CAPA | Quilombo literário: as memórias de personalidades negras do Paraná e do Brasil em "Mulheres com N maiúsculo" 17/04/2026 - 15:43
Inspirado no conceito de “escrevivências”, livro apresenta 31 mulheres negras de destaque na política, cultura e sociedade
Isa Honório
"Escrevivências é escrever a partir da vida. É quando a palavra nasce da experiência, da memória e do sentir. Não é só narrativa, é vivência transformada em linguagem", conta Letícia Costa, jornalista e uma das autoras de Mulheres com N Maiúsculo: perfis jornalísticos e escrevivências negras. O livro foi lançado em novembro do ano passado no Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), marcando as celebrações no Mês da Consciência Negra. Publicado pela editora curitibana Arte & Letra, reúne dez comunicadoras negras para contar as trajetórias de 31 mulheres de diferentes origens e áreas de atuação, que têm em comum suas experiências racializadas.
A obra foi organizada pelas jornalistas Claudia Kanoni e Aline Reis, e tem como inspiração o conceito de "escrevivências", criado pela escritora e linguista Conceição Evaristo, um dos nomes mais consagrados da literatura brasileira contemporânea. Autora de livros como Olhos d’Água (2014), com contos sobre mulheres afro-brasileiras, destaca o papel da memória e a relação entre o individual e o coletivo na construção de narrativas sobre pessoas negras, e em especial, mulheres.
O projeto foi concebido em 2023, primeiramente como uma obra individual, mas logo a coletividade tomou o primeiro plano. A decisão editorial foi a de deixar o estilo de cada autora florescer – o objetivo não era padronizar, mas destacar a pluralidade. Aline Reis, também autora de Paraná Preto (2015) e presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR), relembra as sessões de leitura coletiva, quando as escritoras puderam opinar sobre os textos e trocar experiências: "É um grande processo trabalhar com várias autoras, com prazos, decidir quais palavras vão entrar, qual vai ser a capa. Mas a ideia de ser uma obra coletiva foi mantida do começo ao fim. A proposta era justamente fazer esse quilombo literário".
Os perfis trazem nomes ligados à literatura, educação, movimentos sociais, ecologia, samba, hip-hop, política, jornalismo, esporte e religiosidade. Entre eles: Carol Dartora, primeira deputada federal negra eleita pelo Paraná; Dulcinéia Novaes, jornalista e apresentadora; Janine Mathias, cantora e compositora; e Juliana Barbosa, professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O livro também publica as histórias da jurista Dora Bertúlio, pioneira nas políticas de cotas no Brasil, e da professora Diva Guimarães, que faleceram antes da publicação.
"Pensamos em alguns nomes de pessoas que já são quase ‘orixás’ do movimento negro, e fomos procurando outras Também. A ideia não era fazer perfis de pessoas famosas, embora tenhamos algumas perfiladas que já têm a sua relevância midiática ou dentro dos movimentos. São mulheres de vários lugares, histórias e ocupações, falando sobre suas vivências, não só profissionais, mas do cotidiano também", comenta Aline. Após alguns meses do lançamento e com uma recepção positiva dos leitores, o livro recebe uma reimpressão, que estará disponível em breve.
Escrever como um ato coletivo
Claudia já escrevia perfis de personalidades negras para o Brasil de Fato quando decidiu produzir o livro. O formato mistura jornalismo e literatura para contar histórias reais com profundidade e sensibilidade, o que tornou o gênero a escolha perfeita para o projeto. Ana Carolina Pacífico, que escreveu sobre Vanda de Assis, assistente social e vereadora de Curitiba, explica: "Essas perfiladas carregam consigo pautas muito importantes, e é por isso que o livro tem esse teor jornalístico, que vai além de contar a história das mulheres, mas também de trazer essas pautas que são de interesse público".
A preocupação com a diversidade também se reflete na escolha das escritoras que compõem o time. Em sua maioria jornalistas e algumas em fase de desenvolvimento de suas carreiras, muitas vezes encontraram no perfil um novo desafio. Aline confessa que, apesar de ser uma repórter experiente, não possuía muita intimidade com o jornalismo literário quando participou do projeto: "O texto de perfil é um texto muito mais delicado, no sentido de ser mais literário, mais doce, mesmo quando é agressivo, é agridoce".
