ESPECIAL | Alice em versos, prosas e plantas 11/03/2026 - 15:57

Alice Ruiz

por Redação Cândido

 

Alice Ruiz recebeu a equipe do jornal Cândido em uma tarde quente no início de fevereiro, alguns dias depois de seu aniversário, dia 22 de janeiro, em que completou 80 anos. Da sua janela, uma imensa Guapuruvu, e em sua sala, inúmeras plantas, fotos e obras. Neste ambiente iluminado, Alice contou sobre sua trajetória, sobre seus desejos, e sobre como começou a escrever: "Havia um regato de água perto de onde morava, no terreno baldio, e ficava lá, escrevendo". Mal sabia ela, aos nove anos, que seriam os primeiros esboços de haikais. "Não sabia o que era aquilo, simplesmente gostava de fazer". Alice alterna entre sorrisos, pausas, pensamentos e uma certa seriedade quando fala das questões pessoais e também profissionais. "Escrever é difícil, a gente vai ao fundo do poço".

 

Alice Ruiz
Foto: Kraw Penas
Cândido entrevista Alice Ruiz
Foto: Kraw Penas

 

Aos 26 anos, publicou pela primeira vez seus poemas em revistas e jornais culturais. Escreveu, antes de lançar seu primeiro livro, textos feministas no início dos anos 1970 e editou algumas revistas, além de textos publicitários e roteiros de histórias em quadrinhos.

No final da década de 1970, em plena Ditadura Militar, roteirizou histórias em quadrinhos eróticas, desenhadas por artistas como Claudio Seto, Júlio Shimamo­to, Flávio Colin e Itamar Gonçalves na editora Grafipar de Curitiba.

Ela lançou seu primeiro livro Navalhanaliga, aos 34 anos, em 1980. "Publiquei tarde por inúmeros motivos, e a partir daí continuei". E nessa continuação foram 21 livros, entre poesias, traduções e uma história infantil. Recebeu o Prêmio Jabuti pelos livros de poesia Vice Ver­sos, 1989, e Dois em Um, 2009. Haikaista, traduziu quatro livros de autores e autoras do Japão, nos anos 1980. Em 1993 foi homenageada pela comunidade ni­pônica brasileira com o nome de Yuuka. 

Compõe letras de música desde os 26, tendo lançado, em 2005, seu primeiro CD, o Paralelas, em parceria com Alzira Espíndola. Possui diversas canções gra­vadas por parceiros e intérpretes. Alice revela: "Queria ser cantora, mas acabou que fiz muitas parcerias musicais, como letrista". Ela comenta que é um trabalho prazeroso, pois é uma troca, diferente do ofício da escrita, muito mais solitário.

A escritora participou de inúmeros projetos: Arte Postal, pela Arte Pau Brasil; da Exposição Transcriar - Poemas em Vídeo Texto, no III Encontro de Semiótica, em 1985; do Poesia em Out-Door, Arte na Rua II, em 1984; Poesia em Out-Door, 100 anos da Av. Paulista, em 1991; da XVII Bienal, arte em Vídeo Texto e também integrou o júri de oito encontros nacionais de haikai, em São Paulo.

Intensidade, leveza e profundidade. Alice Ruiz poderia ser a mais perfeita tradução de um de seus poemas "Penso e Passo":

 

Quando penso que uma palavra
Pode mudar tudo
Não fico mudo
Mudo

Quando penso que um passo
Descobre o mundo
Não paro o passo
Passo

E assim que passo e mudo
Um novo mundo nasce
Na palavra que penso.

