram como matéria-prima a música (On the road), o sexo (Notas de um velho safado), e a liberdade (Pergunte ao pó), falando diretamente ao público jovem.

Personagens como Arturo Bandini, criado por John Fante, e Henry Chinaski, presente na obra de Charles Bukowski, se tornaram herois da cultura jovem, ainda que, na essência, sejam anti-herois. On the road, de Jack Kerouac — que foi adaptado para o cinema por Walter Saller Jr. e está em cartaz nas salas de todo o país — ainda hoje aparece como um dos livros mais vendidos e lidos pelos jovens, o que prova que a ficção “maldita” de Bukowski e companhia, tem sobrevivido bem à passagem do tempo.

Livro de inspiração autobiográfica, Pé na estrada descreve as viagens através dos Estados Unidos e México de Sal Paradise e Dean Moriarty. Ao cruzar os Estados Unidos de carro, Sal Paradise e Dean Moriarty empreenderam a viagem que, segundo o autor, todos os jovens um dia sonharam em fazer, repleta de garotas, bebidas e, acima de tudo, liberdade.

O escritor Rafael Rodrigues, que mora em Feira de Santana, na Bahia, é um leitor que carrega no imaginário a herança afetiva de sua “fase bukowskiana e fanteana”. Fisgado pela leitura, inicialmente por meio das crônicas de Fernando Sabino, ele conta que Arturo Bandini — alterego de Fante — continua sendo um de seus personagens preferidos.

Rodrigues acredita que parte do sucesso desse tipo de literatura se deve ao estilo autêntico das obras. “Bandini se acha um gênio, Henry Chinaski só quer saber de bebidas e mulheres, e nem um nem outro deixam de falar o que pensam, ainda que isso lhes custe o emprego ou mesmo o sucesso literário. Eles são autênticos e acho que, por isso, encantam os jovens”, analisa Rodrigues, que trabalha como vendedor em uma livraria.

Na opinião de Rodrigues, os livros desse gênero passaram a disputar a preferência de jovens leitores com romances best-sellers. “Há alguns anos, era mais frequente ver jovens leitores procurarem livros de Charles Bukowski e John Fante. Hoje, os rapazes leem os romances de Nicholas Sparks”, observa o escritor.

Rodrigues lamenta que, no tempo presente, há autores que escrevem livros para serem lidos em um final de semana e serem esquecidos em poucos dias. “Porque se tratam de histórias superficiais e insossas, cujos conflitos se resolvem na última página, diferentemente dos clássicos, que ressoam por anos, décadas, séculos. O motivo? É que clássicos provocam discussões. É por essas, e outras, que toda a obra de um Nicholas Sparks não chega aos pés de 50 páginas de Crime e castigo”, analisa Rodrigues, que não fica um dia sequer sem ler.

Fantasia pop
Assim como a literatura beatnik, que se quer libertária e é considerada marginal, a literatura de fantasia também aparece como gênero que tem feito a cabeça dos jovens. Um dos nomes mais badalados dessa safra é George R.R. Martin, best-seller com a série As crônicas de gelo e fogo. O autor contabiliza mais de 15 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo e lança mão de histórias densas, tramas bem amarradas, evocando intrigas shakesperianas, além de tratar de sexo e política para colocar em pauta a questão humana.

Pascoal Soto, diretor editorial da Leya, selo responsável pela publicação do autor no Brasil, acredita que a febre da “fantasia” não é um fato isolado, mas sinal de que o gênero tem força, e chegou para ficar — pelo menos por alguns anos. “Penso que esse sucesso seja uma consequência da grande evidência e espaço que esse gênero tem conquistado. Certamente adaptações para TV e cinema contribuíram muito para que os livros fantasy se estabelecessem e conseguissem público cativo”, diz Soto.

Eduardo Spohr e André Vianco, campeões de venda, são responsáveis pela consolidação da literatura de fantasia no Brasil — Vianco atingiu a expressiva marca de 700 mil cópias publicadas, mostrando, conforme apontou Soto, o bom momento que o gênero atravessa em terras tupiniquins.

No entendimento de Soto, esse fenômeno pode ser analisado como uma clara perspectiva de novos e assíduos leitores. “Livros como esses contribuem diretamente para a formação de novos leitores. Mais do que isso, criam leitores assíduos, interessados”, diz o editor, completando que, por exemplo, nas obras de George R.R. Martin, é possível perceber um fenômeno parecido com o que aconteceu na época das publicações de Harry Potter — série de obras que, certamente, formou toda uma geração de leitores. “Leitores esses que buscam, antes de qualquer coisa, bons livros. Vale lembrar que esse sucesso não é à toa. Antes de qualquer coisa, são ótimos livros, muito bem escritos. Na literatura, em qualquer gênero, quem permanece, quem fica, é quem faz bem feito.” finaliza o editor da Leya no Brasil.
  

Clarice na rede


A internet e as redes sociais são outro grande chamariz para novos leitores. Não é preciso procurar muito para encontrar usuários postando e comentando trechos de obras de autores clássicos e contemporâneos. Na rede, fragmentos de obras são recortados e passam a ser reproduzidos como espécies de aforismos.
Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Paulo Leminski são alguns dos autores que passaram a ter na rede uma repercussão, às vezes, maior do que a que tiveram em vida. Páginas que concentram citações dos autores atingem frequentemente um alcance de mais de 100 mil usuários.

José Castello, crítico e leitor afetivo de Clarice, encara como positiva essa “febre” nas redes, destacando a aproximação dos internautas com o texto. “A verdade é que, por meio da web, muita gente — sobretudo os mais jovens, que dificilmente parariam para lê-la — começa a se aproximar de Clarice e de seus escritos. Há uma aproximação com o texto, e é isso o que interessa”, opina o escritor e crítico literário.

Embora parte desses internautas não aparentem ser necessariamente leitores da obra de Clarice, Castello considera que a web — por mais tortuosa que possa ser nesse sentido — pode aparecer como alternativa para se chegar ao destino desejado: o prazer da leitura. “É como se você, em vez de pegar a estrada principal, pegasse uma via secundária, esburacada, enlameada, cheia de desvios. Não é o melhor caminho mas, se você acaba chegando a seu destino, o que importa é que chegou.”

O crítico e escritor ainda resume e simplifica o hábito da leitura e da formação de novos leitores, independente da plataforma: “É o prazer da leitura que forma um bom leitor”.