ORELHAS MARCADAS | Por quantos segundos o leitor do futuro vai conseguir ler esta coluna? 13/03/2026 - 10:42
Por Carlitos Marinho
Para começar, esta edição 168 do Cândido que você está lendo está no digital, meu caro leitor ciborgue. O papel está vivíssimo a sete palmos na lama do mangue. Eu sei que você não consegue fazer nada se não fizer tudo ao mesmo tempo. A sua pane e ansiedade nasceram aqui, ainda no início do século 21. Então, acenda, ligue, dê logo o play no som de Chico Science e comece a dançar como um caranguejo enquanto lê este texto. (Talvez, daqui a 50 anos o link esteja quebrado, então sente a bunda na cadeira e dance os dedos no buscador de streaming mais próximo de você: Da Lama ao Caos – Chico Science)
Modernizar o passado é uma evolução musical, disse Chico Science, na sua música "Monólogo ao pé do ouvido", que abre o álbum Da Lama ao Caos, de 1994. O artista pernambucano completaria 60 anos de vida no dia 13 de março de 2026. Ele morreu aos 30 anos em um acidente de carro em fevereiro de 1997. Em azul, letras de seu repertório musical.
A responsabilidade de tocar o seu pandeiro. É a responsabilidade de você manter-se inteiro. Por isso chegou a hora dessa roda começar. Samba Makossa da pesada. Vamos todos celebrar. (Samba Makossa)
Junto com Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s, de 1997, o disco de Chico Science está, indiscutivelmente, na prateleira dos mais importantes álbuns da década de 1990. A relevância está na produção musical mais livre e cru que elevou os trabalhos a farol para todas as próximas gerações. Tanto o Da Lama ao Caos quanto o disco seguinte do grupo, Afrociberdelia, – de 1996 e que completa 30 anos em 2026 – marcam a transição na história da música brasileira, que passou a criar novos gêneros musicais a partir da mistura de ritmos regionais.
Mais que um gênero musical, Chico Science foi responsável pela criação do Manguebeat, movimento cultural e musical que surgiu no Recife, no início dos anos 1990. Ele misturou maracatu, coco, ciranda e afoxé com rock, hip hop, funk, reggae, eletrônica, fumaça, poeira, lama e caranguejos.
E a lama come mocambo e no mocambo tem molambo. E o molambo já voou, caiu lá no calçamento. Bem no sol do meio-dia, o carro passou por cima. E o molambo ficou lá. Molambo eu, molambo tu. (Rios, Pontes & Overdrives)
Citado como protagonista do novo movimento cultural do Hip Hop brasileiro, Mano Brown, líder do grupo de rap Racionais MC's, comprova essa característica. O ídolo máximo de todas as periferias brasileiras diz que escutou muita música nordestina em casa enquanto crescia no bairro Capão Redondo, na zona sul da capital São Paulo. Ele cita artistas como Siri do Forró e a dupla Léo Canhoto e Robertinho, ritmos que não aparecem nos beats de DJ KL Jay – que têm muito de Public Enemy, Cassiano e até o trip-hop da banda inglesa Portishead – mas que contribuíram para a formação cultural de Mano Brown.
É o povo na arte. É arte no povo. E não o povo na arte, de quem faz arte com o povo. (Etnia)
Na mesma pegada, mas com sonoridade mais inovadora, Chico Science, líder da banda Nação Zumbi, trouxe a estética de uma antena parabólica enfiada na lama do manguezal. O mangue é a metáfora visual de uma cidade fértil e caótica. A invenção musical nasce do barro e do ruído urbano. Sem pedir licença, o movimento conectou a capital de Pernambuco, Recife, ao mundo.
O Sol nasce e ilumina as pedras evoluídas. Que cresceram com a força de pedreiros suicidas. A cidade não para, a cidade só cresce. O de cima sobe e o debaixo desce. (A Cidade)
DESANTENADOS – A primeira música do álbum Da Lama ao Caos, de Chico Science e a banda Nação Zumbi, tem pouco mais de 5 minutos. Hoje, muito mais do que naquela época, seria tempo demais para os ouvidos que perderam o bombril da antena.