 


 

 

Alice Ruiz no lançamento de Navalhanaliga, 1980
Alice Ruiz no lançamento de Navalhanaliga, 1980 | Foto: Acervo pessoal / Alice Ruiz

 

 

É só começar

Quando eu era criança, recebi o contrário de apo­io. Rasgavam meus textos, rasgavam meus desenhos. Eu fui morar aos nove anos com uma tia que era viúva de um poeta e pintor que morreu de cirrose precocemente. Ela pegou uma bronca das artes e dizia que eu ia por um mau caminho. Para ter ideia, só tinha a Bíblia em casa. Mas esse tio, creio que eu tinha dois anos quando ele morreu, acabou sendo uma influência às avessas, porque de tanto ela dizer "você parece o Persí" cada vez que ela me via escrevendo, eu acabei ficando como esse homem. É da natureza humana, quan­do jovem, se rebelar, contrariar. Então é isso, meu início foi esse, contrariando.

Acho que a primeira coisa foi o haikai, sem eu saber que ele existia. Porque cada vez que eu me desentendia com a tia, eu ia para os fundos da casa onde a gente morava e atrás era um terreno baldio, e eu ficava lá. De alguma forma, estar junto à natureza me fazia um bem danado. E aí eu comecei a registrar cenas que eu via. Muito tempo depois, já adulta, eu descobri que existia o haikai, e que o tema são cenas da natureza. 

O que minha tia rasgou não eram os versos, porque ela nem identificava, ela via como uma frase sobre a natureza. Foram os meus contos que ela demoliu. E até hoje eu não escrevo. Eu escrevi acho que uns quatro na vida, mas a prosa é um problema para mim.

 

Aos 12 anos (Alice Ruiz é a terceira sentada, com a mão na água)
Aos 12 anos (Alice Ruiz é a terceira sentada, com a mão na água) | Foto: Acervo pessoal / Alice Ruiz

 

Devia ser proibido

Minha adolescência coincidiu com o "mundo rock". E aí eu tentava traduzir as músicas, sem ter conhecimento suficiente do inglês, mas eu inventava coisas dentro da métrica, dentro da melodia, ou seja, não sabia que eu estava exercitando a letrista. Acho que a se­quência foi essa. Primeiro o haikai, quer dizer, os prin­cípios do haikai, depois as letras, mas também sem ter consciência disso, porque eu gostava de cantar. Na ver­dade eu queria ser cantora. Eu sou uma cantora frustrada. Coisas da vida, né? Casar filhos e fun­ções, tive que sustentar minha mãe. Comecei aos 18. 

O haikai… ah, foi papo de namorado. Sabe aquele negócio quando você se apaixona e quer contar tudo para a pessoa? Acabei contando para o Paulo que eu fazia, que eu escrevia umas coisas sobre a natureza e tal. Ele viu e falou "Isso aí é haikai!". Mas não era ainda. Daí ele me emprestou vários livros e tal e eu comecei a me educar.

Eu não sabia que eu ía por aí. Demorou muito para ter essa certeza. Bom, eu comecei a escrever uns poemas. Tive amigos, para quem eu mostrava alguma coisa, tipo Jamil Snege, Wilson Bueno. Se bem que o Wilson era mais novo do que eu, e aí a relação era diferente. O Jamil era sete anos mais velho, então ele ficava "Ah, isso é legal, isso não é legal." Dava uns pitacos. Eu nem sei se eu concordo com tudo [risos]. Mas tudo bem.

Às vezes tenho até medo de dizer isso, porque pode dar a impressão de que estou dizendo que a nossa geração foi mais criativa justamente porque sofria com a repressão, então tinha que desenvolver uma linguagem mais cheia de sutilezas. Aí dá a impressão de que estou defendendo a Ditadura. Jamais faria isso, mas acho que foi um fator. E sim, nós éramos muitos. Muitos e com qualidade, era rico isso. Tinham reuniões em casa também. Até porque publicamente a gente não podia falar tudo. Hoje em dia as relações estão assim, eu tenho que ficar "Vamos tomar aquele vinho?". É por­que a gente está só se relacionando virtualmente. E isso eu acho que também tem um peso na criação, na produção literária. Porque a relação entre o pessoal é fundamental. A troca hoje pode ser maior e com um número maior de pessoas, mas se aprofunda menos.

