Entrevista | Jotabê Medeiros
17/03/2020 - 13:53

“As pessoas sabem onde está a honestidade”

Depois de 35 anos como crítico e jornalista cultural, Jotabê Medeiros se reinventou como escritor de biografias — são dele os livros recentes sobre Raul Seixas e Belchior

 

SANDRO MOSER

 

Após mais de três décadas como crítico e jornalista cultural, com atuação nos principais veículos da imprensa nacional, Jotabê Medeiros decidiu se aventurar como biógrafo. Lançou dois livros do gênero nos últimos quatro anos: Raul Seixas: Não Diga que a Canção Está Perdida (Todavia, 2019) e Belchior — Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017). Na entrevista a seguir, ele fala sobre o novo ofício, a vida e a obra de seus personagens, brigas com herdeiros — e com Paulo Coelho — e o que mudou no mercado desde a decisão do STF que liberou biografias não autorizadas.

 

Há cinco anos, você deixou de ser crítico musical e se tornou biógrafo de sucesso. Como o jornalista se transformou em escritor?
Na verdade, sempre tive vontade de fazer literatura. Tenho estima muito grande pelo que a ficção científica fez pela cultura pop mundial. Minha geração foi marcada pela literatura e pelo cinema de ficção científica. Sou da geração Blade Runner. Tinha essa fissura em compreender os grandes livros que se baseavam em distopias. Umas ideias de como atualizar os temas da natureza humana dentro do espírito da ficção científica. Até cheguei a fazer um livro, inédito até hoje, sobre isso. Chama-se A Morte Engarrafada. O texto, porém, ficou obsoleto porque muitas das coisas que eu projetava como ideias de futuro já existem no mundo real. Um drone assassino, por exemplo. Os apetrechos ficaram obsoletos.

 

O jornalismo cultural em que você sempre trabalhou também morre de obsolescência?
O que acontece é que o jornalismo que eu gostava, e ainda gosto muito de fazer, está se afunilando para uma extinção de propósitos. Não falo da função, mas dos ambientes em que cresci no jornalismo e que mudaram com o aviltamento das relações humanas. Um negócio complicado. Meu filho mais novo estava para nascer e achei que podia fazer alguma coisa de fôlego para ocupar meu tempo em vez de fazer texto para jornal todos os dias como sempre fiz.

 

E você pensou no Belchior (1946- 2017), que era então o maior mistério da cultura pop nacional...
Exatamente. Há cinco anos, o Belchior era um mistério filosófico em progresso. Ele estava desaparecido. Tinha negado toda a carreira e feito uma grande ruptura. Repetido um movimento sobre o qual eu já tinha lido muito. A pergunta que se impunha era: quem é esse cara para ser tão ousado existencialmente? Sem falar que os versos dele faziam eco na minha cabeça. Cresci ouvindo Belchior. Conhecia de cor todos esses versos que viraram grafite. Então resolvi compreendê-lo e passei um ano e meio em cima da história dele.

 

E, afinal, você descobriu o que fez Belchior sumir do mapa e dos acontecimentos?
Eu trabalhava no Estado de S. Paulo, que talvez tenha um dos melhores arquivos do Brasil. Um negócio prodigioso. Tem umas pastas com o nome das pessoas e recortes dos jornais da época, documentos, todas as fotos. Tinha, por exemplo, a pasta do [arquiteto e urbanista francês] Le Corbusier (1887-1956), na qual havia uma carta de próprio punho dele destinada aos arquitetos modernos brasileiros que se correspondiam com ele. Alguém deu para o Estadão publicar e ficou por lá. A pasta do Belchior era mais modesta, mas tinha muita coisa também. Quando finalmente saí do jornal, já tinha material muito bom e comecei a entender que talvez o Belchior tivesse enxergado o futuro.

