REPORTAGEM | Do sebo ambulante a shows em livrarias: os caminhos do livro em Curitiba 10/03/2026 - 17:48

A circulação de livros segue ativa; é preciso fazer barulho

Por Nayara Almeida

 

Leitores(as) estão por toda parte, e, por conseguinte, assim estão os negócios literários, desde vendedores ambulantes a sebos que mantêm os livros circulan­do e vivos. A bicicleta-sebo Livros Nômades circula por Curitiba com livros nos espaços fixos, como a Joaquim, uma livraria com novos e usados que se destaca com iniciativas fora do comum.

A tradutora Emanuela Siqueira, 39, passa seu tempo fuçando nos livros usados. "Lembro que uma das primeiras livrarias que conheci foi a Só Ler, que vendia revistas e livros". Na cida­de que nasceu, no interior de Santa Catarina, não en­contrava livrarias, e considera uma "magia" a possibi­lidade de passar os sábados nos sebos e livrarias da capital paranaense. 

Sua relação com a cidade foi inicialmente focada nas livrarias de usados. Como também trabalhou no ramo, prefere o termo "livraria de novos e usados", ao invés de sebo. Por mais popular que o extremo seja, não abrange a magnitude dos livros.

O cenário nacional de comércios literários, mapeado pelo 5.º Anuário Nacional de Livrarias, realizado pela Associação Nacional de Livrarias (ANL), em 2023, ob­serva uma queda de 1,8% de livrarias em relação ao úl­timo anuário, de 2013, totalizando 2.972 comércios. Além da redução desses espaços, percebe-se cada vez menos leitores. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, aponta uma perda de quase 7 milhões de leitores no país nos últimos quatro anos. 

Apenas no Paraná são 161 livrarias, e, destas, 55 ficam em Curitiba. Os dados são catalogados a partir das livrarias que são associadas à ANL, no entanto, esses números não englobam as vendas que estão fora do espaço físico e que não estão catalogadas na organização.

A presença de sebos em Curitiba é imprescindível para manter circulando os exemplares. Alguns exem­plos são: Fígaro Livros Usados, Arcádia, Sebo Líder, Sebo Kapricho, Sebo Só Ler, Túnel do Tempo Livros Usa­dos, entre outros.

 

Sebo sobre rodas

Além do espaço físico, a bicicleta Livros Nômades circula a cidade com o sebo sobre rodas. Há mais de três anos, Richel D'Aguiar (38), e a esposa, Daniele Nazário (35), pedalam com cerca de cem livros dis­tribuídos em duas caixas na bicicleta. Ele che­gou a tra­balhar em um sebo tradicional e, com a ex­periência, abriu seu próprio negócio. Os primeiros me­ses foram apenas ele e uma mochila com as obras, mas a abordagem não era receptiva, então desenvolveu o seu modelo atual.

O casal se mudou da cidade natal, Joinville, Santa Catarina, para Curitiba, no Paraná. Richel e Dani rodam por parques, praças e feiras na região central da cidade. O que começou como paixão pelos livros e compartilhar esse gosto se tornou o sustento da família. "Gostamos de lidar com os livros, as pessoas que conhecemos através do nosso projeto, fizemos muitos amigos leitores, aprendemos muito com essa troca", conta Daniele. 

Além da bicicleta, eles administram o perfil @livros_nomades, acumulando mais de 4 mil seguidores na plataforma, além de terem um perfil no marketplace da Estante Virtual. "Nós priorizamos a venda olho no olho, mas como temos muitos livros específicos, a estante virtual acaba fazendo essa ponte entre nós e clientes do Brasil todo".

A legislação dos vendedores ambulantes não garante a circulação para a categoria de livros, porém, o casal persiste, motivado pelo seu sonho em tornar aces­­sível a literatura, ainda com os desafios. Eles estão desamparados pela lei como vendedores; há cerca de dois anos, tiveram os livros apreendidos, retirados ape­nas mediante o pagamento de uma multa.

De acordo com eles, "somos o menor e mais desorganizado sebo da cidade", e continuam permitindo que o livro circule sobre duas rodas.

 

Livros nomades
Com um sebo ambulante sobre duas rodas, os Livros Nômades conectam leitores, cidades e afetos pela venda olho no olho | Foto: Livros Nômades / Divulgação
Livros Nômades
Foto: Livros Nômades / Divulgação
 

 

Iniciativa punk

Em paralelo, na rua Alfredo Bufren, na loja dos fundos do número 51, a Livraria Joaquim mantém a venda de livros novos e usados, discos e CDs. Com dezoito anos de história, permanece resistindo às oscilações do mercado editorial, principalmente o preço do livro. O nome é uma homenagem a duas figuras importantes da literatura brasileira: o escritor curitibano Dalton Trevisan, que editou a revista Joaquim nos anos 1950, e também o primeiro nome de Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis).