Nesse processo de aquilombamento, estar sempre em contato, por meio do apoio mútuo e escuta, reforçou ainda mais a identidade da obra. O livro buscou gerar autoconfiança nas autoras para que elas não só fossem publicadas, mas também se desenvolvessem como escritoras: "Quando a Claudia me chamou, fiquei muito feliz e também um tanto insegura. Aos poucos a gente foi trocando ideias sobre os textos e desenvolvendo o processo. Ela já era escritora e poder contar com o olhar dela e colaboração nos textos foi fundamental", lembra Letícia Costa.
Outra preocupação foi encontrar um espaço receptivo em meio a um mercado editorial que fecha as portas para escritores de origens sub-representadas. No Brasil, mulheres pretas e pardas da classe C formam o maior grupo consumidor de livros, representando 15% em 2025, como mostra a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, encomendada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Apesar disso, mulheres negras ainda encontram resistência dentro do mercado literário, e frequentemente denunciam o apagamento de sua escrita.
A Arte & Letra, editora independente e de produção artesanal, pareceu ideal para receber o projeto. O editor Thiago Tizzot conta que gostou da ideia logo de cara: "É um projeto importantíssimo. Elas fizeram toda essa escrevivência, o que faz o projeto ser muito forte e verdadeiro. Como editora, não tem como a gente parar para pensar, a gente tem que aproveitar essa oportunidade".
Thiago ressalta ainda que é papel da editora buscar ideias que fujam do comum e promover a diversidade de vozes: "Uma das coisas que me atraiu nesse projeto é que eu jamais conseguiria imaginar ele sozinho. Que bom que alguém chegou e me apresentou, e a gente pôde dar um passo para fora. Essa é uma preocupação que eu sempre tenho, sempre tentando olhar para além do que está perto, conseguir achar coisas interessantes e aumentar a área que a editora trabalha. Isso faz com que a gente esteja sempre buscando coisas novas e diferentes".
O objetivo era o de ocupar as prateleiras, trazer a discussão sobre gênero e raça para o centro. A escolha do título Mulheres com N é ao mesmo tempo ambígua e assertiva, como explica o editor: "A Claudia me trouxe as opções de títulos e eu disse 'é esse'. Uma das dúvidas era se o pessoal iria achar que a gente errou, mas é exatamente esse ruído que a gente quer. A ideia é causar esse desconforto e chamar a atenção das pessoas".
Aline explica que o estranhamento ao primeiro olhar também dialoga com a literatura de Conceição Evaristo, conhecida pelos erros propositais de gramática como escolha política e estilística. "A ideia do 'N' maiúsculo é para evidenciar a negritude. A grande questão de ser racializada é que isso chega antes de qualquer coisa. Antes de ser uma mulher, eu sou uma pessoa negra, essa é a primeira leitura que fazem. O objetivo do título é enfatizar a negritude das personagens e autoras", diz.
Nós por nós
Nas escrevivências, escrever sobre si é escrever sobre todas que compartilham as mesmas experiências, encontrando na identificação uma ferramenta de emancipação dos estereótipos e do apagamento. Em Mulheres com N, essa identificação começou ainda na fase de entrevistas. Ao investigar suas trajetórias, mulheres de diferentes idades, territórios e profissões descobriram que tinham muito em comum. Por mais técnico que possa ser um processo de escrita, nas escrevências, ele pode ser extremamente emocional.
Amanda Crispim é escritora e pesquisadora, e foi a primeira professora negra do curso de Letras da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Agora com suas memórias contadas no livro, ela lembra do sentimento quando teve seu primeiro contato com a literatura de Carolina Maria de Jesus – escritora negra e um dos principais temas de sua pesquisa acadêmica. "Quando eu li Quarto de despejo tive um choque. Foi uma literatura que me tocou profundamente. Rolou um processo de identificação muito grande, ao ver como aquela mulher preta e periférica assim como eu tinha escrito um livro", conta.
Escrever a partir da identificação também foi uma experiência transformadora para Letícia Costa, que escolheu perfilar a colega de profissão Dulcinéia Novaes. Em atividade desde 1979, Dulcinéia se tornou um dos nomes mais reconhecidos do jornalismo paranaense e símbolo de representatividade. Letícia, que cresceu assistindo a apresentadora na televisão, hoje também trabalha na RPC, afiliada da Globo em Curitiba. "A Dulcinéia sempre foi a minha grande inspiração no jornalismo televisivo e todas as vezes que eu a encontrava, ela me dava boas palavras de incentivo. Escolhi contar a história dela porque eu era e sou uma grande fã e também queria saber mais sobre a sua trajetória", diz.