 

Qual foi o futuro que ele viu?
Ele começou a perceber o Brasil como algo esgotado. Não como o fim da História, mas como um momento de profundo esgotamento do país e da sociedade dentro de um processo civilizatório. Com isso, ele foi sendo empurrado para uma situação-limite. O livro começou a ganhar um sentido mais forte para mim. Quase três anos depois, tenho vontade de fazer outro livro sobre ele. É como se você se tornasse refém da história. Vou muito para o Ceará e a cada viagem algo novo acontece. É uma sensação estranha. Mudou minha vida em todos os sentidos e a minha forma de enxergar a biografia como artefato literário.

 

E como você passou a enxergar os livros biográficos?
Para mim, um livro fundador é a biografia de Oscar Wilde, escrita pelo crítico Richard Ellmann, que morreu em 1987, debruçado nas provas tipográficas. Um biógrafo que evidentemente não viveu no mesmo tempo em que seu personagem. Ele, porém, conseguiu criar uma identificação com Wilde que o permitiu examinar a condição humana do biografado sem falsear a História. A biografia precisa ter este compromisso de não ser mentirosa. Se for só um amontoado de fatos e dados, ou pior, se for o exercício de vaidade do autor, ela também falsifica alguma coisa. Eu me dei conta de que precisava achar uma linguagem, que tivesse um pé no ensaio, mas respeitasse todos os rigores e pressupostos clássicos de uma biografia bem feita.

 

Quanto de jornalismo, historiografia e literatura tem numa biografia? Qual é a medida certa?
O autor precisa achar o tom. Ou corre o risco de o texto final ficar impessoal demais. Por outro lado, precisa evitar que o livro se torne relatorial. Neste caso, o texto passa a ser utilitário, serve como fonte para outros autores, mas não é literatura. Um verbete bem escrito já daria conta. A biografia precisa ir além. Conforme eu avançava, a pesquisa me dava a possibilidade de fazer minhas escolhas. Meus dois biografados são músicos. Isso me permitiu construir uma narrativa emocionalmente conectada ao espírito da música. Minha experiência como crítico, ao longo de 35 anos, me ajudou a usar a música como um guia espiritual e emocional.

 

Em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) acabou com a exigência prévia de autorização para biografias. Como isso mexeu com o mercado de livros biográficos?
Houve inegavelmente um movimento de produção e lançamento de biografias desde então. Não sei se ligado diretamente ao teor da sentença, mas, sobretudo, ao efeito psicológico da decisão. Antes, a família e outras pessoas achavam muito fácil processar o autor do livro. O histórico encorajava a contestação mesmo sem nenhuma razão aparente. Lembro que contestaram o livro do Ruy Castro porque ele disse que o Garrincha era “bem dotado”. É absurdo interditar um livro por casa disso. No máximo você pode dizer que é deselegante. Era uma falsa indignação oportunista. O que aconteceu é que a decisão desencorajou alguns abusos. 

 

Mas esse movimento é perceptível no número de venda de livros?
Não sei se foi o bastante para encorajar o mercado nesse ponto. Na verdade, você nunca sabe qual livro vai ultrapassar a barreira e existir como um produto. Uma biografia da Fernanda Montenegro, autorizada pela própria, com fotos inéditas, é um produto certeiro. A autobiografia da Rita Lee também vai vender. Tem algumas poucas apostas mercadologicamente certas. Mas, em geral, não há barbadas editoriais. A biografia tem isso. É um salto no escuro, é imprevisível.

 

Biografia do Belchior
Biografia do Raul

 

 

Depois da decisão, alguns artistas se apressaram a escrever suas próprias biografias. Talvez com medo de que alguém o fizesse antes...
Em alguns casos, certamente. O artista prefere escrever a toque de caixa para poder dar a palavra final. O Fagner escreveu um livro com uma jornalista sobre sua carreira para poder rebater coisas que estavam na minha biografia sobre o Belchior [Raimundo Fagner: Quem me Levará Sou Eu, Regina Echeverria, Agir, 2019]. O livro dele é um fiasco. As pessoas sabem onde está a honestidade. Você não pode querer que sua versão dos fatos se sobreponha à verdade histórica. É o que se tenta com algumas biografias chapa-branca que inclusive aviltam o mercado e lhe tiram a credibilidade. Eu compro um livro quando tenho confiança de que aquilo vai melhorar minha constante formação sobre determinados assuntos. Pode ser um movimento dentro da música ou nas artes. Se o livro é uma farsa, o leitor perde o tesão de comprar livros.

