RESENHA | Maternidades em colapso – uma leitura de Bebê tem fascinação por lâmpadas, de Julia Raiz 11/05/2026 - 16:14

Por Flávia Péret

 

Já faz um tempo que me interesso por livros que narram e descrevem a experiência da maternidade a partir dos seus pontos de fuga e de contraste. Narrativas e personagens que, de certo modo, profanam a imagem do "anjo do lar" ou da "noivinha", figuras descritas por Virginia Woolf e Suely Rolnik, para nomear subjetividades edificadas em torno do casamento, da família e dos filhos. Livros e personagens que rompem com o roteiro construído a partir de um ideal de abnegação insustentável, expondo, assim, as angústias, contradições e ambivalências que a experiência de gerar, parir e cuidar produz. São livros que desmontam estereótipos e imaginários enraizados no comportamento e no psiquismo feminino e que operam uma desmontagem crítica e estética fundamental no campo da literatura.

 

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"Bebê tem fascinação por lâmpadas" faz parte da Coleção Contínua (2024), editada pela Chão da Feira, junto com "In vitro" de Isabel Zapata e "Enquanto" de Maria Carolina Fenati. | Imagem: Divulgação / Chão da Feira

 

 

Como não lembrar de Leda, a personagem principal do romance A filha perdida, da escritora italiana Elena Ferrante. Uma mulher que se afasta, temporariamente, das filhas para investir na carreira acadêmica, um gesto corriqueiro na experiência masculina, mas visto, no caso dela, como uma falha moral. Ou Valéria, a protagonista de Caderno proibido, da também italiana Alba de Céspedes. Neste romance, a transgressão é mais sutil. Valéria, uma mulher casada e devotada ao marido e aos filhos, decide começar a escrever. E esse gesto mínimo, registrar a própria experiência, desorganiza seu mundo, pois faz emergir uma série de incômodos que orbitam em torno de uma vida que só nas aparências é perfeita. Leda e Valéria são nossas heroínas contemporâneas. Mulheres que ousaram fazer o que nossas mães e avós, com algumas exceções, não puderam: expor as ambivalências e a exaustiva carga mental que envolve a maternidade.

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"A filha perdida" (2005) de Elena Ferrante, traduzido e publicado no Brasil pela Intrínseca em 2017 | Imagem: Divulgação / Intrínseca
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"Caderno proibido" (1951) de Alba de Céspedes, traduzido e publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2022

 

Bebê tem fascinação por lâmpadas (Chão da Feira, 2024), da escritora Julia Raiz (São Paulo, 1991) se filia a esse movimento, ao mesmo tempo que se desloca dele, trazendo outros pontos de vista e experiências para pensar a maternidade. Se, por um lado, os livros descritos anteriormente se organizam em torno de um relato subjetivo e autobiográfico, palco, ainda que tensi­onado, da voz materna, Bebê tem fascinação por lâm­pa­das não apenas se afasta da enunciação na primeira pessoa do singular, como a implode, dissolvendo a experiência individual num entrelaçamento coletivo de vozes, histórias e traumas e, revelando, assim, a dimensão coletiva da maternidade, bem como o aparato biomédico e social que a configura.

Em Bebê tem fascinação por lâmpadas, acompanhamos o amadurecimento de um projeto de escrita que se iniciou em 2017, com a publicação do livro Diário: a mulher e o cavalo. Poeta, escritora, ensaísta, tradutora e professora, Julia Raiz costuma se definir, com toda razão, como uma trabalhadora da palavra. O contato diário e intenso com a linguagem verbal faz com que sua principal obsessão sejam as tensões e os choques que a escrita pode fazer emergir, sempre no limite, ou na desmaterialização, dos gêneros literários. Desde o início, sua proposta estética define-se pelo atrito entre poesia e prosa, ou, mais precisamente, pelas metamorfoses contínuas entre esses dois (ou mais) registros. Trata-se de uma tensão construída frase a frase por uma autora que experimenta e testa o potencial alucinatório das palavras, chegando a construções saturadas de sentido estético e político, profundamente singulares e que provocam uma experiência de leitura igualmente singular nos seus leitores. Esse estilo único, aperfeiçoado a cada novo livro, também está presente em Bebê tem fascinação por lâmpadas por meio de frases ágeis, ásperas e cortantes, mas, ao mesmo tempo, poéticas. Curto-circuitos por onde circulam a ironia, o paradoxo, o impensável.