A presença do romancista é tão marcante na loja que, logo na entrada, o visitante percebe o cartaz do conto A Igreja do Diabo (1884), que decora o ambiente e, por vezes, assusta os visitantes mais conservadores. 

O historiador de formação Marcos Roberto Ramos Duarte (57), estabeleceu uma afinidade com os livros na faculdade. Após uma década de trabalho nos sebos em São Paulo, decidiu criar seu próprio negócio em Curitiba: um espaço focado no público universitário das áreas de Humanas, Artes e Música. Ele afirma que precisa manter a venda tanto de livros quanto de discos para sustentar a estrutura, como possui somente a loja física, as taxas de envio pelos Correios não compensam.

O público universitário é o mais comum na livraria, porém, o proprietário tenta outras alternativas para a sua permanência, como os shows de bandas locais de pop e punk rock, em uma espécie de tiny desk. A iniciativa aconteceu pela primeira vez em 2007, com um show da banda Maremotos. A iniciativa é uma forma de promover a loja e incentivar a cena cultural local.

 

Livraria Joaquim
Sede da livraria Joaquim (2025) | Foto: Acervo da autora / Nayara Almeida | Edição: Cândido

 

Para a tradutora e pesquisadora Emanuela Siqueira, aquele espaço foi mais do que um emprego, fez parte de sua formação profissional. Ela chegou a trabalhar no local por mais de dez anos, mas seu vínculo com a loja já beira os quinze. Ali, não era apenas uma vendedora, também exercia a paixão pela música ao cuidar da curadoria dos discos e na seleção de livros. Havia uma liberdade que as grandes redes não permitiam. "A gente sempre teve muita liberdade de fazer a coisa mo­vimentar dentro da loja", recorda Emanuela. Essa autonomia permitia a realização de shows e eventos que misturavam as artes, transformando a livraria em um polo cultural vivo.

A filosofia de trabalho é o que Emanuela define co­mo uma "iniciativa punk". Um dos maiores aprendizados, segundo ela, foi a importância da coletividade, de dialogar e construir junto com outros livreiros e a­gentes da cena cultural. A Joaquim a ensinou a valorizar o acervo próprio e a curadoria cuidadosa de um ca­tálogo que refletisse uma identidade além da lista de mais vendidos.

O cotidiano era imprevisível e ao mesmo tempo fascinante. Pelas portas da livraria, entravam as mais diversas "figuras e personagens do centro", desde clientes vendendo produtos, pessoas em situação de rua, Testemunhas de Jeová, ou até quem chamasse a loja de "marxista", por conta dos adesivos. Em meio a tudo isso, ocorre a troca genuína com os leitores. "Indicar livros para as pessoas, falar: 'Olha, essa tradução na época foi famosa'", diz Emanuela.

Ao olhar para trás, Siqueira não tem dúvidas do impacto daquela livraria em sua trajetória. "Com certeza, só sou a tradutora que sou hoje, fiz mestrado, doutorado, por causa dessa iniciativa punk, que é a Joaquim".

A loja se mantém apenas com a venda de livros, discos e CDs, com uma média de setenta a cem livros vendidos por semana, considerada baixa pelo proprietário. "Eu deixo o público à vontade e se a pessoa dá abertura para conversar, a gente conversa. Agora eu não chego, 'ah, olha isso aqui está em promoção'", con­ta Marcos.  

O Sul do Brasil representa 53% dos leitores do país e, desse total, o Paraná concentra 54% dos leitores des­sa região, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil de 2024. Nesse contexto, a sobrevivência de espaços como a Joaquim e a Livros Nômades ultrapassa o ponto de venda. A livraria resiste não apenas como uma loja, mas como um ponto de encon­tro, provando que, às vezes, para manter o livro circu­lando, é preciso fazer barulho.

 

livraria joaquim
Foto: Acervo da autora / Nayara Almeida | Edição: Cândido
livraria joaquim
Foto: Acervo da autora / Nayara Almeida | Edição: Cândido

 

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Nayara Almeida, de Campo Largo (PR), é jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Participou de projetos de Iniciação Científica dedicados à imprensa paranaense durante a ditadura militar e ao apagamento histórico das mulheres no jornalismo, com especial atenção ao jornal Última Hora e à trajetória de Celina Luz, única jornalista mulher da redação. Atualmente, faz parte da equipe comunicação do Museu Oscar Niemeyer. O seu primeiro livro é originário de seu Trabalho de Conclusão de Curso, "O livro das livrarias: os espaços por onde passa a Curitiba que lê", que reconstrói por meio de relatos e pesquisa, os espaços literários que moldaram o imaginário da capital e de seus leitores.


 


 


 

 

 

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