Sempre quando escrevo no Cândido, penso no leitor do futuro, que poderá recorrer às edições atuais para entender o passado. Da mesma forma, recorremos às edições dos jornais Joaquim e Nicolau para entender uma Curitiba provinciana e que passava a se colocar dentro do debate literário nacional.
Capas das primeiras edições dos jornais Nicolau e Joaquim
Não há mistérios em descobrir. O que você tem e o que você gosta. Não há mistérios em descobrir. O que você é e o que você faz. (Etnia)
Para entender este leitor, é possível encontrar algumas pistas no presente. Na verdade, não são apenas pistas, está tudo escancarado.
Veja bem, quando você nasceu, leitor do presente, não havia redes sociais. Tentar lembrar do seu rosto de criança, é algo um pouco confuso. Um álbum de fotografias de família ajuda bastante. Está lá você, na sua festinha de aniversário, com outras crianças que você não sabe quem são e nem para onde foram, um refrigerante do tipo cola da marca Cherry Coke que não existe mais, bolo de festa com papel de arroz do Palmeiras, um cabelo castanho ondulado de sua avó que é muito diferente do grisalho atual, teu pai de camisa quadriculada que você nunca mais viu ele usando, e até mesmo um homem bêbado ao fundo que, pelo rosto avermelhado, provavelmente foi quem estragou o teu patinete no mesmo dia que ganhou de presente.
Lembro quase tudo que sei, e organizando as ideias, lembro que esqueci de tudo, mas eu escuto o samba. (Samba do lado)
Os rolos de filme de câmera analógica, que tornaram-se artigos de museu assim como os jornais impressos, deram lugar às câmeras digitais, especialmente às embutidas em smartphones. O que antes era um momento singelo de atenção ao que acontecia, hoje se desloca para o enquadramento da foto ou do vídeo que tenta registrar a cena que será compartilhada imediatamente no story do Instagram, ou posteriormente em formato de carrossel com o “dump” do mês.
Imediatamente, me vem à cabeça o pequeno Ravi Di Felice. O nome, que é uma mistura de Índia com Itália, é do filho da Viih Tube com o Eliezer ex-BBB, que igualmente detêm sobrenomes excelentes. Ravi, quando ainda estava na barriga da Viih, já tinha uma conta no Instagram com a foto de perfil do ultrassom obstétrico, com mais de 80 mil seguidores.
A pressa em divulgar todas as atividades da criança não é exclusividade do casal estrelado. Hoje, cada passo dos Theos e Auroras são exaustivamente registrados e compartilhados, criando uma espécie de bebê-reborn humano, um alter ego dos pais. Com tanta exposição e acesso a qualquer tipo de conteúdo, novas gerações não serão mais donas de sua própria personalidade.
Este corpo de lama que tu vê, é apenas a imagem que sou. Este corpo de lama que tu vê, é apenas a imagem que é tu. (Corpo de Lama)
ESGOTO DIGITAL – Não é apenas a exposição de crianças feita pelos pais nas redes sociais que é prejudicial, a negligência e a falta de supervisão sob o que elas veem na internet pode ter consequências ainda mais devastadoras para a sociedade. Deixar crianças e adolescentes trancafiados em seus quartos e expostos a conteúdos misóginos, pornográficos e violentos sem supervisão adequada, pode aumentar a busca por pertencimento em comunidades tóxicas, naturalizar humilhação e dominação sobre mulheres, enfraquecer a noção de limite e consentimento e estimular comportamentos impulsivos, sobretudo em uma fase em que o cérebro ainda está em desenvolvimento.
Um estupro coletivo cometido por homens de 17 a 19 anos contra uma jovem de 17 anos na cidade do Rio de Janeiro tomou o noticiário nacional. O crime que está sendo investigado é acompanhado por uma onda de feminicídio que tomou o país. Uma reportagem da jornalista Bruna Fantti, na Folha de S.Paulo, mostra que só na cidade do Rio de Janeiro, de 2021 a 2025, houve um aumento de 93% no número de adolescentes que são apontados como autores nas ocorrências que apuram crimes sexuais.
