Memória literária | Sete dias com César Aira
18/12/2019 - 10:25

O escritor Carlos Henrique Schroeder relembra de seu encontro com o autor argentino, um dos nomes essenciais da literatura da América Latina

 
Em dezembro de 2002, o escritor chileno Roberto Bolaño leu no festival de literatura Kosmópolis, em Barcelona, um texto que foi precedido por um pedido de desculpas: “... queria falar da literatura do Cone Sul, especificamente do Chile, Argentina e Uruguai, mas a literatura argentina é tão rica, tão poderosa, que finalmente me pareceu mais oportuno centrar-me somente nela”. O texto dividia a literatura argentina em vertentes, e uma delas, muito bem cotada, era a “corrente secreta” iniciada por Osvaldo Lamborghini e descortinada por seu discípulo e testamenteiro literário, César Aira (o chileno ainda louvava o conto “Cecil Taylor” e a novela Como Me Tornei Freira). Bolaño já havia dedicado-lhe uma de suas colunas, no jornal chileno Las Últimas Noticias, com o título de “O Incrível César Aira”. Para ele, “... é um excêntrico, mas é também um dos três ou quatro melhores escritores de hoje em língua espanhola”. Bolaño morreu em 2003, de complicações hepáticas, e foi alçado à condição de “o último maldito”, de mestre, pela crítica e por escritores tão díspares quanto Mario Vargas Llosa e Patti Smith (outra admiradora de Aira). Pode ser que o mesmo aconteça com Aira, no futuro, mas acho improvável.
Aira nunca saiu do gueto crítica / escritores / leitores-cabeçudos, ao contrário do chileno e seus livros desgraçadamente fascinantes, que foram conquistando uma multidão de leitores, num processo que começou ainda em vida. Na verdade, é injusto colocá-los em campos opostos, pois eles se complementam e são a alegria das oficinas literárias descoladas. Borges, que bem poderia ser uma espécie de deus da literatura, concordaria comigo, lá de sua biblioteca celestial. Mas… Não acredito em deuses, mas sei que o conceito funciona, ao menos para algumas pessoas. Também não acredito em gênios da literatura: não existe escritor, obra ou pensamento perfeito e muito menos esse conjunto de fatores centralizados em uma única pessoa. O próprio Aira, em seu ensaio “Sobre a Arte Contemporânea”, já levantou a questão: “A excepcionalidade do gênio ficou encapsulada em uma figura do passado, deixando livre o presente para os deslocamentos de uma constelação de excepcionalidades provisórias e parciais”. Mas a ideia (ou esperança) de um talento criativo fora do comum (uma das definições de genialidade nos dicionários) funciona, para mim e muitos outros, como estímulo e inspiração para encarar os sofrimentos advindos das páginas e páginas que manchamos com tinta. César Aira (assim como Bolaño) é uma dessas pessoas que nos inspiram, livro a livro, por transitar entre inúmeros espaços de invenção. Ele me ensinou a ler e a escrever melhor, e, sobretudo, a entender que a literatura é um jogo. Dizem que as religiões ensinam as pessoas a lerem suas vidas. É possível. Então minha religião chama - -se literatura. O escritor argentino foi durante muito tempo uma espécie de guia de leitura, um guru que deixava sinais que iluminavam meus passos trôpegos. Foi por causa de um ensaio dele, por exemplo, que conheci Copi, e depois Lamborghini (quem nunca mergulhou em Tadeys não sabe o que é tormenta), Braulio Arenas e muitos outros. Toda religião possui um sistema de crenças no sobrenatural, geralmente envolvendo divindades, deuses e demônios. Então se a literatura é minha religião, onde se encaixaria César Aira nessa valsa de humanidade e espiritualidade?
 
