Pensata | Yuri Al’Hanati
26/06/2020 - 12:23

A coluna abre espaço para que escritores, tradutores, jornalistas e pesquisadores reflitam sobre temas ligados à literatura, livro e leitura. Nesta edição, Yuri Al’Hanati discute a crítica literária apresentada no YouTube.

 

Bastardos inglórios

yuri
Ilustração: Carolina Vigna

 

“A crítica de arte, eu diria, é a mais ingrata forma de escrita ‘elevada’ que conheço. Seria uma das mais desafiadoras (...) mas não estou certo de que o desafio valha a pena”, escreveu Clement Greenberg certa vez. Ele continua certo mesmo se tratarmos da coisa por outros suportes. Crítica em vídeo ou uma resenha de livro falada, por exemplo. A miopia de quem resolve julgar o trabalho de alguém pela plataforma e não pelo conteúdo não pode ser resolvida, mas posso ao menos mostrar esse universo ao leitor que, assim como eu há alguns anos, sequer sabia da existência do booktube, o segmento do YouTube destinado a resenhas e comentários sobre livros — a forma mais ingrata de produção audiovisual que existe.

A começar pela sua não remuneração. E parece que todo esforço compreensivo para tratar desse assunto passa obrigatoriamente por questões de mercado. Não vou tratar disso desta vez, até porque, assim como quase todos que estão nessa, não sei direito como fazer dinheiro. Como disse: ingrato.

Assim como Little Richard pariu o Sepultura, a crítica literária, o booktube, a revista New York Review of Books e o Clube do Livro das Senhoras Católicas compartilham um ancestral em comum em alguma sopa primordial que uniu liberdade de expressão, opinião crítica, apreciação estética e prazer contemplativo. Mas ainda é uma explicação insuficiente. Principalmente porque, para entendermos o que é esse fenômeno virtual, não só precisaríamos refazer todas as perguntas filosóficas fundamentais que concernem ao labor crítico, como ainda seria indispensável pensar nos muitos hibridismos que incidem no suporte escolhido. “Crítica em vídeo é crítica?”, “Crítica não especializada em vídeo é crítica?”, “Onde se cruza a linha entre crítica e comentário?”. Isso para não falar em todo debate sobre o que seja arte, sem o qual nada disso tem muito sentido. É muita interrogação para pouca maiêutica, eu diria, e talvez algum intrépido queira um dia definir tais arestas em uma monografia que seria fatalmente lida apenas pelo orientador. Mas nem isso poderia durar muito. É tudo muito dinâmico e a parte realmente interessada — o público consumidor — não dá a mínima para essas questões. A questão principal para o espectador de YouTube e para leitores da NYRB, à exceção de meia dúzia de “novaiorquines”, ainda é a ponte entre a arte e o consumo. O livro certo para a pessoa certa.

Entrei no YouTube para fazer vídeos sobre livros em 2014, diante da sugestão de uma amiga e alheio à existência de uma “cena”. Antes disso, havia passado quatro anos escrevendo regularmente em um blog e o alcance não foi, nem de longe, o mesmo no YouTube. Percebi que o exercício é abrangente e popular por vários motivos. Poderia listar, entre eles, o vácuo de identificação deixado entre a crítica acadêmica e a resenha jornalística, a passividade da recepção do espectador habituado ao multitasking, o fracionamento e, por conseguinte, a decrescente importância da arte especializada na vida do cidadão médio e a erosão das esferas disciplinares que a relação individual da internet, a precarização do trabalho jornalístico e o mal-estar difuso de nosso tempo proporcionaram. Por um lado, nem todo mundo tem a gana para ler Otto Maria Carpeaux. Por outro lado, quantos Otto Maria Carpeaux nasceram nos últimos cem anos no Brasil? Eu respondo: nenhum, ele nasceu em Viena. E há mais de cem anos.

A comunidade de pessoas que se dedica a produzir esse formato se mistura entre leitores interessados, leitores esforçados, notórios acadêmicos, professores, jornalistas e demais desajustados alimentados pelas páginas. E o perfil consumidor é exatamente o mesmo. Todos têm, em comum, a mesma necessidade dos escritores de tatear amizades na aridez humana. Os livros e os vídeos sobre livros são, em essência, a mesma coisa: garrafas lançadas ao mar, cartas enviadas a um destinatário que, esperamos, estabeleça um diálogo com nossa produção a partir de uma paixão em comum.

Com isso, não digo que o meio não tenha problemas. Tem, e muitos. Um observador que transite por círculos artísticos há algum tempo não achará nada de muito surpreendente: a sempre presente promiscuidade entre agentes artísticos e mídia, o entrave entre a turma do coração e a turma do dinheiro, a fragilidade dos egos e a difícil arte de manobrar retroescavadeiras em ruas estreitas — arrisco dizer que, no Brasil, o número de artistas que entendem o que é a crítica é igual ao número de críticos que entendem o que é a crítica, e essas duas cifras podem ser somadas com dedos. De novo, nem queira estender essas questões ao booktube.

 

Procure sua turma
Os benefícios, entretanto, superam em muito os vícios do meio. A possibilidade de subverter a agenda do chamado campo literário, para começar, é um belo tapa na cara de todo mundo que hoje finge nunca ter lido Bourdieu. Ainda mais se considerarmos a crescente fragmentação do mercado e a proliferação de tenazes editoras dispostas a garimpar verdadeiras pérolas deixadas para trás pelos tubarões da indústria. A escritora Buchi Emecheta foi um sucesso de público e de crítica não especializada, ainda que nem uma única resenha tenha saído na grande imprensa; fazer a coisa do seu jeito, livre de liturgias acadêmicas ou jornalísticas, é experimentar sempre e cada vez mais com a forma da crítica ou do comentário

Fale sobre Orwell se filmando com um pau de selfie. Comente As Portas da Percepção louco de ácido. Mate e coma uma barata ao final de uma leitura comparada entre A Metamorfose e A Paixão Segundo G.H. É o YouTube, afinal, o lazareto de todos os perdedores até que se prove o contrário; mas, acima de tudo, obedecer ao delicado xingamento de ir procurar a sua turma e, de fato, encontrar, é o denominador comum a todos que participam desse experimento, por distinta que sejam as origens. Alguém há de encontrar nossa garrafa lançada ao mar.

Construir o próprio império de poeira a partir de poucos elementos parece uma tarefa infrutífera e merecedora do riso hipócrita de cães velhos que sempre dependeram de apadrinhamento. No booktube não existe essa lógica. Todos estão nus e inevitavelmente sozinhos. O que salva é sempre a literatura e a rede de proteção que seus agentes, por mais que quebrem o pau, usam para salvar uns aos outros. O pioneirismo é sempre desorganizado, assustador e meio sem rumo. Pobre de quem não vê que isso é também a vida. A arte intensifica a vida, e falar sobre a arte põe cores e ordem no viver como uma dose cavalar de DMT. Sorte a nossa, porque DMT é meio difícil de achar por aí. A menos que você seja do Santo Daime.

 

Yuri Al’Hanati é autor do livro de crônicas Bula para Uma Vida Inadequada (2019) e criador do canal literário Livrada!, com mais de 40 mil inscritos. Vive em Curitiba (PR).