Fator humano
28/07/2020 - 11:25

A coluna abre espaço para que escritores, tradutores, jornalistas e pesquisadores reflitam sobre temas ligados à literatura, livro e leitura. Nesta edição, Christian Schwartz discute o desenvolvimento da tradução produzida por máquinas.

visca
Ilustração: Visca

 

O sempre imprevisível e inventivo filósofo francês — nascido na Tunísia e radicado no Canadá há duas décadas — Pierre Lévy é fonte certeira de reflexão para um tradutor como eu, interessado tanto pelo aspecto prático do ofício (por razões óbvias de sobrevivência) quanto, na mesma medida, pelos estudos da tradução, ramificação das mais férteis da filosofia da linguagem, da sociolinguística, mesmo da história e da política. Lévy, a seu modo peculiar, pensa um pouco sobre isso tudo.

Conheci sua mais recente empreitada — uma espécie de interface linguística máquina-homem com ambição de tornar-se língua universal — na última passagem do filósofo pelo Brasil, no ano passado. Juremir Machado, seu velho amigo (e, como eu, jornalista e tradutor), escreveu sobre “a nova língua de Lévy”, batizada pela sigla IEML: “Existem palavras nas línguas naturais, como o português, polissêmicas, com muitos sentidos. Laranja pode ser fruta, cor ou, no Brasil, testa de ferro. Na IEML, laranja fruta tem um signo. Laranja cor, outro. E assim sucessivamente. Na prateleira, cada coisa tem a sua etiqueta”.

O próprio Lévy, em entrevista na mesma ocasião à Folha de S.Paulo, elaborou: “As linguagens naturais são muito irregulares. Hoje, os algoritmos são capazes de entender a linguagem natural, mas só com cálculos estatísticos. Com [a] IEML o significado é diretamente acessível e pode ser usado como um sistema semântico universal”. Na teoria, essa nova língua — “a língua da inteligência coletiva”, conforme o filósofo a definiu, lançando mão da expressão que o tornou mundialmente conhecido — se diferenciaria justamente por ser “semanticamente calculável”: a cada significado o devido valor atribuído.

Na somatória final, digo, em suma, eis o escopo do que projeta Lévy: “Se quisermos ter uma inteligência coletiva real, primeiro temos que poder nos entender através das barreiras de diferentes idiomas, ou de diferentes tradições culturais”. O que levou o amigo brasileiro Juremir Machado a vangloriar-se: “Já posso dizer que sou amigo do inventor do novo esperanto. Um esperanto da era da internet”.

 

Trabalho criativo
Nos últimos anos tenho tentado dar minha modesta contribuição à “inteligência coletiva” sobre o tema. Em conferências e textos publicados, procurei passar em revista algumas ideias a meu ver equivocadas sobre as possibilidades da tradução automatizada. A partir de um clássico que tive o prazer de traduzir — Frankenstein, de Mary Shelley —, penso ser possível, por fim, ilustrar o caráter humano incontornável daquilo a que chamamos linguagem (ou língua). 

Num breve apanhado sobre a evolução da tradução automatizada, pode-se dizer que ela tateou no escuro até o momento em que as máquinas deixaram de lidar com divergências estruturais dos idiomas — estas, em tese, “calculáveis” — para funcionar a partir de textos anteriormente traduzidos por humanos e acessíveis em imensos repositórios online como os arquivos multilíngues da ONU ou da BBC, para ficar em dois casos conhecidos. Pois a linguagem humana obviamente transcende a “pura” semântica ou sintaxe: é sempre texto — uma interação verbal com fim específico e imediato, impossível de prever antes da ocorrência linguística propriamente dita, ou seja, fora de seu contexto.

Por isso defendo que a tradução, particularmente a tradução literária, é um trabalho criativo; e, por exemplo, reescrever (para todos os efeitos, trata-se de um novo texto) um clássico como Frankenstein um ou dois séculos depois do original, em outra língua, para leitores futuros e contemporâneos, um trabalho semiautoral, o que máquina alguma jamais será capaz de fazer com o mesmo engenho de uma mão de carne e osso — se guiada por consciência humana, bem entendido.

“Que estranha é a natureza do conhecimento! Uma vez que adere à mente, ali se fixa como limo à rocha. Eu por vezes desejava livrar-me de todo pensamento e de todo sentimento [...]”, “reflete” o incauto monstro no romance de Mary Shelley, único veículo de expressão de suas “ideias”, ainda que, escondido no quintal de uma família a certa da altura da narrativa, ele se anime: “Passava meus dias observando-os minuciosamente, para mais depressa dominar a língua, e [...] entendia e era capaz de imitar quase toda palavra dita. [...]”.

