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Por que ler os clássicos?

O professor Wilton José Marques, da Universidade Federal de São Carlos, explica a importância de ler obras canônicas


graciliano

Graciliano Ramos escreveu romances como Vidas secas e Angústia, considerados clássicos da literatura brasileira.

De maneira geral, pensar em literatura, por prazer ou mesmo por profissão, também tem lá os seus riscos, tanto que existem algumas perguntas que, com o passar dos tempos, sempre teimam em reaparecer na ordem do dia, ansiando novas respostas a velhos dilemas. Acredita-se que, por conta dos momentos diferentes, as respostas talvez possam ser diferentes. De todo modo, a inexistência de respostas prontas é, ao mesmo tempo, a melhor explicação para o eterno retorno das perguntas. Aliás, diga-se de passagem, que tanto em literatura quanto no exercício da crítica literária, respostas sedimentadas e únicas não costumam durar muito. Entretanto, antes de se conjecturar que isso possa significar um aparente beco sem saída, não custa lembrar que a ausência de respostas, ao contrário do que parece, é sempre algo interessante, pela razão óbvia de abrir novamente a possibilidade de se pensar na pergunta. E é aí que está toda a graça da brincadeira. Assim, entra ano, sai ano, e uma dessas, que inevitavelmente volta à baila, é a seguinte: por que ler os clássicos?


De saída, a primeira dificuldade que assombra tal pergunta é a de justamente tentar definir o que diabo é um clássico literário. A despeito da própria “elasticidade” do termo comportar várias definições, a obra clássica pode ser pensada como aquela que, ao longo do tempo, acaba por se tornar um referencial fundante para a literatura, seja em termos locais, seja em termos universais. Ou ainda para usar uma das dezesseis possibilidades de definição do dicionário Aurélio — que, aliás, é um clássico —: “Diz-se de ou obra ou autor que, por sua originalidade, pureza de expressão e forma irrepreensível, constitui modelo digno de imitação”. Em resumo, é possível associar à ideia de obra clássica tanto à necessidade de certo reconhecimento ao longo do tempo, quanto à verdade de que, fatalmente, ela se tornará um modelo para outros autores. Ambos, obviamente, chancelados por leitores e críticos. 


De fato, tempo e modelo são dois pontos de partida interessantes. Ainda que se possa dizer que algumas obras sejam clássicas de nascença, a maturação do tempo costuma ser a prova dos nove de uma obra literária, permitindo que olhares críticos dos mais diversos matizes se debrucem sobre ela, confirmando ou não o seu estatuto. Sem maiores dificuldades, é perceptível que várias obras literárias transcendem seu próprio tempo histórico e, a cada nova leitura, continuam a suscitar discussões, ampliando o alcance do debate estético em torno delas. E mesmo hoje, quando quase tudo se torna descartável e leva, erroneamente, alguns leitores e críticos a acharem que o diálogo necessário com a história, e consequentemente com a tradição, não serve para nada em literatura, não é possível fugir dessa simples verdade, isto é, a de que o indício de perenidade de uma obra só vem mesmo com o tempo.


Já quanto à noção de modelo (e modelo deve ser aqui pensado de maneira mais ampla e não apenas no sentido aristotélico do termo consagrado pela crítica), é preciso levar sempre em conta que algumas obras, construídas a partir de premissas estéticas algo datadas, transformam-se em modelos não apenas em função do comprometimento exemplar de seus autores para com tais premissas, mas porque, na verdade, elas trazem em si algo a mais, algo que, se compreendido, amplia, e muito, a capacidade de o leitor sentir e entender o mundo e suas inerentes contradições. Em outras palavras, bem lido, o texto clássico tem o poder (talvez secreto?) de entranhar inquietações na alma do leitor, sobretudo quando tematizam problemas e situações que, no limite, preocupam-se — a todo o momento — em lembrar ao ser humano que este não pode se esquecer de sua própria humanidade. Nessa mesma direção, o crítico Antonio Candido, discutindo o direito universal à fruição da arte, observa com a lucidez de sempre que a literatura “desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante”. E nos dias de hoje, regidos pela lógica do individualismo e do sucesso a qualquer preço, a lembrança de humanidade é absolutamente necessária. 