No texto final, Letícia escolheu focar na presença de mulheres negras na mídia, e discutir questões como racismo e a importância da união entre mulheres jornalistas. Essa sensibilidade para escolher recortes também foi necessária para enfrentar os desafios que surgiram no caminho – entre eles, deixar as perfiladas confortáveis para contar suas histórias. Para muitas entrevistadas, a percepção era que a mídia tende a representar mulheres negras de forma preconceituosa, o que causou certa desconfiança.
"A primeira coisa foi fazer com que elas baixassem a espada. As mulheres negras chegam com uma armadura para a imprensa, porque os recortes que são colocados para a divulgação das suas histórias muitas vezes são feitos de uma forma que não é para exaltar e reconhecer, mas para noticiar da pior forma possível", relata Sandy Silva, autora dos perfis de Adriana Oliveira, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e Ana Maria da Cruz, liderança quilombola da Comunidade Paiol de Telha.
A jornalista explica que se trata de uma barreira psicossocial, que parte tanto de experiências racistas e machistas do passado quanto do sentimento de não merecimento de ter sua história contada. "A gente vai entendendo que a mulher negra não tem tempo para revisitar a própria história, de ouvir, chorar, se escutar e de se compreender. Então, quando a gente parou para conversar com essas mulheres, eu percebi que era a primeira vez que elas sentaram para se ouvir", conta Sandy.
O poder da palavra
Mulheres com N Maiúsculo chega para reescrever, agora em primeira pessoa, o retrato de mulheres afro-brasileiras na literatura. O livro é publicado em meio a um movimento crescente de ocupação de espaços antes considerados inacessíveis, e foi lançado no mesmo mês que a primeira mulher negra tomou posse na Academia Brasileira de Letras (ABL). Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor (2006), agora ocupa a cadeira 33 com uma obra que também reflete o conceito de "escrevivências".
O livro de Ana Maria foi tema do samba-enredo da Portela em 2024 e dois dias após o desfile ficou em 1º lugar de vendas na Amazon. Amanda Crispim comenta que narrativas escritas e protagonizadas por mulheres negras refletem trajetórias marcadas por luta e resistência e têm ganhado cada vez mais interesse do público. "A escrita negra sempre esteve aí. O que o cânone considera como literatura brasileira pouco reflete o Brasil. Isso gera alheamento e pouco se conecta com os leitores brasileiros", comenta a professora, na abertura de seu perfil em Mulheres com N Maiúsculo.
Lançado em Curitiba e com foco em personalidades paranaenses, o livro ganha um significado ainda mais profundo. A capital é a mais negra do Sul do país, com 24% dos habitantes autodeclarados pretos ou pardos, de acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar dos números, a cidade sofre um processo de apagamento histórico de suas origens afro-brasileiras.
Aline Reis explica que, diante deste cenário, a obra tem um papel reparador: "Acho que o primeiro passo é ocupar esse espaço em Curitiba, uma cidade que as pessoas acham que é 'europeia', mas não é. Colocar mulheres negras em um livro, lançado no Tribunal Regional Eleitoral e sendo vendido em uma livraria como a Arte & Letra, faz toda a diferença para trazer essa discussão".
Para as autoras, a publicação é um instrumento de preservação da memória e reconhecimento, um olhar para o passado para direcionar os próximos passos da luta por emancipação e autonomia. "Acho que ultimamente estamos avançando no combate ao fenômeno do apagamento das mulheres na literatura, mas mais porque a gente tem chegado com o pé na porta, e esse projeto é um exemplo disso. A gente não pediu licença, a gente só chegou e fez. Mostramos pro mundo e ganhamos um grande destaque no cenário literário", conclui Evelin Moreira, escritora do perfil da médica e professora universitária Daiane Pazin.
Assim como fizeram Conceição, Carolina e Ana Maria, as Mulheres com N Maiúsculo chegam às prateleiras para inspirar e provocar através da palavra, abrindo caminhos para o surgimento de outras escritoras e narrativas. Como diz Claudia Kanoni no manifesto que abre o livro: "A quem lê, oferecemos não apenas relatos, mas horizontes".
Isa Honório (São José dos Campos∕SP, 2002) é formada em Jornalismo pela UFPR. Repórter do jornal Cândido, também é escritora e compositora. No tempo livre, atua com produção cultural na cena de música independente em Curitiba. Se interessa por arte produzida por mulheres, política e meio ambiente.