 

Alice Ruiz
Foto: Kraw Penas
Alice Ruiz
Foto: Maria Beatriz Peres

 

Se tudo pode acontecer

Também fiz roteiro em quadrinhos. A Grafipar foi uma coisa maravilhosa que teve em Curitiba porque deu emprego a muitos artistas. Mas a exigência era que qualquer coisa que a gente fizesse tinha que ter sexo. Então, eu acabei desenvolvendo isso.

Foi em 1978 ou 79, talvez. Não sei o ano que a Gra­fipar começou, mas por aí. Em plena Ditadura. É que a sexualidade foi um viés de libertação. 

Mas é difícil dizer com qual gênero literário me sinto mais à vontade, porque são coisas tão diferentes. O haikai quando acontece é como se fosse uma bênção, como se fosse um momento mágico. Porque é como se eu estivesse com todos os meus planos equili­brados. Ele me acontece quando eu estou no mundo com plena consciência de que eu e o mundo somos uma coisa só. Ou eu e a cena que eu estou vendo somos uma coisa só. Quando isso acontece, é o haikai de verdade. Lamentavelmente, eu desenvolvi uma habilidade, até por dar as oficinas, de fazer haikai sem chegar nesse momento de equilíbrio total. É um haikai bom, mas é mais com habilidade do que com esse estado de equilíbrio. 

A letra de música tem um negócio legal porque não é um prazer solitário. É uma coisa quase sempre feita junto. Quando eu comecei, eu dava a letra para os parceiros e as parceiras, e eles musicavam. Isso ainda acontece, tem gente que pega poema e bota música. Ou, quando eu trabalho com alguém que mora longe, que daí eu mando o poema e a pessoa musica. Mas o ideal, que começou a acontecer com o Itamar Assumpção, é a coisa do fazer junto. Às vezes, eu ia só com um conceito, com uma frase. Podíamos chamar de verso, porque poesia e letra de música têm muita coisa em comum. A partir disso, ele desenvolvia uma linha melódica. A partir da linha melódica, eu fazia o resto. Era um fazer junto mesmo. Uma coisa ajudando a outra a acontecer. Depois eu comecei a fazer com a Alzira Espíndola, fiz com Arnaldo Antunes…, dito assim, parece sexo promíscuo [risos]. Com a Zélia Duncan, das que a gente fez, uma acho que uma nunca foi gravada e a outra acho que foi gravada só em show por ela mesma. A música é do Marcelo Jeneci e a letra nós duas fizemos juntas. Desse jeito: uma falava, a outra comple­tava. E é raro. Não é com todo mundo. Mas a Zélia faz muito mais letra do que música.

 

Tetê Espíndola, Alice Ruiz e Alzira Espíndola
Tetê Espíndola, Alice Ruiz e Alzira Espíndola | Foto: Acervo pessoal / Alice Ruiz

 

A poesia dá um pouco mais de trabalho e um pouco de sofrimento também. Quase sempre para eu chegar nela ou para ela chegar em mim, tem um processo que não é só uma questão de linguagem. Tem a coisa da linguagem também. Porque eu acho que poesia, pa­ra você ser poeta… "Lá vem receita" [risos]. Eu acho que tem esse negócio chamado inspiração, mas não basta. Se você não lê muita poesia, se você não lê teoria de poesia, você não vai desenvolver muito aquilo. E é aí que entra um pouco o arcabouço para que as coisas dolorosas da vida se expressem de uma forma que dê voz aos outros, a quem lê, mas de uma maneira que tire essa anilinidade da dor para eles também. Daí você vai lá e tem que fazer umas visitas no fundo do poço. 

Sempre dói. Mas sou eu. Tem um monte de gente que fica felicíssima. Eu fico felicíssima quando o resultado é bom. Mas até chegar no resultado... Aí sempre que chega eu fico com aquela sensação gostosa de que eu driblei quem queria me ferir, ou o que queria me ferir. É como o Freud dizia sobre o humor, que é a vitória do ego sobre o princípio da realidade. Eu acho que a poesia tem isso.