                                              Divulgação
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O escritor argentino César Aira, um dos pilares da literatura latino-americana
 

Um cigarro

 
  César Aira nasceu na pequena cidade de Coronel Pringles, a pouco mais de 500km ao sul de Buenos Aires, no dia 23 de fevereiro de 1949. É uma localidade com menos de 30 mil habitantes, focada na produção agrícola e criação de ovelhas e gado. Pringles também é a terra natal de autores mais ou menos célebres, como Arturo Carrera, Mario Merlino e Mario Satz. Além de uma festa regional dedicada aos que trabalham na produção de lã (pequenas cidades adoram fazer festas ou ser “capital” de alguma coisa), há um interessante patrimônio arquitetônico, sobretudo art déco, assinado pelo ítalo-argentino Francisco Salamone. Estive na cidade no ano passado, de passagem, indo para Bahía Blanca, e lembro de ter fumado um cigarro olhando uma acácia que foi plantada pelo Jorge Luis Borges na Casa de la Cultura, em 12 de Setembro de 1982, por ocasião do centenário da fundação de Pringles (certa vez cortei os cabelos na casa em que Borges passara a infância, em Palermo, e que na época era um salão de cabeleireiro, dos bens ruins, mas essa é outra história). Olhava a acácia de Borges mas pensava em Aira, a cada tragada.
Em 2015, passei sete dias com Aira. Almoçamos e jantamos juntos, diariamente, e foi como um sonho, um corte surreal na minha vida monótona, automática e burocrática. A presença física é sempre intimidante e, muitas vezes, decepcionante. Mas com ele foi diferente. Trabalho na curadoria de eventos literários há muitos anos, e aprendi que realmente o melhor dos escritores são seus livros e que, normalmente, suas falas ou presenças são cinzas que podem borrar as páginas ou as ideias que temos deles. O culto à imagem do escritor é certamente uma herança da má exploração midiática dos eventos literários: fala-se mais dos autores que dos livros, dando pitacos sobre tudo e falando cada vez menos do que realmente interessa (dos livros!). Mas no caso de Aira o efeito foi reverso: sua timidez e, também, simplicidade e completa devoção à literatura foram revigorantes. Aira foi, também, muito gentil e humilde. Ele sabia que as histórias eram infinitas, mas a vida, não. Falava devagar: tímido e reservado. Às vezes, quando o riso parecia que ia explodir, controlava os lábios e tampava a boca. Era também um bom fumante, daqueles tradicionais. Os fumantes se acostumam a valorizar pequenos espaços de tempo (o mesmo que lhes será roubado no futuro, pela senhora da foice) como prêmios, pois cada cigarro é devorado com intenso prazer, e aguardo. “Agora eu mereço um cigarro” é a frase que explode com mais facilidade no espaço interior do pensamento de um fumante. Ah, cigarros... Aliás, eu tinha acabado de apagar um cigarro quando encontrei com Aira pela primeira vez, de maneira muito rápida, em 2007, na Festa Literária Internacional de Paraty. Eu estava com uma amiga, a Rozi de Freitas, psicanalista e também fã de Aira. Ele também acabara de chegar, estava no seu primeiro passeio. Batemos uma foto e ele se despediu rapidamente. Também assisti a seu debate com o Silviano Santiago, mediado pelo poeta Carlito Azevedo, que foi decepcionante. Admiro os três, de verdade. Mas o debate não funcionou. Não havia química alguma entre Santiago e Aira, não se dirigiram a palavra nenhuma vez. Pareciam dois inimigos num ringue. Carlito tentou construir uma narrativa naquela mesa, mas os dois se recusaram a participar da brincadeira. Encontrei inúmeras vezes com o Carlito, posteriormente, mas sempre esqueci de perguntar se houve algum atrito ou se simplesmente uma antiquímica se instaurou no palco, ou mesmo nos encontros pré-mesa. Enfim, não importa. Aira já tem 70 anos, e está cada vez mais perto da morte, como todos os anos, que vemos os dias escorrendo. Em breve serei eu, você, todos. Morrer é natural. Escrever é lutar contra a morte, buscar a permanência no impermanente. Depois do debate, encarei uma fila quilométrica para pegar autógrafos dele, e saí com um sorriso etéreo e uma pilha de livros.
 

