Os editores | Maria Amélia Mello

Pedreira todos os dias

Na sexta entrevista da série “Os Editores”, Maria Amélia Mello comenta sua trajetória no mercado editorial, percurso focado na preservação da memória e na literatura brasileira, principalmente a do século XX

Marcio Renato dos Santos

E la foi a editora do Ferreira Gullar. Também editou Campos de Carvalho, entre outros autores que marcam a literatura contemporânea no Brasil. Esteve por 30 anos na José Olympio, definida por alguns, não como casa editorial, mas um monopólio — pelo fato de a empresa ter proporcionado visibilidade a praticamente toda literatura moderna brasileira. Desde 2015 na Autêntica, Maria Amélia Mello segue trabalhando com a memória, área em que se especializou, “que eu trato com mãos de jardineiro”.

Na entrevista que concedeu para a série “Os Editores”, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, Maria Amélia repassou alguns momentos de sua trajetória. O primeiro passo rumo a uma carreira de editora aconteceu na redação do jornal carioca Tribuna da Imprensa, onde editou, de 1973 a 1980, o “Suplemento Literário”: “Foi não apenas minha primeira experiência profissional, mas também uma oportunidade de trabalhar com jornalismo e literatura”.

A editora que elabora livros a partir de textos, documentação e registros históricos diz que aprendeu com sua mãe, Helena, o valor de guardar e, principalmente, preservar conteúdos para as futuras gerações: “A minha mãe sempre dizia que tudo tinha que ter data, mês e ano. Todas as fotografias que tenho em casa, e guardo muitas fotos, possuem um adesivo, no verso, com data, local e nome das pessoas. Isso faz parte da minha formação”.

Amiga de Rubem Fonseca, recebeu justamente do escritor um convite para trabalhar, entre 1980 a 1985, como coordenadora em um projeto de preservação da memória, o Centro de Cultura Alternativa, da Fundação Rio. Maria Amélia lembra o episódio, anuncia que vai publicar dois livros em 2019, um de contos e um infantil, e, entre outros assuntos, comenta que atualmente ministra cursos para jovens interessados em editar livros: “Acho curioso porque é uma profissão que todo mundo associa ao glamour, à festa e ninguém sabe o trabalho que dá”.

De acordo com ela, a rotina de editor “é pedreira todos os dias”.

      Fotos: Daniel Ramalho
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Eventualmente, editaria livros de youtubers?
Na José Olympio, cheguei a elaborar em uma coleção de jovens. Inclusive, encontrei um parceiro para o projeto. Faríamos 12 livros, de 12 autores, mas a ideia não vingou. Seria interessante olhar para as novas gerações, mas já tem gente que cuida do presente. Me especializei numa área, a memória, que eu trato com mãos de jardineiro.

Você gosta de trabalhar com bons textos literários? 
Sim, com certeza.

Qual é o público para quem você edita livros? 
Leitores bem informados, do mundo acadêmico, estudiosos e escritores. 

Então, existe mais ou menos um perfil definido do seu público? 
Sim, mas o importante é sempre ampliar esse público.

Seja na José Olympio, e agora na Autêntica, existe pressão pelo resultado de vendas? 
Sempre tem. 

Como você administra essa pressão? 
Sempre tem essa, não vou dizer cobrança, mas uma tensão no que diz respeito às vendas. Afinal, uma editora é uma empresa, seja a José Olympio, a Autêntica ou qualquer outra casa editorial. Uma editora é uma empresa e o empreendimento tem que dar lucro, há contas a serem quitadas. Só que não é possível comparar autores que estão sendo lançados agora com autores que editei e edito, como Ferreira Gullar, Campos de Carvalho, Torquato Neto e Rubem Braga, entre outros. Os novos autores possuem o apelo da novidade, o que seduz a mídia e pode se transformar em sucesso editorial. Vender livro, inclusive, é ótimo e não está fora dos meus planos. Mas os livros que edito são diferentes.