Ao fim e ao cabo, porém, é obrigado a lamentar: “Mas onde estavam meus amigos e minhas relações? [...] Em minha lembrança mais remota sempre fui este mesmo ser, deste tamanho e desta altura. Até ali jamais vira outro que se assemelhasse a mim ou que quisesse ter alguma relação comigo. O que eu era? A pergunta surgia, recorrente, e a resposta não passava de resmungos”.

Conforme aprendeu da forma mais trágica o Dr. Victor Frankenstein, inventor da “horrenda criatura”, um autômato com aspirações ao que é inapelavelmente humano sempre terminará por se revelar um monstro.

 

Identidade diversa
É curioso, portanto, que em outra área que contabiliza avanços significativos nas últimas décadas, a neurociência (com a qual Lévy estabelece diálogo eventual), recorra-se a concepções filosóficas que um dia também guiaram, mas por caminhos improdutivos, o desenvolvimento da tradução por máquinas. É precisamente o caso da teoria segundo a qual a linguagem seria um código que encapsula “significados” — ou quem sabe “pensamentos”? — e a tradução, a chave para sua decodificação. A partir do monitoramento de nossa atividade cerebral, máquinas poderiam supostamente ser instruídas a falar, ou até escrever e criar, por nós. E sem mal-entendidos.

Mas o professor e tradutor David Bellos, em seu Is That a Fish in Your Ear?, excelente apanhado sobre as noções de tradução ao longo dos séculos, contrapõe: “Não faz sentido imaginar [que seja possível] transportar a dimensão étnica, de autoidentificação, contida em qualquer manifestação expressiva. Absolutamente toda e qualquer reformulação, no mesmo dialeto ou língua ou qualquer outro (a), constrói uma identidade diversa”.

Essa noção, absolutamente correta, contrasta com certa concepção leiga — um pouco totalitária e nada dialógica, talvez um sinal dos tempos — de que se poderia inventar um método de comunicação inter-humana que, no fim das contas, prescinda de... linguagem! Lévy não chega a tanto. Seu mais recente experimento parece, porém, pressupor que seria possível como que despir ocorrências verbais de sua, conforme Bellos, “dimensão étnica, de autoidentificação”.

Como bem observou meu colega Bruno Gambarotto — ele próprio responsável por outra tradução de Frankenstein, publicada quase simultaneamente à minha —, “a ideia da tradução como processo unicamente mecânico entra em conflito com a dimensão política do ofício e insinua instâncias de cerceamento da liberdade necessária à negociação em torno da diferença e da contradição inerentes ao contato humano. 
No limite, a possibilidade de apagamento mecânico da figura do tradutor sugere uma inflexão poderosa no modo como temos organizado nossas babéis e lidado com a própria ideia de pluralidade e com a produção de consensos (ou, mais tradutoriamente falando, equivalências)”.

Na visão de Gambarotto, com a qual concordo, “a tradução [...] integra a pluralidade social do pensamento” — a ênfase aqui é em social — “e o princípio do contraditório sob o qual as sociedades democráticas se organizam”. “Não há mecanização capaz de superar a condição histórica da tradução”, escreveu ainda meu colega de ofício — mais uma vez acertadamente.

Levy, ao contrário, parece projetar um mundo no qual, prescindindo da interação social (e democrática, espera-se) que nos torna seres de linguagem e afeto — justamente o que o monstro de Frankenstein não podia ser —, as máquinas nos imponham, enfim, sua “nova língua”.

Prefiro depositar minhas esperanças na definição oferecida em A Tradução Literária por outro grande praticante e pensador da tradução, Paulo Henriques Britto, para quem ela é “uma práxis social específica voltada para um determinado fim, a produção de textos que possam substituir outros textos”.

Com todas as humanas falhas a que se está — a que estamos nós, nesse belo ofício — sujeito (s).

 

CHRISTIAN SCHWARTZ nasceu em Curitiba, em junho de 1975, cidade em que vive atualmente. Estudou língua e literatura francesas na Universidade Paris IV (Sorbonne), na França, e cursou pós-graduação em literatura na University of Central England (UCE), em Birmingham, etapa de sua formação concluída na UFPR com um mestrado em Estudos Literários. Traduziu autores como Jonathan Coe, Nick Hornby, Hanif Kureishi, Graham Greene, Philip Roth, Jeffrey Eugenides e F. Scott Fitzgerald.

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