A leitura de um clássico, no entanto, pode apresentar eventuais dificuldades. Às vezes, a própria palavra “clássico” cria no leitor um anteparo de medo que não apenas o constrange mas, o que é pior, afasta-o do livro. Mas, como se sabe, o conhecimento não é algo dado assim de graça, é preciso buscá-lo. Com um pouco de esforço, já que os percalços intelectuais também legitimam o saber, o leitor poderá conhecer mundos e personagens que são paradigmas fundamentais da própria cultura universal. Afinal de contas, a experiência de ler obras, por exemplo, como as de Homero, Shakespeare, Cervantes, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, é um convite permanente à reflexão, seja sobre o mundo, seja sobre o indivíduo. Um grande texto nunca se esgota na primeira leitura, sempre existe alguma coisa a ser percebida ou algum segredo a ser decifrado. Aliás, talvez por causa dessa mesma percepção, é que o escritor italiano Italo Calvino, em livro famoso, cujo título é o mesmo deste artigo, tenha observado com todas as letras que “clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: estou relendo e nunca estou lendo”.


De todo modo, lendo ou relendo, o que de fato importa é que a leitura de um clássico é antes de qualquer coisa um passaporte seguro que pode muito bem conduzir o leitor a um saber reflexivo e (por que não?) ao prazer. E, no caso brasileiro, cuja democratização universal ao acesso à cultura letrada, a despeito dos progressos, ainda está por vir, ela é ainda mais necessária. País justo é o que prima pela educação e disseminar livros (clássicos ou não) já é um bom começo. Então é preciso sempre ler pela primeira ou enésima vez, já que a literatura e os clássicos de modo geral são igualmente formas especiais de conhecimento que ajudam o leitor, ainda segundo mestre [Antonio] Candido, a não apenas “conhecer os sentimentos e a sociedade”, mas, sobretudo, “a tomar posição em face deles”. Ou seja, ter uma posição crítica sobre o mundo passa inevitavelmente pela reflexão sobre ele, e os clássicos estão aí para serem lidos.


Enfim, para citar um clássico brasileiro, se “viver é”, de fato, “muito perigoso”, ler um clássico é, nesse sentido, igualmente um risco, já que, na maioria das vezes, existe a real possibilidade de o leitor (ainda que desprevenido) sair do livro um pouco melhor do que quando entrou nele, o que, de todo modo, já é um ganho significativo. Ou então, para rematar a questão, e recorrendo outra vez a Ítalo Calvino, nada como a velha e boa obviedade: “a única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos”. Quem ler, verá...

Wilton José Marques é professor de Literatura Brasileira e Teoria Literária da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor de Gonçalves Dias: o poeta na contramão (2010) (Prêmio Jabuti/2011). Vive em Campinas (SP).

 

Caminhos que levam aos clássicos

Da redação

Estudiosos do processo literário já escreveram livros a respeito das obras fundamentais e, para quem tem interesse em conhecer ainda mais os clássicos, vale a leitura dos trabalhos de Harold Bloom, sobretudo Gênio — os 100 autores mais criativos da história da literatura. Na extensa obra (são 828 páginas na edição brasileira), o professor da Universidade de Nova York faz uma leitura crítica e explicativa da obra e da vida de grandes nomes da literatura de todos os tempos, de William Shakespeare a William Faulkner, de Homero a Ernest Hemingway — ainda há espaço para Machado de Assis. Bloom afirma que Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado, “é uma obra-prima”.

50 clássicos que não podem faltar em sua biblioteca, de autoria da crítica literária Jane Gleeson-White, é outro guia que aponta grandes textos de ficção e traz informações sobre o contexto no qual as obras foram escritas.

Na década de 1960, o escritor Carlos Heitor Cony adaptou grandes clássicos da literatura, como O Ateneu, de Raul Pompeia. José Louzeiro adaptou O cortiço, de Aluísio de Azevedo. Há inúmeros projetos similares que seguem até hoje. A editora gaúcha L&PM, por exemplo, tem a coleção “É só o começo”: são clássicos para “neoleitores”, com livros com enredos simplificados. No catálogo, Romeu e Julieta, de William Shakespeare, e O guarani, de José de Alencar, entre outros.

Há, inclusive, adaptações que trazem, em um mesmo exemplar, mais de um título. É a proposta da coleção “Três por Três”, da Editora Saraiva. Entre as publicações do projeto, destaca-se Três famílias — com Eugênia Grandet, de Honoré de Balzac, e Orgulho e preconceito, de Jane Austen, ambos adaptados por Dionisio Jacob, autor do terceiro livro incluído no volume, Vampíria.

São caminhos que têm por finalidade aproximar os leitores dos grandes textos de todos os tempos.