Longe de casa

 
Oito anos depois mandei-lhe um e-mail, com um convite para um evento, no interior de Santa Catarina. Para minha surpresa, ele aceitou. Eu sabia que só em 2015 ele havia negado diversos convites para vir ao Brasil, para eventos maiores e mais famosos. Mas entendi o motivo de seu fácil aceite: queria uns dias longe de sua casa, numa pequena cidade, onde pudesse caminhar em paz. Jaraguá do Sul é um município do norte de Santa Catarina, incrustada num vale e cortada por rios, com uma variada colonização europeia, que vai da alemã (maioria) à italiana, húngara e polonesa. Com uma população de 180 mil habitantes e uma forte vocação industrial, que a coloca entre as cinco maiores economias do estado e entre as cem do país, é uma típica cidade rica e conservadora do Sul do país, com todos os seus prós e contras (Aécio e Bolsonaro fizeram votações históricas aqui, para meu desespero). Durante nove anos fui coordenador geral e curador da feira do livro da cidade, que ajudei a fundar. Em 2015, ano em que resolvi me aposentar do evento, convidei Aira para essa conversa sobre sua obra. Obviamente, falei que era seu fã, e listei meus livros prediletos dele, para que tudo soasse razoável, e não um delírio de um jovem escritor interiorano. Naquele ano Aira fora indicado ao Man Booker Prize International e enfim começaram as ruminações sobre um improvável, mas não impossível, Nobel.
 
Querido Carlos Perdón por la demora en responder, pero estaba viajando. Muchas gracias por la invitación. La acepto con mucho gusto. Será un placer asistir a su Feria, y conocer Jaraguá do Sul. La fecha que usted disponga estará bien para mí, el 15 por ejemplo. Sólo que querría pasar tres días o más en la ciudad, para recorrerla un poco (yo puedo pagar los días extra en el hotel). Por supuesto, a mi edad no se pueden hacer planes con mucha anticipación, pero espero estar bien de salud para junio. Le mando un abrazo. C.A.
 
 

Ótimo anfitrião

 
Na mesma tarde em que recebi a resposta, imbuído de um espírito sedutor e negociante, me engalfinhei com o setor de reservas do hotel e com alguns restaurantes para ampliar as permutas já firmadas, e conseguir diárias e almoços extras para nosso ilustre convidado, o primeiro internacional do evento. Com tudo acertado, fiz a seguinte proposta: ele viria no sábado, dia 13 de junho, falaria no dia 15 e retornaria no dia 20, no sábado seguinte. O resultado foi que, durante os dias em que Aira esteve em Jaraguá do Sul, fui um péssimo coordenador geral do evento, mas um ótimo anfitrião. Minha principal missão era almoçar e jantar todos os dias com ele (às vezes outros convidados se juntavam a nós, como o Ilan Brenman ou a Fernanda Takai). No Brasil, em 2015, era possível encontrar apenas sete livros seus traduzidos: Como Me Tornei Freira (deste fiz a orelha, como ghost writer), Um Acontecimento na Vida do Pintor Viajante, As Noites de Flores, A Trombeta de Vime, Haikus, Pequeno Manual de Procedimentos e Nouvelles Impressions du Petit Maroc. Muito pouco se pensarmos que na época ele já tinha mais de 80 livros (a maioria no meio do caminho entre o conto e a novela) de ficção publicados e pelo menos oito de ensaios. Como Santa Catarina faz fronteira com a Argentina e voos diretos de Florianópolis para Buenos Aires eram relativamente baratos, consegui através dos anos comprar uma boa parte dos seus livros. Ele provavelmente sabia que lidaria com um aireano quando chegasse, e que isso era estranho, e divertido, e misterioso (como sua literatura). Mas como ele mesmo já afirmou, “ ...o escritor procura o mistério tal como o animal, o organismo biológico, busca a perpetuação de sua espécie. O mistério de um autor é sua garantia de pertencer à essência interna da literatura, misteriosa porque não possui exterior” (“El Ingenuo”, sua conferência no Colóquio Manuel Puig, em 2000). 
Desembarcou em Florianópolis na tarde do dia 13 de junho, e um motorista o trouxe até o norte catarinense, numa viagem de aproximadamente três horas. Na noite de sua chegada, fomos ao Casarão, um restaurante e pizzaria que fica ao lado do principal rio da cidade. Sugeri um vinho tinto, um bom e velho Malbec argentino. Ele declinou e disse que estava bebendo apenas vinhos brancos, da uva chardonnay, e por sorte a casa tinha alguns rótulos interessantes da casta. Pediu um caldo de peixe, e eu, um risoto. Lembro, ainda, no pantanoso terreno da memória, do garçom inconveniente, que ao perceber que Aira era argentino, fez piadinhas do futebol (como se depois do 7 x 1 o brasileiro tivesse ainda o direito de fazer piadinhas). Naquela noite, como boas-vindas, presentei-o com as obras completas do simbolista Cruz e Sousa (que ele já conhecia e admirava) e do Manoel Carlos Karam, ótimos produtos made in SC para exportação. Ele me falou de sua admiração por João Gilberto Noll, Sérgio Sant’Anna e Dalton Trevisan, que considerava os três grandes escritores brasileiros vivos (hoje somente os dois últimos estão vivos). Aira é um grande admirador o Brasil: da geografia, da cultura, da simpatia. Ele se divertiu quando contei como o descobri: no início dos anos 2000, eu passava minhas noites atrás de um balcão de recepção de hotel em Balneário Camboriú, cidade turística do litoral catarinense. Era uma época divertida, sobrava tempo para ler e escrever nas madrugadas sombrias que eu passava na recepção, e muitos hóspedes sul-americanos esqueciam livros — muita porcaria, mas também coisas que foram muito importantes para minha formação, como Augusto Monterroso, Mario Levrero, Pablo Palacio, Onetti e, claro, César Aira. Aproveitei (não resisti) o momento e também lhe dei um livro meu de contos, que tinha uma epígrafe dele, discorrendo sobre o conto, o tempo e Copi. Deixe-o no hotel, mas não entrou. Acendeu um cigarro e ficou observando os carros.
 