A obra é uma narrativa curta, dividida em 32 capítulos, sobre os primeiros meses de vida de um bebê. A história se passa, quase exclusivamente, dentro de uma maternidade pública num país parecido com o Brasil, igualmente violento, corrupto e desigual, mas não nomeado. O livro se ancora num registro próximo do real, porém um real levemente distópico, produzindo um efeito de verossimilhança ambíguo – estranho e familiar – e que oscila entre a ficção especulativa, o relato etnográfico e o ensaio. Longe da imagem edulcorada, em tons pastéis, encenada nos ensaios fotográ­ficos de gestação que circulam nas redes, onde mulhe­res grávidas posam com bichinhos de pelúcia em am­bientes limpos, claros e calmos, aqui a atmosfera é den­sa, asfixiante, como se tudo estivesse no limiar de uma violência prestes a eclodir. Engana-se, entretanto, quem imaginar que Bebê tem fascinação por lâmpadas é um livro sombrio. A narrativa é densa e perturbadora, mas, em vários momentos chega a ser cômica. Sabemos que certas tensões só se dissipam com o riso, este elemento de escape capaz de quebrar, ainda que de modo breve, o sentido, fazendo emergir o absurdo, o nonsense, o grotesco, o trágico e, inclusive, o poético.

 

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"Diário: a mulher e o cavalo" (2018) de Julia Raiz, republicado em 2023 pela Telaranha | Imagem: Divulgação / Telaranha

 

 

Objetivamente, o leitor recebe pouquíssimas informações sobre essa pequena criatura que acabou de nascer: Bebê. Não sabemos quem são seus pais (ou quem são as pessoas que cuidam de Bebê), já que as nomeações tradicionais (mãe e pai) inexistem. Os personagens deixam de se relacionar a partir das regras de parentesco para atuar a partir de funções: alimentar, carregar, limpar, colocar para dormir. Inexistem, também, os substantivos próprios e os verbos conjugados na primeira pessoa do singular. O "eu" dá lugar ao "nós". E o mais perturbador: não sabemos o gênero de Bebê. Em nenhum momento do texto um nome próprio é revelado. Além disso, os artigos definidos (o, a, um, uma), bem como os pronomes (ele, ela), categorias linguísticas que designam, na língua portuguesa, o gênero sexual das pessoas, também são evitados.

Neste cenário, de torções e de apagamentos, duas personagens ganham um protagonismo incomum. Uma delas é a Enfermeira. Ela trabalha no hospital onde Bebê nasceu. É mãe. Tem um filho pequeno, que ainda mama, e uma filha adolescente, que acabou de completar 15 anos. Enfermeira trabalhou até o fim da segunda gestação. É simpática, um pouco vaidosa no modo de se vestir e defende a esterilização compulsória como política pública capaz de conter as altas taxas de natalidade entre mulheres pobres e/ou vulneráveis, como por exemplo, usuárias de substâncias químicas. Ela perdeu a mãe quando era criança e, por isso, tem uma tristeza e uma dor que não consegue explicar. Por causa dessa orfandade, precisou, desde nova, se virar, precisou crescer rápido, seu primeiro emprego foi como recepcionista em um hotel. Mesmo sem um modelo de maternidade a partir do qual se espelhar e, talvez, justamente por isso, a Enfermeira se profissionalizou em cuidar de outras mães, mulheres e meninas semiabandonadas nos quartos de uma maternidade pública num país tão vulnerável quanto suas pacientes.