 

Alice Ruiz e Itamar Assumpção
Alice Ruiz e Itamar Assumpção | Foto: Acervo pessoal / Alice Ruiz
Arnaldo Antunes, Alice Ruiz e Paulo Tatit
Arnaldo Antunes, Alice Ruiz e Paulo Tatit | Foto: Acervo pessoal / Alice Ruiz

 

 

Sonho de poeta 

Nunca me arrependi de ter publicado nada. Mas do que eu não publiquei… Eu estou com um livro de poemas pronto faz um século, mas eu não achei o nome dele ainda, e eu acredito que o livro está pronto quando eu acho o nome. Deve estar faltando alguma coisa nele. Mas também tem a ver com o fato de eu ter ido para São Paulo, por exemplo. Eu fui para isso, para ficar mais próxima dos parceiros e parceiras musicais. E aí isso fez que eu colocasse mais a energia da coisa na música. O fato de eu ter começado a dar oficina de haikai, em outubro de 1990, deixou tudo muito mecânico. É ruim quando você faz tanto uma coisa que daí você diminui o tesão de fazer. Acabou acontecendo isso com as oficinas. Eu fico exausta de estar repetindo a mesma coisa.

Então, quer falar de frustração? [risos] Eu adoraria fazer prosa, mas acho que eu não tenho a disciplina para isso. A poesia, mesmo que você se prepare e estude, ela acontece porque ela quer. Você não precisa ter um ritual para escrever. Eu tiro a roupa e vou escrever. Fico horas escrevendo pelada. É verdade. Bom, eu não quero assustar a vizinhança [risos]. Agora falando sério, eu não tenho essa coisa. A poesia não precisa que você estabeleça um horário. A hora que a poesia vem, ela vem. E eu não tenho esse negócio, essa coisa metódica. Eu sou muito movida à inspiração mesmo. 

 

Alice Ruiz com Caio Fernando de Abreu, recebendo o Jabuti de Poesia de 1989
Alice Ruiz com Caio Fernando de Abreu, recebendo o Jabuti de Poesia de 1989 | Foto: Milton Michida

 

Mas, às vezes, eu fico triste de não conseguir fazer, porque primeiro que a poesia é difícil de traduzir. Então é muito difícil você ser conhecido no exterior. Eu tenho alguns que já traduziram, já fui incluída em várias antologias em vários países. Mas é muito difícil traduzir as sutilezas da linguagem que a poesia tem, e eu prezo muito por isso. Tem pouca gente disposta a traduzir poesia. Já começa por aí. Um que traduzia era o Curt Meyer-Clason, que traduziu João Cabral, por exemplo, para o alemão. O cara era bom à beça. Eu o conheci, inclusive. Fiquei até ligeiramente esperançosa, mas não rolou. Então é isso, você não fica conhecido fora da tua língua. Mas não é só por isso, é porque eu acho legal contar histórias. Eu tenho uma imaginação. O que acho que me falta é a disciplina. Escrever crônicas é a solução do produtor preguiçoso [risos]. Agora os cronistas vão lá me atirar pedra. A crônica também tem sua graça, e eu escrevi uns contos.

Já traduzi poesia, principalmente haikai. Ele é mais difícil ainda, porque a escrita é totalmente diferente da nossa. É uma outra lógica. A nossa não tem nada a ver com o objeto ao que se refere. A escrita japonesa é totalmente colada, eles desenham o rio com a palavra rio. E assim por diante, portão é um portão, coração é o coração. Bem estilizado, mas é. 