Vitor Hugo Simonin, de 19 anos, apontado como participante do estupro coletivo, se apresentou na delegacia vestindo uma blusa com a frase "regret nothing", expressão em inglês que significa "não se arrependa de nada". O lema é associado a Andrew Tate, influenciador americano-britânico conhecido por discursos misóginos e que responde a acusações de estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores. Tate também é mencionado na série Adolescência, da Netflix, que discute o impacto da machosfera – redes e comunidades virtuais marcadas pela misoginia – sobre os jovens, além da omissão dos pais diante da vida digital dos filhos.
No dia 17 de março, será assinado o decreto presidencial do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, que deve representar um avanço histórico na proteção de dados de crianças e adolescentes no Brasil. A nova lei traz mecanismos concretos para garantir um ambiente digital mais seguro e saudável para esse público, um dos grupos mais vulneráveis aos riscos de ambientes digitais.
“Me organizando, posso desorganizar” é somente com este lema de Chico Science que será possível projetar o leitor do futuro. Para o momento atual, é necessário que perfis de crianças e adolescentes nas redes sociais tenham configurações mais protetivas, com restrição de contatos com desconhecidos, verificação mais apurada da idade e limites aos feeds viciantes.
Mas isso não basta. Também será preciso fortalecer a mediação de pais e responsáveis, ampliar a educação digital e sexual nas escolas e cobrar das plataformas alguma responsabilidade sobre o ambiente que ajudam a moldar. Assim, é possível construir um caminho que concilie a proteção de dados, o respeito à privacidade e a defesa de crianças e adolescentes, sem abrir mão da formação de cidadãos e leitores com alguma capacidade de atenção, senso crítico e presença no mundo.
Deixar que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer. Deixar que os olhos vejam pequenos detalhes lentamente. Deixar que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, pra lhe servir quando for preciso, e nunca lhe causar danos, sejam eles morais, físicos ou psicológicos. (Corpo de Lama)
Leu algo interessante no noticiário nas últimas semanas? Envie-nos um e-mail (jornalcandido@gmail.com) e inclua seu nome e local de residência. Confira abaixo as orelhas marcadas para esta edição.
30 de Janeiro de 2026 — Walter Porto, editor da Ilustrada, caderno de cultura da Folha de S.Paulo, fez uma reportagem sobre o motivo de a literatura brasileira ainda não ter deslanchado no exterior, assim como a música ou cinema. Ele conversou com alguns personagens. "Se o cinema brasileiro está desse tamanho lá fora e não tem um táxi que você entre e não toque música brasileira, por que a literatura tem essa dificuldade de se projetar?", questionou Gustavo Faraon, editor da Dublinense. Rita Mattar, sócia da Fósforo, emendou. "O dia que criadores de conteúdo de livros estrangeiros entenderem o engajamento que a literatura brasileira gera, vai ser o nosso petróleo."
21 de fevereiro de 2026 — A jornalista Juliana Gomes, em sua newsletter Jornal do Veneno, escreve sobre as tendências de consumo alimentar para 2026 com o fio condutor "era do comer com propósito". Segundo a escritora, a comida e a bebida deixaram de ser só prazer ou saciedade e viraram produto de performance.