 

Que biografias você quer escrever agora?
Estou escrevendo uma biografia sobre um personagem que entrevisto e com o qual eu convivo desde a década de 1980. Vai permitir contar um pouco da história da migração da minha família. Não posso contar mais, pois há um contrato de confidencialidade com a editora e se eu falar pode atrapalhar a apuração. Mas também quero escrever sobre o Roberto Piva (1937-2010), que considero o melhor poeta contemporâneo brasileiro. Quero escrever, se me for dada a possibilidade. Vai vender livros? Ele não vendia nem os dele. Mas isso não é o mais importante, quero muito escrever sobre ele e sua obra.

 

E quais são outras biografias cuja leitura você recomenda?
A biografia do Oscar Wilde, que já citei, é fundamental para mim. Contudo, eu considero biografia muita coisa. Meu conceito é amplo. Eu acho que Os Sertões, de Euclides da Cunha, é uma espécie de biografia, além de ser um embrião do new jornalism. Eu li O Mago [Novas Páginas, 2015], do Fernando Moraes, sobre a vida do Paulo Coelho, e acho que ele foi muito corajoso. Me interessou muito a forma do autor se contrapor ao próprio interesse do biografado para contar fatos sem os quais a história não estaria contada e fez um bom livro. Alguns que li por imposição profissional não são livros que considero bem resolvidos. A biografia dos Novos Baianos, escrita pelo poeta Luiz Galvão, desperdiça uma puta história. Verdade Tropical, do Caetano Veloso, é um livro importante, mas totalmente autoindulgente.

 

Voltando aos seus livros, qual a maior diferença entre seus dois personagens, Raul Seixas e Bechior?
A diferença básica é que o Belchior é um racionalista, ainda que um poeta. Um poeta racionalista. O Raul é místico. Metafísico. Meio extraterrestre. Ao mesmo tempo, um debochado. Era preciso que o texto tivesse humor para ser honesto com Raul. Ambos eram grandes mentirosos, mas o Raul cultivava a farsa como processo, inclusive criativo. Há algumas semelhanças também.

 

E quais são elas?
Os dois eram outsiders, mas ambos cortejaram o grande público, a grande plateia, as multidões. Sem que fossem contraditórios ou violentassem seus princípios artísticos. A obra de cada um é bem diferente entre si. A do Belchior é muito fundamentada na literatura, inclusiva na literatura popular de autores como Zé Limeira, Patativa do Assaré e outros poetas sertanejos. Já o Raul é muito voltado para a construção. Belchior é o roteiro adaptado. Já o roteiro original vai para o Raul, que simplesmente inventa uma tradição.

 

Uma das novidades do seu livro é apresentar o Raul como maior formulador da música brega brasileira. Raul criou a estética da atual canção popular brasileira?
Sem dúvida. Hoje o que se faz tem a mão dele e de seu parceiro Mauro Motta, o cara que fez a interface com ele na música mais popular do país. O que eles criaram como produtores de discos se repete até hoje. Qual era a grande música jovem da época? Era a Jovem Guarda. Eles juntaram as duas coisas. O brega e a Jovem Guarda, dando-lhes substrato do rock, da guitarra. O que rola hoje com o sertanejo é que eles tão pegando a música eletrônica, o pop internacional, e fazendo a mesma coisa. Mas o Raul foi o cara que inventou o método. Você ouve essa música de “sofrência” e pensa: sem o Raul, isso nunca teria acontecido. Ouvi dez ou 12 discos que ele produziu até começar a ter clareza da radicalidade da obra dele.
 