Por quê? 
Eles vão permanecer. Veja só. Há diferença entre um livro que faz sucesso hoje, e depois desaparece, e, por exemplo, a Caixa Rubem Braga, que editei na Autêntica e conquistou o terceiro lugar do Prêmio Jabuti 2017 na categoria Contos e Crônicas. A Caixa Rubem Braga permanece. Afinal, é uma obra que reúne cerca de 100 crônicas do autor, até então inéditas em livro, sobre artes plásticas, política e música, além de textos de Aldir Blanc, Miguel Sanches Neto e Milton Hatoum. Ao editar a Caixa Rubem Braga, estou criando catálogo dentro de uma empresa, a Autêntica, que busca registrar a memória e ter grandes autores vinculados a seu nome. A Caixa Rubem Braga vende, tudo bem que é para um público mais restrito, mas tem saída. 

Você é uma editora ligada à memória. Isso foi uma escolha ou é obra do acaso?
Em primeiro lugar, a memória, quer dizer, a História, a tradição e a preservação é algo que aprendi desde criança. A minha mãe, que se chamava Helena, sempre dizia que tudo tinha que ter data, mês e ano. Todas as fotografias que tenho em casa, e guardo muitas fotos, possuem um adesivo, no verso, com data, local e nome das pessoas. Isso faz parte da minha formação. As coisas devem ser guardadas e preservadas para as gerações futuras. Então, a memória sempre fez parte da minha vida e da história da minha casa.

Você estudou Jornalismo e atuou na imprensa. O fato de ser jornalista te ajudou a se tornar editora?
Estudei Comunicação Social na PUC-Rio e me formei em 1976. Mas foi o acaso que me levou para um jornalismo bem próximo da literatura. Fui fazer estágio na Tribuna da Imprensa, e o editor-chefe do jornal, o José Costa, se desentendeu com o editor do “Suplemento Literário”. O José Costa me chamou e disse: “Tenho um desafio para você”. O desafio seria editar o “Suplemento Literário”, com 8 páginas, que era publicado aos sábados. Ele me convidou porque me via chegar à redação com livros, mas eu tinha só 20 anos. Aceitei o convite e apenas quando saí da sala dele me dei conta da encrenca em que eu tinha me envolvido. Mas pensei: “Isso vai ser por apenas um, dois ou três fins de semana. Depois, ele vai encontrar alguém”. Editei o caderno até 1980.

Foi uma escola, literariamente falando, para você? 
Sim. O “Suplemento Literário” da Tribuna da Imprensa foi não apenas minha primeira experiência profissional, mas também uma oportunidade de trabalhar com jornalismo e literatura. Foi a minha formação no sentido diário, de desafio, de conhecer muita gente, escritores e editores, e entender o mercado editorial. Eu recebia livros para fazer matérias, entrevistas, dar notas e, nessa história toda, tomei gosto. 

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Em que editora trabalhou inicialmente? 
Viajei para Londres em 1976 e voltei em 1977. Mas continuei editando o “Suplemento Literário” do exterior, inclusive eu produzia entrevistas, notas e reportagens. Fato é que a temporada em que passei editando o “Suplemento”, da Tribuna da Imprensa, fez com que meu nome ficasse em evidência, principalmente entre os editores. Então, em 1978, o Ênio Silveira me convidou para trabalhar na Civilização Brasileira. Minha missão foi criar um departamento de imprensa para a editora, tarefa que cumpri com muita satisfação. Fiquei lá até 1980.

Você conheceu o Rubem Fonseca em que contexto? 
Em meados dos anos 1970, quando eu ainda era estudante na PUC-Rio. Fui apresentada a ele pelo grande escritor Victor Giudice (1934- 1997), meu amigo e amigo do Fonseca. Este ano, pela Autêntica, vamos lançar o volume Todos os contos, de Victor Giudice. Victor é um contista surpreendente, muito criativo e original, injustamente pouco lembrado. E, respondendo à pergunta, por meio do Victor, me tornei amiga do Rubem Fonseca, uma pessoa reclusa, que não gosta de conceder entrevistas, mas nós conversamos. É um grande escritor e tenho imensa admiração por ele. 

O Rubem Fonseca, inclusive, viabilizou uma oportunidade profissional em seu percurso. Pode falar sobre isso? 
Em 1980, o Rubem Fonseca era o presidente da Fundação Rio, que depois viria a se chamar RioArte. Era um “braço” cultural da Prefeitura do Rio. Naquele momento, ele me convidou para coordenar o Centro de Cultura Alternativa, que atualmente faz parte do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Lá, tive a oportunidade de organizar um acervo com jornais da imprensa alternativa, incluindo periódicos, revistas, artigos, discos e material de consulta. Também catalogamos o material da geração mimeógrafo. Realizei, enfim, um trabalho de preservação da memória. Trabalhei no Centro de Cultura Alternativa até 1985.

