Conto: Tônio Caetano
28/07/2020 - 10:54

Peças

A vida era boa porque as vistas conheciam tudo abaixo do sol. Ele saía de manhã cedo e, quando voltava, ela estava lá para lhe fazer esquecer as dores do dia. Sempre foi assim desde que aprenderam a lidar com a terra quente, lá pro início dos tempos em que as lembranças alcançavam.

Agora a terra abafada desentoca diferença todo santo amanhecer. Mais a mais, o homem não basta sozinho no trabalho da cidade, mulher precisa ajudar. Sorte, neste sertão de gente nossa, o amorenado um do outro pra lembrar de lá.  

Teresa presta atenção a tudo o que as mulheres dizem. Não ponha a mão em coisa com ponta; seja dura com teu filho, senão a esquina leva e não recupera mais; essas máquinas de computador não pega, pesam na carroça e não valem nada na hora de vender; se for sacola de roupa, leva pra olhar depois em casa; junta madeira, moeda, lápis, caderno, que sempre se aproveita; e se achar batom assim, tira um naco de cima e pode usar o resto. Entendi.

Raimundo prefere catar lixo próximo da praia. Não é lixo, homem, é material reciclável. Deixe de besteira, Teresa, não é floreando o lixo que ele vai deixar de ser. Uma vez menino, flutuou naquela multidão de água dentro do sonho. Agora descobre que sonhos acriançados podem se tornar realidade. Olha, homem, uma garrafa bonita com uma peça de papel dentro. Não é peça, mulher, é fardo. Fardo se diz quando é bastante, peça é sozinho, homem. No pensamento dele aparece Dona Quininha sentada na frente da casa; não quis seguir os mais moços, ficou peça, certa de morrer no pouco que havia de seu. Que seja, Teresa, coloca na carroça, talvez dê pras botinas do Antônio. Não é botina, homem, é tênis. Você está cada dia mais sabida, mulher.

A garrafa não vale nada para o dono do depósito de materiais recicláveis. Não adianta abrir, Teresa, a gente não entende de abecedário mesmo; deixa a peça aí dentro pra ser a primeira coisa que Antônio vai ler quando estiver acostumado com as letras. Assim, a garrafa se torna o amuleto da família. Quando o menino espigar, todo esforço de vir se enfiar na cidade será recompensado.

visca
Ilustração: Visca

 

Aos olhos dos colegas de serviço, a vida está cada dia mais difícil, mas não é o que os dois sentem. Percebem os pés se curando da caminhada grande, os mortos já não pesando tanto nas costas, a comida com mistura sobre a mesa firmando a saúde no corpo; e mais, quando a chuva cai, a casa se enche de suspiros. Nesses momentos de xaxado no zinco do barraco, Raimundo segura a mão de Teresa e, em silêncio, pede aos santos que atendam aos pedidos do menino. Já é homem feito e não quer nada para si; quem sabe de tênis o menino tome rumo melhor na vida. Ela, mergulhada em pensamentos frescos, nada pede; deve ser besteira esta coisa de mulher gostar dela mesma.

Depois de bastante seguir os dois, um cachorrinho é colocado pra dentro da carroça por Raimundo. Teresa balança a cabeça em desaprovação. Em poucas semanas, Quininho encontra seu lugar na família. Esperto que só, no momento em que os primeiros pés buscam chinelos no escuro, corre de um lado para outro no quarto abanando o rabo. Na rua, do alto da carroça, late para Teresa e faz o homem rir. Espera pra ver, ainda afogo esse tinhoso. Não mexe no cachorro, mulher.

Como rotina, enquanto Raimundo ajeita as coisas pra caminhada diária, ouve a voz cansada de Teresa desgostosa do filho, que só sabe dormir. Não há jeito de gostar das letras. Levanta, estirado, vá lavar essa fuça, a escola não espera. Deixa de zanga com o menino, mulher, não quero filho torto. Não há mais menino nessa casa, homem. Deixa, Teresa, vamos indo que depois não sobra nada pra gente. Ela bate o pé, bufa enquanto Antônio se enrola no cobertor.

Hoje a voz cansada de Teresa se refugia nos ritmos do rádio. Antônio, rapaz vaidoso, usa tênis, mas ainda não aprendeu a ler. E o café, mãe? Aqui só come quem trabalha. Dá comida pro menino, mulher. A mãe está mudada, pai. A mão rápida de Teresa cai pesada no rosto do filho. Lava essa boca pra falar de mim! Antônio, branco, pega a mochila e sai correndo porta afora. Teresa! Nunca mais bata no menino, mulher, já falei que não quero filho manso. Vá, vá você também com esse bicho que hoje não estou boa.

Escutando samba arrastado no rádio, Teresa ajeita a casa, quara a roupa, põe o feijão pra cozinhar. Então se lava, pinta as unhas das mãos e dos pés da mesma cor, veste roupa de sair, passa demorado o pente e, por fim, o batom sem borrar. Está fresca, cheirosa, luzente, mas continua não se sentido bem, menos ainda quando olha pra cama arrumada e pensa num ninho vazio. Mais o sol alto na janela a dizer que Raimundo demora.

A algazarra das crianças a voltar da escola lhe faz caminhar até o guarda-roupa. Tira de lá a garrafa bonita com a peça dentro. Senta-se na cama e a segura com as duas mãos frente ao rosto do mesmo jeito que aprendeu a segurar Antônio nenê.

Nesse momento, ouve o barulho do portão a abrir, depois a porta da casa e, por fim, a porta do quarto do filho a bater.

Leva o objeto junto ao peito, o futuro que ainda precisa ser protegido.

 

Tônio Caetano nasceu em Porto Alegre (RS), em 1982. É especialista em Literatura Brasileira pela PUC-RS e venceu o Prêmio Sesc de Literatura 2020 com o livro de contos Terra nos Cabelos.

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