De Escritor para Escritor | Luisa Geisler
25/05/2020 - 13:03

Por mais que não entenda coisa nenhuma dele, já falei muito do meu processo criativo por aí. Dei dicas, já fui pragmática, positivista, já fui vaga, sensata, já mudei de opinião, sigo sendo coisa nenhuma. Publiquei meu primeiro livro aos 19 anos, ao ganhar o Prêmio SESC de Literatura, e, desde então, uma das perguntas mais comuns é esta. E oito anos depois, confesso que vejo minhas respostas mudando a cada entrevista. Estou descobrindo este processo. Meu mestrado foi sobre processo criativo e me convenceu de que cada processo é único e funciona pra quem funcionar. E a mera ideia de “funcionar” — em arte, ainda por cima ­­­— é discutível.

Quando recebi o convite para colaborar deste espaço, fiquei me perguntando se teria algo de novo a dizer. Inclusive, quis enviar um texto que já havia sido publicado no blog da Companhia das Letras, onde contribuo mensalmente faz anos. Tem um que se chama “O Processo Criativo”, de 2015, mais uma lista de sete coisas que aprendi, no blog 7 Coisas.

Mas confesso que falar de meu processo criativo hoje, no dia em que escrevo esta crônica, é falar de um processo muito único e coletivo ao mesmo tempo. É o processo de ser autor durante a pandemia do coronavírus, de tentar ser criativo quando a corrente pede (implora por) objetividade. Para mim, literatura é apresentar dúvidas. Mas é difícil trazer dúvidas num terreno tão pantanoso.

Tive dificuldade de ler ficção no começo da pandemia. Li muita poesia e quadrinhos. Livros que sempre disse que leria “depois”, mas a hora nunca chegava. Li Wislawa Szymborska, Paul Auster, Richard McGuire, Stephanie Borges. Viciei em não-ficção. No momento estou na história das células imortais HeLa, que geraram milhões de avanços na medicina (inclusive a vacina para poliomielite) e lucro à indústria farmacêutica. Essas células foram baseadas nas de uma mulher negra chamara Henrietta Lacks, já falecida, cuja família nunca viu um centavo deste dinheiro. O livro se chama A Vida Imortal de Henrietta Lacks, baseou um filme.

 

Tempo ao tempo
Não escrevi uma linha de ficção. O mais perto que cheguei foram traduções em que estou trabalhando de Joyce Carol Oates. Fiz algumas crônicas soltas, mas ficção em prosa tem me escapado como a água da torneira que uso para lavar as mãos por vinte segundos. Tenho uma tendência a entrar em crise por conta da crise (ficar ansiosa por estar ansiosa, etc.) e precisei de muito tempo para aceitar que talvez não precise escrever. Agora não.

Estava trabalhando em um projeto de ficção, um conjunto de contos em desenvolvimento. Estava fermentando a ideia de um romance, talvez — em geral, as ideias fermentam em mim por anos e guiam minhas leituras até chegarem ao papel.

Essa fábrica criativa está desativada, como a fábrica dos biscoitos Globo no Rio de Janeiro. Se alguém pede, ativo a fábrica com dois ou três funcionários, produzimos aquilo que nos é pedido. Mas logo em seguida puxamos o plugue do equipamento.

Tenho um pedido nesta pandemia para os queridos amigos escritores, criativos, artistas, que querem escrever (e criar), escrevam. Escrevam até a mão cair. Mas os que não querem, só peço que não achem que a fábrica está quebrada ou que tem que ser encerrada. Ainda estamos produzindo, mesmo com o equipamento desligado, ainda estamos aqui.

Talvez ler seja uma forma de investir no estoque agora, ou uma forma de fazer manutenção do equipamento. Não sei. Vocês pensem na metáfora aí. Não gosto dessas ideias tão empreendedoras que comparam gente com fábrica. Meu processo criativo é um “atualizando o programa”, “fazendo o download”, “instalando atualizações”. Agora me transformei em um software apenas para dizer: fiquem em casa. Fiquem bem.

 

LUISA GEISLER (Canoas, 1991) é autora dos livros Contos de Mentira (2010) e Quiçá (2011), ambos vencedores do Prêmio SESC de Literatura. Publicou também Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente (2014), De Espaços Abandonados (2018) e Enfim, Capivaras (2019).