ESPECIAL | Para sempre 10/03/2026 - 17:13

O último texto de Wilson Bueno

Era 00:42 do dia 23 de maio de 2010 quando Wilson Bueno me enviou o seu último texto (ou o que foi publicado por último), que sairia na Revista Ideias, na qual era chefe de redação, com uma mensagem: 

"Marianna linda, para ler agora, na noite profunda!

Bjão,
Bueno
"

Como naquela noite profunda eu dormia, li logo pela manhã e respondi que havia adorado. Ele prontamente respondeu: "é forte, não Marianna?", com mais algumas sugestões de edição feitas gentilmente, e sempre perspicazes.

No dia 31 de maio, uma semana após o envio deste texto, Bueno foi assassinado a facadas dentro de sua casa, o que tornou ainda mais forte o que havia es­crito. Quase um prenúncio, quase um aviso. 

"Para sempre" saiu na edição de junho número 104 da Revista Ideias, e como atualmente não existem mais os arquivos da revista, achamos válido republicá-lo no Cândido deste mês, no qual o escritor completaria 77 anos, no dia 13.

Em uma conversa com José Castello, no Paiol Literário em 2006, Bueno dispara: “Mas eu não viveria, absolutamente, sem escrever. Não me concebo sem escrever. Não concebo o mundo sem a expressão literária. Sem ela, eu não o entenderia. […] A literatura para mim é isso: uma pulsão vital, absoluta, sem a qual o mundo seria muito mais pobre.”

Para ler agora, na noite profunda, ou nas manhãs constantes.

Marianna Camargo
Editora do Jornal Cândido

 

wilson bueno

 

WILSON BUENO/ IDÉIAS 104/ AT. MARIANNA CAMARGO

Para sempre

E porque a solidão fosse só um começo, eu te encarei de frente sabendo, de antemão, da nossa certa e futura tragédia pessoal. Não, nem eu nem você jamais seríamos sozinhos.

Eu acordava então para a glória de existir e você me comovia os olhos molhados. Seus cílios, a íris esmeralda. Talvez nem fossem tão preciosos – eu é que me inventava em você de folhas e agapanto.

Era uma hora incerta e quente – disso eu me lembro – e fomos, os dois, um homem, uma mulher e a noi­te pânica. Pela primeira vez, em muitos anos, eu me disse que a felicidade podia ser mais que uma esperança – essa ilusão sempre renovada para não morrermos de nós mesmos – precocemente.

Você também me disse, com um gesto de lábio e olhos, que só agora você era a primeira imortal em toda a história humana. E que aquele era o seu único mo­tivo de viver.

Agora que estou morto e vigora em mim o seu cadáver simples, agora posso dizer – também pela primeira vez sem mentir – que não sonho. Você vive em mim e eu em você, eternamente.

 

*     *     *
 

Wilson Bueno (1949 – 2010) foi escritor, cronista e poeta, paranaense de Jaguapitã. Considerado um dos mais importantes escritores brasileiros, possui mais de 20 títulos publicados, além de ter atuado como editor do suplemento literário Nicolau (1987 – 1998) e colaborador em vários jornais conceituados do país. Mar Paraguayo (1992) – seu livro mais celebrado, lançado há mais de 30 anos -  teve uma reedição crítica e comemorativa em 2025, obra considerada inovadora em termos de linguagem e temática.


 


 

 

 

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