Se de Belchior se sabia pouco, do Raul havia muita lenda tomada como verdade. Você teve problema com os fãs dele?
Tive vários problemas com raulseixistas fanáticos. Ameaças de cancelamento do livro, xingamentos. Como escritor me exigiu muito mais rigor na pesquisa, pois é fácil ser demagógico falando do Raul. As pessoas me marcavam nos posts para que eu soubesse que eles estavam me chamando de canalha. Teve algumas coisas assustadoras. Me chegou uma mensagem em nome de um satanista já morto, que fazia uma espécie de suspense macabro sobre meu futuro. Começou a aparecer todo o tipo de doido. Ao mesmo tempo, a apreciação crítica foi muito boa. Foi recebido como um livro que aponta caminhos para outras biografias do Raul Seixas.

 

Escrever biografia é sinônimo de suscetibilidades feridas e problemas com herdeiros. Como você lidou com isso?
A família do Belchior é muito grande e tem diversos irmãos (são 23 ao todo). Alguns colaboraram bastante e gostam muito do resultado. Mas há uma irmã que se acha a guardiã da obra e começou a procurar pontos que fossem passíveis de um eventual processo. Como não achou nada, ela fantasiou algumas passagens que supostamente ofenderiam a família. Eles até lançaram um compilado de entrevistas do Belchior, mas o livro não é importante. Porque um livro se prova quando enfrenta o grande desafio de chegar aos leitores. Obviamente, estou preparado para qualquer tipo de processo. Escrever biografias requer cuidados e eu os tomo. Tenho aqui duas caixas de documentos do Raul Seixas, áudios de entrevistas e outras coisas. Porque, se eu for questionado, vou ter como rebater. Fora isso, o meu papel é colocar o livro pronto, em pé. Se a partir daí ninguém gostar, tenho que ser humilde e dizer que fiz um péssimo trabalho, mas o livro do Belchior é um caso de sucesso.

 

Jotabê Medeiros

 

Belchior está sendo redescoberto pelos millennials. Suas músicas são hits do carnaval 2020. Como explicar isso?
Belchior tinha um jeito de falar com franqueza sem ser impositivo, de discordar com elegância. O tempo em que estamos vivendo politicamente, e mesmo em relação à sobrevivência, emprego e relacionamentos humanos, voltou a ser muito complicado. As letras dele se encaixam. Podiam ter sido feitas ontem, mas foram feitas em 1974. Este é o milagre do grande autor. Como Machado de Assis, que andava de casaca e monóculo no século XIX, percebeu e escreveu tantas coisas que fazem sentido hoje? Este milagre pinga das letras do Belchior. Elas têm essa conversa franca sobre as angústias dele que são as mesmas de hoje. Quem tinha sonhos no ano passado os viu morrer, mas não quer morrer de novo nesse ano. Quem é jovem viu seus sonhos serem ceifados de um jeito sombrio. Se reclamarem, podem ser linchados. Tudo isso remete à circunstância da obra dele, que é uma bússola para uma situação de extrema neutralização da capacidade de sonhar.

 

Na biografia, é preciso humanizar os heróis. Você fez isso com Raul e mexeu em um vespeiro de polêmicas. Você se arrepende de alguma decisão editorial? [Durante a pesquisa para o livro, Jotabê localizou documentos públicos referentes a uma possível delação de Raul Seixas sobre o paradeiro de Paulo Coelho à ditadura militar. Após a revelação, Coelho disse, no Twitter, que “ficou quieto por 45 anos e achou que levaria o segredo para o túmulo”, mas depois apagou o post e contestou a veracidade dos documentos]
De nada, ainda que só tenha me trazido problemas. Não escrevi livro para bajular fã. Isto foi o que fizeram até hoje. Sou jornalista, não posso repetir isso. Simplesmente não consigo ignorar um fato desses, mesmo sabendo do manancial de problemas que iria se abrir.