 

Ensaio para a capa de PaixãoXamaPaixão (1983)
Ensaio para a capa de PaixãoXamaPaixão (1983) | Foto: Dico Kremer
1º edição da revista Através (Livraria Duas Cidades, 1978), editada por Décio Pignatari
1ª edição da revista Através (Livraria Duas Cidades, 1978), editada por Décio Pignatari

 

Sem receita

Porque tem uma coisa, como que eu lidei com essa insegurança, por exemplo. Eu comecei a mostrar as coisas que eu produzia para pessoas cuja sensibilidade eu respeitava, admirava e me expus. Eu comecei a mos­trar para eles bem antes de publicar, como para os concretos que conheci através do Paulo (Leminski). Eu conheci todos e fiquei amiga, principalmente do Décio Pigna­tari.  Quando eu digo principalmente do Décio, é por­que era o que eu mais brigava, e ele comigo também. Mas era uma provocação. Eu acho que ele gostava de me ver defender a mulher. E aí ele atacava muito por aí, sabe? A gente tinha discussões nessa área. E ele era muito endeusado pelas pessoas, mesmo da minha geração. Então o pessoal dizia assim, "Nossa, só Alice que enfrenta o Décio", mas não. É porque eu nunca vi o Dé­cio – quer dizer, eu nunca vi ninguém – como uma pessoa para a gente tratar com distância, idolatria e não sei o quê. Todo mundo caga. [risos] Saiu, né? Saiu e se quiserem deixar, deixem, porque é isso. Mas não é, é porque eu nunca vi o Décio, quer dizer, eu nunca vi ninguém como alguém para a gente... sabe, tratar com distância, idolatria e não sei o quê? Não ficar muito: "nossa, cheguei na frente de fulano e comecei a tremer"... por que, meu deus? É uma pessoa igual a você, que provavelmente tem insegurança. Então eu nunca tive isso. E as pessoas ficavam meio... Até por ser mulher, né?

Dava uma incomodada, mas o Décio foi muito importante para eu desenvolver essa certeza no meu trabalho. Teve uma vez que eu fui mostrar a nova produ­ção para ele e ele falou "você pode me dar uma cópia desse, desse, desse?" Selecionou vários e pediu para eu dar uma cópia. Eu não tinha. Era tudo muito diferente de agora, né? Que é só mandar por e-mail ou por WhatsApp. E eu fui para a máquina e comecei a datilografar todos, porque ele havia me pedido. E daí ele publicou na revista Através, que ele editava. Era uma re­vista mais de um público universitário, principalmente professores. A maior parte dos que escreviam lá eram professores, e o Décio intercalou os artigos didáticos com meus poemas. Eu tenho essa Através, e, nossa, Acho que foi um momento divisor de águas. Porque, quando eu mostrava para outras pessoas, já tinha uma segurança bem maior. 

Gente, eu não sei se isso ficou claro quando eu falei que mostrava para as pessoas e tal, porque eu tinha que estar muito segura de mim, porque eu sabia que quando você é muito novo ainda, está meio (…), se você trabalhou bastante, a opinião alheia pode atrapalhar muito. Então, assim, tanto as críticas negativas po­­dem fazer com que a pessoa desista, como as positivas, se a pessoa não estiver muito bem estruturada, pode achar que está pronta, por exemplo. E como você falou, meu feminismo mudou muito. Sim, a minha poesia também mudou muito. Assim, ao longo dos anos, das décadas, a gente vai se transformando e, portanto, transforman­do o que faz, né?

 

Fundamental

Tem a outra parte da sua pergunta, que é a literatura de hoje. Eu tenho curtido mais, de uma maneira geral, a prosa atualmente do que a poesia. Mas não é um problema da poesia. Acho que é por minha causa, é uma tendência minha. Não que a poesia não esteja sendo bem feita. Eu tenho curtido muito ler mulheres. Nós temos aqui uma das maiores escritoras contemporâneas, que é a Luci Collin. Daí tem em São Paulo uma amicíssima minha. Duas. A Micheliny Verunschk e a Noemi Jaffe. Na Paraíba, a Maria Valéria Rezende. Ah, nós temos outra aqui, a Giovana Madalosso, que é excelente.