A outra personagem é a Assistente Social. Assim como a Enfermeira, ela também defende a esterilização compulsória: esterilizem essas mulheres drogadas que trocam crianças por maços de cigarro, vocifera sem medo de chocar. Assistente Social também tem dois filhos, um de 8 anos e outro de 14. Foi criada pela avó, a quem chama de mãe e tem com esta mulher uma série de problemas difíceis de resolver. A Assistente Social diz que o número de crianças maltratadas antes do primeiro ano de vida cresceu. Ela se preocupa com o abandono infantil. Acredita que, com menos crianças nascendo, haveria, também, menos abandono e violência. Depois de ficar doente, de uma doença não nomeada que ronda o País, a Assistente Social perde o paladar e o olfato. Na igreja, escuta dizer que a doença tem a ver com o desapego. O pulmão contaminado tenta respirar, sofre pequenos cortes que cicatrizam e podem gerar coágulos. O pulmão fica igual vidro fosco na radiografia. Dá exatamente isto no exame: pulmão com aspecto de vidro fosco.

São essas duas personagens, mulheres cujo trabalho as torna detentoras de um saber profundamente imanente, colado à experiência cotidiana de ver nascer e ver morrer, que fazem a ligação com as dezenas de outras mães que, todos os dias, passam pelo hospital. A vulnerabilidade materna, exacerbada no pós-parto, nesta fase, igualmente irreal chamada puerpério, parece desenhar um mapa de reverberações, como se pudéssemos ver todas essas vulnerabilidades espelha­das, ou como no gesto de abrir uma boneca russa, uma mulher dentro da outra, uma história dentro da outra: mães solos, mães de primeira viagem, mães que vão ter seus bebês sem um acompanhante, mães que chegam completamente transtornadas, mães jovens e mães maduras.

Ao deslocar o foco da mãe como figura central e incontestável nos relatos sobre maternidade, o livro atribui protagonismo a personagens que, em geral, permanecem na margem. Mais do que coadjuvantes, a Enfermeira e a Assistente Social emergem como figuras narrativas que condensam discursos, práticas institucionais e experiências íntimas. Ambas são mães, ambas trabalham no limite de um sistema em colapso, e ambas defendem, com diferentes inflexões, a esterilização como política de contenção – posicionamento que revela a violência difusa, muitas vezes naturalizada, inscrita no cotidiano hospitalar. Ao acompanharmos seus gestos, falas e histórias, a perda precoce, o corpo exausto, a doença sem nome, acessamos uma camada menos visível da maternidade, onde cuidado e controle, empatia e julgamento, se entrelaçam de forma tensa. Esse deslocamento produz um efeito político contundente. Ao trazer para o centro mulheres que operam nos bastidores da cena materna, o texto ilumina as engrenagens sociais, médicas e morais que sustentam – e por vezes violentam – a própria ideia da maternidade.

Embora imperfeitas, às vezes detestáveis, impacientes, mas também acolhedoras, a Enfermeira e a Assistente Social são as verdadeiras heroínas de Bebê tem fascinação por lâmpadas. O herói, entendido na perspectiva que Adriana Cavarero formula, não como um ser extraordinário, mas alguém com uma história a contar, uma vida narrável. Contar histórias e fazer aparecer realidades e corpos excluídos das estruturas biopolíticas e econômicas de exploração e de expropria­ção da vida é, como nos mostra Julia Raiz, um dos de­veres da literatura.

 

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Flávia Péret é escritora e professora de criação literária. É autora dos livros Os Patos (2018), Mulher-Bomba (2019), Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeças (2021), Coisas presentes demais (2025), Mineração do outro: fotografia e fabulação numa palestra-performance (2025), entre outros. Também conhece uma ma­ternidade pública por dentro, vive e trabalha em Belo Horizonte (MG).

 

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