                                                                                          Arquivo pessoal / Carlos Henrique Schroeder
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Carlos Henrique Schroeder e César Aira durante um jantar 
 

A supremacia chardonnay

 
Segundo fontes seguras (os recepcionistas do hotel), ele acordava todos os dias bem cedo, tomava seu café com calma, comia muitas frutas, saía para caminhar por pelo menos uma hora e voltava muito bem-humorado. Tentei levá-lo cada dia num restaurante diferente, ao meio-dia e à noite, e sempre tomávamos uma garrafa de chardonnay. Inclusive provou e aprovou os chardonnay catarinenses, produzidos nas regiões mais frias do país, na serra catarinense, em altitudes superiores a 1.200 metros. Quando o papo estava bom, geralmente à noite, avançávamos para a segunda ou terceira garrafa. As permutas com os restaurantes não incluíam as bebidas, então fui empilhando essas garrafas no meu cartão de crédito: um ato de extrema imprudência, ainda mais para alguém com dois filhos pequenos (Uma garrafa de vinho = 30 fraldas). Mas eu estava tomando chardonnays com César Aira! O papo geralmente saía do literário e ia para o pessoal. Falou de seu filho, quadrinista, que era um bom festeiro, da doença da esposa, dos seus amigos, e tinha algumas pequenas piadas também. Perguntei quais autores contemporâneos argentinos que ele lia e admirava. Respondeu que era principalmente o Pablo Katchadjian: “Talvez porque o que ele escreve se parece com o que escrevo”, e deu uma risada. Estava pensando na continuação do livro Um Acontecimento na Vida do Pintor Viajante, com o pintor Rugendas já na França, mas lembrando de sua passagem pelo Brasil. Meus olhinhos brilharam, ele percebeu. Rugendas era um protegido do naturalista Alexander Humboldt, e comentei com ele que a cidade vizinha chamava-se Hansa Humbolt até 1944, em homenagem ao alemão. Mas a história não lhe interessou muito e já engatou outro assunto: disse-me que se alguém quisesse encontrar todos os seus livros, só há um lugar no mundo que os vende: a livraria La internacional Argentina, na Villa Crespo, em Buenos Aires. Lá também funcionava a sede da Mansalva, editora independente que vinha publicando alguns títulos seus. Perguntei de suas leituras: estava relendo cada vez mais Shakespeare, Kafka, Proust, Borges, mas também literatura policial (sobretudo inglesa) dos anos 1930 e 1940.