"Se tivesse poder para ditar tendências, eu escolheria a volta do pão francês personalizado e artesanal, sem mistura pronta cheia de aditivos, com cada padaria tendo a própria assinatura. Também adoraria que os restaurantes de sushi e seu marasmo de opções à base de salmão de cativeiro fossem substituídos por comida brasileira rica em vegetais. Que os carrinhos de milho, tapioca e pipoca voltassem para as praças e terminais de ônibus. Que os cozinheiros dos estabelecimentos por quilo não cozinhassem o brócolis na água e soubessem temperar uma cenoura. E que, em vez de cerveja sem álcool, sem glúten e com adição de vitamina, os bares servissem mate com limão caseiro bem geladinho"
27 de fevereiro de 2026 — Rodrigo Casarin, na sua newsletter Página Cinco, diz que se sente um tanto desconfortável quando alguém pergunta se a tradução de um livro é boa. "Está aí uma sacanagem imensa. Ora, sem conhecer o texto em sua língua original, o que faz alguém pensar que é do tradutor a culpa por uma versão truncada em português? Não passa pela cabeça que tal literatura pode ser mesmo uma bomba e que, na verdade, o tradutor foi brilhante em conseguir verter aquela trolha com todas as suas arestas para outro idioma?"
30 de Janeiro de 2026 — Ishmael Reed é um escritor e intelectual americano – poeta, ensaísta, compositor, dramaturgo e romancista, com 87 anos e mais de 30 livros. Ele é conhecido por combater o "tokenismo", que é a cooptação de artistas negros para dar aparência de diversidade a um meio cultural ainda segregado. O jornalista Gabriel Trigueiro, na Folha de S.Paulo, escreveu sobre o romance Mumbo Jumbo (1972), de Ishmael, que foi lançado no Brasil só em 2025. O livro saiu pela editora Zain, com tradução de João Vitor Schmidt.
Mumbo Jumbo é, se você quiser, um romance "pós-moderno", "afro-diaspórico" e "multicultural". Mas, repare, ele é tudo isso antes de esse léxico ter se tornado moda e um atalho editorial preguiçoso, algo estéril. É metafísico como o John Coltrane de A Love Supreme, e encantado como o Jorge Ben Jor de A Tábua de Esmeralda. Antes dele não havia nada igual e, mais de meio século depois, a paisagem cultural permanece inalterada. Ishmael Reed inaugurou mundos, mas não deixou herdeiros."
24 de fevereiro de 2026 — Carlos Carone, para o portal Metrópoles, descreveu os encontros casuais entre homens que ocorrem na rua aos fundos de um mercado atacadista na cidade de Taguatinga, no Distrito Federal. "Sob o manto da madrugada densa e silenciosa, existe um trecho de asfalto em Taguatinga Sul que ignora o sono e as convenções. Atrás de um grande mercado atacadista na QS 3, a geografia da cidade se transforma. Ali, a iluminação pública é uma lembrança distante, e o que impera é o breu, interrompido apenas pelo brilho de faróis que cortam a pista como lâminas de luz, revelando, por breves segundos, o que muitos preferem manter no escuro: sexo intenso, rápido e sem compromisso. A rua, abraçada por áreas verdes que parecem vigiar o local em silêncio, torna-se o palco de um ritual frenético. Não há nomes, apresentações e muito menos promessas de um amanhã. O que se vê é uma fila de veículos, parados no acostamento, quase encostados uns nos outros, lembrando um drive-thru distópico, onde o produto consumido é o sexo e o pagamento é o risco do prazer proibido. Carros elétricos, importados de luxo e os mais populares se misturam sem distinção."
Recado dos leitores
11 de fevereiro de 2026 — Parabéns pela nova edição do Cândido (167). Vocês seguem se superando, e é um crime este governo não rodar mais o periódico impresso. A equipe que tem prosseguido com a produção do jornal têm feito um trabalho do mais alto nível.
Ivan Justen Santana, agente cultural
11 de fevereiro de 2056 — A capa desta edição (167) está sensacional!
Luiz Felipe Cunha, jornalista
11 de fevereiro de 2026 — O jornal literário da Biblioteca Pública do Paraná é exemplar.
Alberto Villas, editor do suplemento*online OSOL
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Carlitos Marinho nasceu em Mariluz, no Paraná. Formado em Jornalismo pela Unicentro, em Guarapuava. Atualmente, trabalha na Secretaria de Comunicação do Paraná e é colaborador do jornal Cândido.
