Então, em 1985, você é convidada para trabalhar na José Olympio. 
Inicialmente, como assessora de imprensa, na sede da empresa, em Botafogo. Aos poucos, comecei a prestar atenção na área editorial e a conversar com os editores da casa. Todo ano eu viajava para Nova York, onde o meu programa favorito era visitar livrarias. Ao retornar, indicava títulos, sugeria que a editora viabilizasse determinadas obras. Por sugestão do pessoal da José Olympio, fiz um curso, na ESPM, de marketing, que até então não sabia ao certo ainda o que era. Continuei indicando títulos, alguns deles foram publicados e eu também buscava espaço para esses livros na imprensa e nas livrarias.

Em que momento você migra da assessoria de imprensa para a função de editora?
Em determinado momento, me fizeram uma proposta na JO: “Estamos em busca de um editor para cuidar de títulos internacionais. Aceita o convite?” Aceitei, até pelo fato de que eu já apresentava sugestões de livros que conhecia durante viagens ao exterior. No entanto, antes de assumir a função, tive que apresentar um projeto, também solicitado a outras pessoas. A minha proposta, enfim, foi a escolhida. Mas tive que acumular, além da função de editora, trabalho nas áreas de marketing e imprensa. O desafio foi estimulante, mas chegou um momento em que eu estava sobrecarregada. A partir da década de 1990, pude me dedicar apenas à edição, e mergulhei de cabeça na atividade. 

Qual o balanço de seus 30 anos na José Olympio?
A editora foi criada em 1931 por um homem muito simples que tinha apenas o primário, o José Olympio. Esse homem conseguiu editar toda a literatura moderna brasileira: José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Campos de Carvalho, Mário Palmério, etc. Isso é um exemplo, algo único. Mas, quando cheguei lá, as obras desses autores estavam saindo da empresa. 

Qual o motivo? 
A José Olympio passou por um momento difícil, mais administrativo do que financeiro. E, evidentemente, o mercado também se renovou. Então, a JO teve muita dificuldade em se reinventar. Saímos da sede, em Botafogo, e fomos para um novo endereço, na Rua da Glória. Eu costumava brincar: “A José Olympio foi para onde todo escritor queria estar, a rua da glória”. Isso se tornou, inclusive, o nosso mote.  

Por que a empresa foi colocada à venda? 
Enfrentamos alguns momentos difíceis, só reeditávamos. A José Olympio foi colocada à venda e adquirida pelo grupo Record no final de 2001. No ano seguinte, fomos trabalhar na sede da Record, em São Cristovão, no Rio de Janeiro.

A José Olympio era uma editora, com autonomia, dentro da Record? 
Sim. Ao comprar a José Olympio, o Sérgio Machado (1948-2016), o proprietário da Record, reestruturou e empresa e enxugou a equipe. Ele me convidou para ser a editora da JO dizendo o seguinte: “Comprei uma tradição, uma História. Esse catálogo já não existe mais”. O que era verdade. Antes da venda da JO, tive a tristeza de ver autores saindo da casa, e a meta do Sérgio era recuperar, remontar, porque a História a gente não refaz.

Que obras-legados voltaram para a José Olympio depois que a Record comprou a editora? 
Conseguimos recuperar o legado de Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna, José Cândido de Carvalho, Raul Bopp, Antonio Callado, Marques Rebelo, Mário Palmério, Francisco de Assis Barbosa, entre outros. Consegui manter na casa o Ferreira Gullar. E ainda levei os títulos infantis do Chico Buarque, com ilustrações do Ziraldo. 

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Tem algum autor que você gostaria de ter publicado e, por alguma razão, não foi possível? 
Uma vez, um português perguntou se eu trabalhava na José Olympio. Respondi que sim. Então, ele fez a seguinte afirmação: “A José Olympio não era uma editora, mas um monopólio”. Afinal, a editora publicava quase todo mundo. Quando a Record comprou a José Olympio, em 2001, com os legados de Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado, que já estavam na Record, formou-se um imenso catálogo. Mas ainda faltava um autor.