Principalmente mulheres. A Mar Becker eu acho muito interessante, também a Ana Elisa Ribeiro e a Ana Martins Marques. Tem mais. A Bruna Beber eu gosto bastante. Tem muita gente boa. Mas, assim, homens... Bom, é que eu não tenho procurado. Eu não saberia dizer, assim, da nova geração. As últimas que a gente citou. Mas a Maria Valéria Rezende é principalmente prosa, mas faz poesia. Luci Collin idem. Noemi Jaffe, idem. E a Micheliny Verunschk, idem. O forte delas é a prosa, mas elas escrevem excelente poesia também. Pronto. Agora respondi. 

 

Alice Ruiz com as filhas Estrela Ruiz Leminski e Aurea Alice Leminski
Alice Ruiz com as filhas Estrela Ruiz Leminski e Aurea Alice Leminski | Foto : Vilma Slomp

 

Para elas

Eu acho que primeiro eu me revoltei, daí eu me formei [risos]. Deve ter sido ainda menina quando eu via, por exemplo, os homens saírem para trabalhar e as mulheres trabalharem o dia inteiro em casa. Daí quando eles chegavam iam para o sofá e eram servidos por elas que estavam exaustas. Eu acho que começou aí que eu comecei a olhar e dizer "não estou gostando disso, acho que eu não quero isso para mim". Mas pegou fogo mesmo com a minha filha, a Aurea. O mais velho era o Miguel. Eu ainda não tinha com ele, eu não tive esse despertar. Mas com a Aurea eu percebi que não importava o que eu dissesse para educar, o que importava era meu exemplo. E eu acho que de alguma forma foi ela, esse olhar dela para mim, que quis ser um exemplo de uma mulher independente. O que eu quero para minha filha, eu tenho que ser. Não basta eu ficar aqui cuidando das crianças e daí me reunindo com as mulheres aqui em casa e discutindo as questões da mulher. Eu tenho que tomar uma atitude. Ela tem que olhar para mim e dizer "é assim que tem que ser". É aí que foi a grande guinada. Eu tive que me transformar e falei "não, não posso trabalhar em casa". Eu escrevi artigos para as revistas em casa, mas falei "não posso, eu tenho que sair. Minha filha tem que me ver sair de casa para trabalhar’. É. Acho que foi quando eu entrei na publicidade. E foi bom, porque foi uma boa grana. Durante alguns anos deu para sustentar a casa.

Eu escrevia ensaios nas revistas sobre a mulher e aí eu acho que a minha postura ainda era bastante suave em relação aos homens. Eu acusava o sistema de nos educar de uma maneira que gerava não só um desequilíbrio nos direitos, mas um abismo entre as nossas afetividades, tanto homens quanto mulheres. Mas eu nunca ataquei os homens, eu só atacava o sistema. E qual é a sexualidade de quem domina? Quem são os poderosos do planeta? 

E eu acho que todos os males, juro por Deus, todos os males da humanidade têm a sua base nesse ódio pela mulher. Os fóbicos das outras sexualidades, a base é essa. Por quê? Porque é a feminização. Você não pode obedecer a tua natureza. Você tem que se comportar. O sistema que escolhe como você tem que se comportar, como macho da espécie, como fêmea da espécie, ninguém quer te ouvir. Então, as outras naturezas... Por que a natureza? É uma pessoa que nasceu com um corpo que não condiz com a sua natureza. Pronto! Se fodeu! Quer dizer, mas por quê? Tudo é sexualidade. Os palavrões estão todos relacionados com sexua­lidade. Sem exceção. Mas sem exceção mesmo. E é as­sim. A sexualidade é da mulher. É impressionante.

 

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Edição: Marianna Camargo
Conteúdo e produção: Felipe Azambuja, Isa Honório e Maria Beatriz Peres
Fotos: Kraw Penas e Maria Beatriz Peres

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