 

Por que você acha que o Paulo Coelho recuou da afirmação que fez?
Acho que ele ficou com medo. Ele viu que a reação foi maior do que ele pensara. Como ele foi um cara que sofreu muito na mão de um regime cruel, tem sequelas disso. Com toda a razão, isso ainda não acabou para ele.

 

E como você se sentiu quando ele disse que desconfiava dos documentos?
Meu primeiro impulso foi ficar puto com ele, pois, no limite, o Paulo Coelho me acusou de falsificação. Eu falei: sabe o que vocês podem fazer? Podem ir ao Arquivo Público, em Botafogo, no Rio de Janeiro, na pasta número tal. Os documentos estão lá. Não precisa nem de mim e nem do Paulo. Basta ir à fonte original. Se eu fosse ficar indignado, teria mandado ele às favas ou tentado polarizar com ele. Bater boca em público e dizer que o mentiroso é ele. Mas tem duas coisas: ele foi torturado, eu não fui. Ele sofreu tudo aquilo, eu não. A segunda pergunta é: o que eu tenho a ganhar com uma diatribe com o Paulo Coelho na imprensa ou nas redes sociais? Evidentemente, o que ele estava falando não era verdade. O que é fácil conferir, pois está em um acervo público. Mas se eu ficasse dando uma de ofendido, não iria ganhar nada. Quando ele falou que eu só estava querendo vender a “porra do livro”, achei engraçado. Só quero vender 10% do que ele vendeu.

 

Você nunca mais falou com ele?
Não, mas tenho respeito por ele. Ele assumiu um papel que não precisava em relação à situação política brasileira. Ele usa o prestígio dele para denunciar os absurdos em posições muito corretas, com as quais concordo. Como eu vou brigar com um cara desse nessa altura do campeonato?

 

Temos a ilusão de que podemos mudar o futuro, mas, na verdade, o que se vê é uma edição constante do passado. As narrativas se ajustam para que sirvam ao presente. Qual é a função da biografia neste contexto?
Talvez seja recuperar a importância do passado. Uma biografia bem feita ajuda a iluminar um pouco o passado. Assim, o caminho da história, e não só o de determinado personagem, fica mais claro, para que as pessoas possam fazer novas relações. Por exemplo, o Raul Seixas surge na mesma Salvador que a empreiteira Odebrecht. Uma das primeiras obras deles foi o Cine Romam, onde Raul cantou pela primeira vez. O Mick Jagger foi pra Bahia em 1968 e se encontrou com Raul. O Jagger estava procurando autenticidade global, misturas e viu e ouviu o que se fazia na Bahia. A leitura ensina que existem correlações na história destes caras que ajudam a clarear parte da vida cultural de todo um país.

 

Você nasceu no sertão da Paraíba, mas cresceu em Cianorte, no interior do Paraná. Que ventos te levaram de um lugar para o outro?
Nasci numa cidade chamada Sumé, no Cariri. Na fronteira com Pernambuco. Estive lá pela primeira vez em dezembro de 2018, depois de mais de 50 anos. Estou escrevendo um livro sobre esta saga da família. Uma família de migrantes da seca, das más condições financeiras. Sou o 11º filho. As dez primeiras eram mulheres. Meu pai queria ter um filho homem a todo custo. Para azar dele, veio justamente eu: um amante do glam rock. Não podia haver decepção maior.

 

Você ouvia glam rock em Cianorte? Como foi a sua adolescência lá?
Nada. Lá você só ouvia o que tocava no rádio. Era Luiz Gonzaga ou Eagles. Vivi lá até os 15 anos. Eu curtia quadrinhos. Provavelmente, era o maior colecionador de Cianorte. Tinha pilhas de gibis do Tarzan que eu trocava pelas fotonovelas das minhas irmãs. A jogada era o escambo de quadrinhos: os moleques tinham caixas que levavam uns nas casas dos outros e, assim, íamos trocando. Quando chegou a hora de fazer o segundo grau, peguei um “busão” e vim parar em Curitiba.