O Guimarães Rosa? 
Exatamente. Gostaria muito de ter editado o Guimarães Rosa, mas nunca consegui. Agora, dizem que o mundo gira e a lusitana roda. Então, nunca se sabe.

O que motivou sua mudança da José Olympio para a Autêntica? 
Pedi para sair em setembro de 2014, mas permaneci na empresa até dezembro daquele ano. Percebi que já havia encerrado um ciclo na José Olympio, o que, de certa maneira, ficou evidenciado quando conquistei o prêmio Faz Diferença, promovido pelo jornal O Globo, que coroou meu trabalho com a memória. Mas eu queria um novo desafio. Quando a Rejane Dias, a proprietária da Autêntica, me convidou, pedi um tempo para pensar. A empresa já possuía um amplo catálogo, com obras de história, filosofia, psicanálise, literatura policial, etc. Mas recebi uma proposta para ser editora literária. Então, continuar na JO fazendo o que eu já havia feito, não tinha mais sentido. Na Autêntica, eu continuaria sim trabalhando com a memória, mas de uma nova maneira.

Que maneira? 
Criando livros. Como a Caixa Rubem Braga, em que o André Seffrin organizou as crônicas sobre artes plásticas, o Carlos Didier reuniu o material a respeito de música, enquanto o Bernardo Buarque de Hollanda selecionou o conteúdo relacionado à história e política. Ou o Torquato Neto — Essencial, livro organizado pelo Italo Moriconi, com textos que o autor publicou em jornais, datiloscritos e manuscritos vá- rios. Agora, na Autêntica, estou criando obras a partir de conteúdos que já existem, mas que não estavam organizados nem publicados em formato de livro anteriormente. 

Você foi editora e amiga do Ferreira Gullar. Quando vocês se conheceram? 
Comecei a trabalhar na Autêntica em março de 2015 e, em setembro, o primeiro livro que lancei pela empresa foi Autobiografia poética & outros textos, do Ferreira Gullar. Conheci o poeta o final da década de 1970, período em que eu trabalhava na Civilização Brasileira e ele era publicado pela editora. Éramos vizinhos, em Copacabana. Nossa amizade foi construída passo a passo, ano a ano. Na José Olympio, nossa relação se estreitou. Conversávamos praticamente todos os dias por telefone. Passei Natal, Ano-Novo, aniversário na casa dele, enfim, foi um diálogo permanente. 

Você tem ministrado cursos de edição. Muita gente deseja editar livros no Brasil? 
Quanto mais se diz que o livro vai acabar, mais as pessoas parecem estar a fim de se tornarem editoras. É impressionante. Acho curioso porque é uma profissão que todo mundo associa ao glamour, à festa e ninguém sabe o trabalho que dá. É pedreira todos os dias. Seja para trabalhar com autor que já existe ou para descobrir um novo autor. Bom, o pessoal quer saber como é editar clássico ou como fazer para atrair a atenção dos leitores hoje, entre outras dúvidas.

Pessoas de que áreas querem ser editoras? 
No passado, editores eram pessoas da área de Humanas, dos cursos de Ciências Sociais, Letras e até História. Hoje não. Atualmente, editores são pessoas da Comunicação Social, principalmente do curso de Jornalismo. Afinal, o jornalista é um generalista que sabe onde estão as informações, quem deve procurar e, o que é muito importante, tem agilidade. Porque o editor tem de saber fechar o conteúdo rapidamente. Jornalista consegue criar pautas, por exemplo, em cima da datas, efemérides redondas, cem anos de nascimento, por exemplo. E isso ajuda no momento de pensar em um novo livro. 

Seu livro de contos Às oito, em ponto, conquistou o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras em 1984. Pretende voltar a escrever e publicar contos? 
Com o fim do ciclo na José Olympio, comecei a olhar para dentro de mim. Além disso, alguns colegas nunca deixaram de comentar: “Você precisa voltar a escrever, gosto do que você escreve”. Às vezes perguntavam: “Você é a mesma Maria Amélia que escreve contos?” Esses são bons estímulos para voltar e, de fato, estou escrevendo um livro novo de contos, que devo publicar em 2019. Inclusive, ano que vem também deve sair meu livro infantil, que já escrevi.