O real e a ficção

 
Outra coisa que me impressionou: sua sinceridade. Polido, porém direto. Quando fomos a uma churrascaria e a carne não estava boa, disse sem pestanejar (só para a minha cara mesmo levar um argentino numa churrascaria). Quando saiu para passear e visitou um museu sem grandes atrações, disse que era “pobre, nada demais”. Mas elogiou as paisagens da cidade, o verde, os morros, os rios, o teatro onde foi o debate. Aliás, o debate foi ótimo: informal, divertido. Mediado pela jornalista Mariana Sanchez, fluiu tranquilamente, e contou com um bom público para os padrões locais: umas cem pessoas. O professor Joca Wolff, da Universidade Federal de Santa Catarina, que estuda Aira com seus alunos na pós-graduação, trouxe uma pequena turma de Florianópolis. Wolff, que traduziu dois livros de Aira, também nos acompanhou no camarim (onde tomamos uma taça de chardonnay, antes da conversa). No debate, Aira soltou uma linda frase sobre como a literatura era, para ele, uma forma de não decidir-se sobre o real e a ficção. Isso resume muito bem a postura de Aira diante da escritura, pois sempre foi alguém que escreveu histórias no tom de conto de fadas. Este desprendimento aprendeu no ofício de tradutor de best-sellers, durante mais de 30 anos. “Como os editores sempre pagaram a mesma quantia para traduzir a dita literatura séria e a comercial, comecei a preferir a comercial, pois dava menos trabalho e certo divertimento.” Então Aira sempre soube o que não queria para a sua escritura, graças ao seu trabalho de tradutor, mas também ao seu amadurecimento precoce, pois se olharmos as edições da revista El Cielo, dirigida por Arturo Carrera e Aira entre 1968 e 1969, já percebemos sua postura diante da literatura: uma convulsão, um espaço de invenção.
Na sua última noite na cidade, fomos ao melhor e mais fino restaurante da cidade. Foi um jantar descontraído, regado a três garrafas de chardonnay chileno. A certa altura, quando chegou a garrafa “saideira”, brincou: “Eis um título para um filme noir norte-americano: The Last Chardonnay”. O enredo era simples: um escritor desaparecia depois de um jantar em sua homenagem, numa pequena cidade brasileira. O principal suspeito era o organizador do evento, um obscuro escritor interiorano. Rimos um bocado. E, de fato, ele desapareceu, mas no dia seguinte, quando voltou para a Argentina, e desde lá nunca mais conversamos, nem por e-mail. Respondendo a pergunta feita na primeira parte deste texto, Aira se encaixa, como Bolaño e Borges, naquilo que chamamos de sagrado e — por que não? — fundador. E aqui me aproprio do termo criado por Damián Tabarovsky: “comunidade inoperante”. Aira bem pode ser o fundador de mais uma comunidade inoperante, pois se encaixa na proposta, o que sua literatura oferece é sua própria inoperância, sua incapacidade de converter-se em mercadoria (para o mercado) e sua resistência a transformar-se em obra (como supõe a academia). Escapa ao plano da eficiência e da plenitude (o campo do mercado), mas também se subtrai ao da codificação (a academia). Suas narrativas delirantes não se encaixam nos termos “conto” e “novela”, são espasmos contemporâneos. Vida. Mas como já escreveu o próprio Aira, “...para que viver, com efeito, por que queremos ser escritores, se o que desejamos é ser Rimbaud?”. 
 
 
 
Carlos Henrique Schroeder é autor da coletânea de contos As Certezas e as Palavras (2010), vencedora do Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, e do romance As Fantasias Eletivas (2014), sua homenagem para a literatura argentina.
 
 
 
 
 

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