 

Você morou em Curitiba no começo da década de 1980. O que tinha para fazer na cidade?
Cheguei com uma mão na frente e outra atrás. Não tinha nem onde morar. Nos primeiros dias, fiquei no sofá da minha irmã Salete, no Bacacheri, até arrumar um emprego. Arranjei numa construtora, no Alto da XV. Eu fazia o pagamento dos peões. Naquele tempo, meu sonho era cruzar com o Dalton Trevisan, pois sabia que fazíamos o mesmo caminho: do Alto da XV até a Confeitaria das Famílias. Eu morava numa quitinete na Marechal Deodoro, com mais sete moleques. Na verdade, era uma sala comercial. Em volta tinha dentistas e advogados. Morei ali dois anos e pouco, até a época do vestibular. Passei na Universidade de Londrina. Assim, numa noite peguei mais um “busão” e fiz quatro anos de faculdade.

 

Culturalmente, qual era a grande diferença entre Curitiba e Londrina nos anos 1980?
Morei nas duas cidades e achava Londrina uma metrópole perto de Curitiba. Tudo acontecia em Londrina. A vanguarda paulista fazia eco lá. Assisti a shows do Arrigo Barnabé e do Itamar Assumpção em um palco flutuante às margens do lago Igapó, eles tocando e a gente sentado na margem. Lembro que vi algumas coisas como o Blindagem e outras coisas do subterrâneo de Curitiba. Morava ao lado da Reitoria [da Universidade Federal do Paraná] e ia nos shows de graça, mas achava a coisa muito protocolar, muito contida. Em Londrina era tudo muito doido. Na Folha de Londrina, o Rodrigo Garcia Lopes fazia tradução dos beats. Li “O Uivo” [poema de Allen Ginsberg, publicado em 1956] nas páginas do jornal. Aquilo foi um grande despertar para mim.

 

Como você virou crítico musical e realizou o sonho de todo garoto fã de música?
Era foca da Folha de Londrina e ganhava o piso. Era o único que não tinha como pagar a cerveja e precisava ganhar dinheiro. Morava na casa do estudante e era o mais duro de todos. Lembro que lia a revista Somtrês, que tinha os principais críticos da época, como o Doctor Reggae (pseudônimo de Otávio Rodrigues), Paulo Ricardo, Celso Pucci, Alex Antunes, aqueles caras todos. Queria escrever também. Um dia mandei um texto pretensioso, ensaístico, para a revisa. O Maurício Kubrusly era o editor. Ele leu, gostou, me contratou como crítico e me mandava discos em Londrina.

 

A mudança para São Paulo também foi num golpe de sorte...
Sim. Fui descoberto por um olheiro. Em 1986, passou por Londrina o jornalista [e escritor] Luiz Fernando Emediato. Ele estava procurando talentos para criar o Caderno 2 do Estadão e comprou a edição da Folha de Londrina no aeroporto. Na capa do caderno de cultura estava um texto meu sobre os dez anos da morte do [cineasta italiano Pier Paolo] Pasolini. Ele me ligou e fez uma proposta. Perguntei: ‘Quanto vocês pagam?’. Ele disse um número que era oito vezes o que eu ganhava. Peguei outro “busão”. Cheguei na redação e me colocaram do lado do Caio Fernando Abreu e do Ademir Assunção. A Laerte era a ilustradora exclusiva da equipe. Dos gibis em Cianorte até ali foram menos de seis anos. Eu atribuo tudo isso à minha mãe. Ela é índia Cariri, feiticeira da aldeia. Só pode ter sido isso. Ela deixou alguma coisa de proteção para mim.

 

SANDRO MOSER é jornalista. Trabalhou durante dez anos no jornal Gazeta do Povo, principalmente na cobertura cultural. Em breve, lançará seu primeiro livro — a biografia do ex-jogador de futebol Sicupira.